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quinta-feira, setembro 18, 2014

A Escócia já ganhou

esquerda
http://www.esquerda.net/dossier/escocia-ja-ganhou/34137


A Escócia já ganhou

O referendo de 18 de Setembro trouxe para o quotidiano discussões sobre história, política e economia, sobre o que foi o passado e o que se quer do futuro. Quase ninguém responde agora “ah, eu não falo dessas coisas”. E já não era sem tempo! Artigo de Mariana Vieira, em Edimburgo.
"There will be no miracles here" - jardim do Museu de Arte Moderna de Edimburgo. Foto Luís Branco
Quando cheguei à Escócia, em Março de 2006, aprendi que teria de passar a acompanhar os resultados do futebol se quisesse fazer amigos. A partir daí, chegava-se ao resto. À política, às histórias da família, às preferências religiosas e assim por diante. Puxar qualquer um destes assuntos sem aquecimento prévio podia ser infrutífero e considerado mal-educado. Se tivesse chegado à Escócia em Março de 2014, a conversa teria sido outra. Durante os últimos dois anos e meio, trocar opiniões sobre assuntos sérios (para além da bola, claro) deixou de ser coisa reservada para quando a noite já vai longa. O referendo de 18 de Setembro trouxe para o quotidiano discussões sobre história, política e economia, sobre o que foi o passado e o que se quer do futuro. Quase ninguém responde agora “ah, eu não falo dessas coisas”. E já não era sem tempo!
O jornalista Jeremy Paxman queixava-se esta semana de que “uma Svetlana qualquer com residência a norte da fronteira podia votar” mas ele, “um quarto escocês”, não podia. Pois… exactamente porque qualquer Svetlana que viva na Escócia faz parte da comunidade sobre a qual está a votar, enquanto a ligação de Paxman será de material genético, portanto absolutamente irrelevante. O referendo, portanto, dizia-me respeito.
No dia em que o referendo foi anunciado, pensei, enquanto estudante que tinha vindo de passagem por um ano e acabou por ficar quase uma década, que o assunto não me dizia respeito. Quer dizer, interessava-me, como (quase) tudo o que é humano me interessa, mas pensava que não me cabia decidir sobre questões identitárias alheias e que a minha antipatia por nacionalismos me fazia desconfiar da necessidade disto tudo. Votar NÃO nunca foi hipótese, os escoceses que fizessem o que entendessem, mas não votar de todo chegou a parecer a opção mais sensata. O preconceito era meu. Muito pouca gente encara a independência como um fim em si mesmo e, como se vê pela escolha de universo de eleitores, é tudo menos uma questão identitária*. O jornalista Jeremy Paxman queixava-se esta semana de que “uma Svetlana qualquer com residência a norte da fronteira podia votar” mas ele, “um quarto escocês”, não podia. Pois… exactamente porque qualquer Svetlana que viva na Escócia faz parte da comunidade sobre a qual está a votar, enquanto a ligação de Paxman será de material genético, portanto absolutamente irrelevante. O referendo, portanto, dizia-me respeito. Fui ficando e assim que comecei a frequentar reuniões e sessões de esclarecimento, percebi a campanha do SIM tinha uma forte componente internacionalista e anti-globalizante, aliada a uma enorme convicção de que a Escócia só terá sucesso se proteger e incentivar as suas comunidades imigrantes. Curiosamente, a noção de que não fazia parte desta terra veio do lado oposto, com a substituição de um nacionalismo escocês pouco acentuado por um nacionalismo da União, paternalista, insistente e assustador.
À falta de um discurso identitário vindo da campanha do SIM que pudessem atacar, os seus adversários agarraram-se à noção de família. Como se votar pela independência não significasse pôr fim a um império obsoleto representado pelo Reino Unido, que consideram uma das maiores vitórias do pacifismo e da cooperação, ou uma normalização da vida democrática, mas sim tornar-se um estrangeiro para os amigos e parentes, erguer uma fronteira entre iguais, precisar de um passaporte para visitar a avó. Claro está, isto exclui quem não é daqui, a quem o apelo às raízes britânicas não aquece nem arrefece — faz parte da condição de migrante saber que se deve ter o passaporte à mão para visitar os primos e nunca ninguém deixou de ter irmãos por mudar de país. O discurso deveria pesar ainda menos nesta terra, em que tanta gente tem pais irlandeses, tias americanas, filhos indianos, avós canadianas e tantas outras felizes misturadas dentro e fora da gigante Commonwealth. Da família à metáfora do divórcio ou da birra de adolescente foi um saltinho. A Escócia quer sair de casa e levar tudo com ela. A Escócia sempre foi meio tontinha, claro, mas gostamos muito dela. A Escócia devia dar uma segunda oportunidade à Inglaterra (sempre a Inglaterra, nunca Gales ou o norte da Irlanda) e “trabalhar na relação”, como se o problema se resolvesse com um livro de auto-ajuda e umas sessões de terapia. Claro que quem não nasceu aqui nem sequer interessa para a metáfora, nem como familiar distante. Teria sido fácil pegar mais consistentemente no medo da multiplicação de vistos e autorizações de trabalho, por exemplo. Mas não. O apelo é apenas emocional, a quem se identifique com a “identidade britânica”. O que, de certa forma, é compreensível, já que de outra forma teriam, por exemplo, de justificar as ameaças recorrentes de Cameron de dificultar o acesso ao Reino Unido ou ao sistema nacional de saúde britânico.
Falhando a noção de família, o Labour (mas agora também a direita, numa mudança de discurso surreal) reclama o património da solidariedade entre os trabalhadores. Quebrar a unidade do Reino Unido é abandonar a Inglaterra a um governo Conservador perpétuo e dividir os sindicatos nas suas lutas comuns**. Esquecendo por um momento que o sindicalismo ainda não recuperou de todos os ataques que lhe foram feitos desde os anos 80, o que é impressionante no discurso pretensamente de esquerda do lado do NÃO é a impressão que deixa de que a solidariedade fora de fronteiras e, já agora, através de línguas diferentes, lhes é desconhecida. Transparece uma insularidade que, infelizmente, é comum noutras áreas, como muito do discurso académico, em que para lá da Mancha só há, quando muito a Alemanha. E da solidariedade com a Irlanda independente parece que é melhor não falar, pelo sim, pelo não. A ideia de que uma nação que acaba de redescobrir o que é a intervenção directa na democracia deva disso abdicar em nome de uma solidariedade vazia, que dispense outra de organizar a sua resistência, é aberrante. Mas esta gente nunca olhou para o resto do mundo? Nunca viu campanhas internacionais? Não se lembra, como o actor Kieran Hurley repete cada vez que pode, de que ainda há bem pouco tempo os estudantes escoceses se organizaram para apoiar os estudantes ingleses que tinham de pagar propinas? Propinas essas que não seriam aplicadas na Escócia? A solidariedade estará presente sempre que houver movimento social, mas a reorganização sindical e, por muito que lhe tenham resistido, a reorganização do Labour e das suas prioridades por todo o território tem até muito a ganhar com o debate da independência e com a crescente politização de um eleitorado há muito afastado das urnas.
Com o chavão da solidariedade (que sempre fizeram questão de boicotar quando existiu de facto), de repente, toda a gente do centro-direita governamental se tornou ultrasocialista e reclama uma “transformação radical do Reino Unido” que passe por todas as suas nações. Bom, de repente é como quem diz. Desde o momento exacto em que o pânico se instaurou graças a uma única sondagem a apontar para o que até aí parecia impossível. Líderes partidários prometem empenhamento de alma e coração na devolução máxima (projecto que têm vindo a vetar há décadas e contra o qual estiveram no momento da decisão dos termos do referendo), falam no horror do socialismo num só país (quem diria!), contra o nacionalismo e o terror do tirano que quer tomar a Escócia e acabar com a imprensa livre. Por outro lado, o nível de alerta sobre o terrorismo é aumentado, admitidamente sem qualquer informação nova que o justifique, duas semanas antes do referendo, numa manobra óbvia para influenciar o eleitorado preocupado com a defesa nacional face a um atentado, se o exército se dividir.
O Museu de Arte Moderna de Edimburgo, perto de uma das saídas da cidade mas também no caminho de um dos grandes hospitais, tem dois edifícios, um de cada lado da estrada. No friso do edifício principal, escrito em néon roxo, lê-se "vai correr tudo bem". Do outro lado, por vezes aquele por onde se passa primeiro mas num jardim que não se vê da rua, outra instalação luminosa avisa: "não vai haver milagres". A mensagem é mais ou menos reconfortante conforme a ordem de leitura das frases mas qualquer das versões se aplica a esta campanha.
Nos meios sociais, a campanha do NÃO nas últimas duas semanas é o delírio! Fala-se de gangs organizados de activistas do SIM que se passeiam pelas ruas a ameaçar e intimidar quem deles discorde. Fala-se em fascismo e totalitarismo, repressão e violência. Do medo de dizer que se vai votar não! Medo de quê, já agora, quando se tem toda a banca, a imprensa e a opinião transmitida dos países aliados do mesmo lado? O discurso de Cameron e amigos soa a falso. Soa a falso que quem ameace com os cenários de desgraça sejam também aqueles que foram responsáveis pela situação actual e que, até há duas semanas, só tinham para oferta mais austeridade, xenofobia e privatizações de serviços essenciais. Ou de gente que não põe os pés na Escócia há anos e não tem noção de que o palco principal desta campanha tem sido o contacto directo com as populações, em sessões cheias de gente interessada em debater todos os aspectos da questão.

Que os líderes partidários mintam descaradamente, ou que se minta descaradamente nas redes sociais, é uma coisa, mas a imprensa também entrou a matar na jogada***. Para além dos cenários apocalípticos, sempre com a caução de um nobel qualquer, as notícias desceram ao nível do absurdo e da desonestidade caricatural. Compara-se Alex Salmond com Hitler, Mugabe, ou Estaline. Anuncia-se, em jornais nacionais como o Telegraph (que apesar de tudo não é um tablóide) que a Coreia do Norte já declarou o seu apoio à independência e manifestou interesse em negociar com os produtores de whisky. Outros dizem-nos que o Monstro do Loch Ness vai mudar-se para Lake District e afectar o turismo. Os aristocratas campeões de Polo de Elefante estão com medo do que esses gatunos lhes vão fazer às terras. A “piada” de primeiro de Abril do Guardian já se tornou rumor “confirmado”: se a independência ganha, as pessoas vão ter de passar a conduzir pela direita. Mais grave do que isso, hoje, a dois dias do referendo, uma fonte não identificada revela à imprensa que tudo o que Alex Salmond tem andado a prometer sobre o sistema nacional de saúde é mentira e que planeia uma série de cortes para o dia seguinte à votação. A manutenção do sistema nacional de saúde é só um dos elementos fundamentais da campanha do SIM. Depois de uma campanha tão parcial começa a ser difícil distinguir realidade e ficção. Se tudo correr bem, os eleitores de dia 18 saberão distinguir o desespero confrangedor de Londres pela manutenção do status quo da vontade real de transformação, mas é muito provável que as ameaças tripliquem ainda nas últimas horas antes da votação.
Voltando ao lado positivo. Uma das enormes transformações desta campanha foi para a esquerda radical. Primeiro, tem sido uma lição sobre colaboração. Por muito que se possa desconfiar do programa do SNP, as campanhas têm sido paralelas e complementares, nunca hostis entre si. O SNP continuará na sua fase mais à esquerda enquanto tiver consciência de que grande parte do eleitorado que lhe permitiu maioria absoluta votou pelas políticas de justiça social, desiludido com o Labour. A esquerda voltou a ter motivação e mão de obra que lhe faltava há muito. O SSP (em crise desde o escândalo à volta de Tommy Sheridan) e os Verdes (ainda com representação parlamentar) estiveram muitíssimo envolvidos em todo o processo e foram responsáveis por trazer de novo para a participação política grande parte das áreas mais pobres e geralmente negligenciadas e pela mobilização da classe trabalhadora. Se o SIM ganhar, será por causa deste trabalho prolongado com as populações, para o qual o NÃO só acordou há uns dias. Dizia acima que a independência não é um fim em si mesmo para a maior parte daqueles que decidiram levar a cabo esta campanha, mas uma forma de tornar a Escócia uma nação democrática, em que, qualquer que seja o governo, os eleitores sintam que está ao seu alcance influenciar a sua escolha e avaliar a sua intervenção. A reivindicação de que a Escócia possa funcionar como uma democracia moderna (sem Câmara dos Lordes, por exemplo), favorecerá todos os quadrantes políticos. Deixando de ser responsáveis pela representação do Labour em Westminster, será normal e até saudável que também a direita se reorganize e ganhe algum terreno. Por enquanto, a tendência da esmagadora maioria de votantes no SIM é para a reivindicação de uma sociedade mais justa, fora dos programas nucleares e fora da austeridade que assola a Europa. Não será surpreendente se, após o envolvimento da comunidade na escrita da constituição, se abra o espaço político para, por exemplo, reivindicar a instauração da república e pôr fim a essa outra instituição obsoleta das ilhas britânicas.
Depois de uma campanha tão parcial começa a ser difícil distinguir realidade e ficção. Se tudo correr bem, os eleitores de dia 18 saberão distinguir o desespero confrangedor de Londres pela manutenção do status quo da vontade real de transformação, mas é muito provável que as ameaças tripliquem ainda nas últimas horas antes da votação.
O que quer que a Escócia venha a ser, terá de contar com a capacidade de manter o entusiasmo actual e os níveis de participação social. Será difícil para um país isolado contrariar o neoliberalismo vigente? Com certeza, mas o mais importante é que não tem de ser um país isolado e os esforços a norte podem encorajar e ganhar aliados pelo resto da Europa. Há a consciência de que isto vai ser a campanha mais importante da vida de muita gente. Há riscos na independência da Escócia? Há, claro. Internos e externos. A enorme diferença é a determinação com que a população respondeu ao desafio e, em vez de discutir apenas a separação, se dedicou a imaginar o mundo em que quer viver. É ingénuo pensar que isso será possível? Talvez. Mas a alternativa já todos vimos qual é. E é muito fácil prever o futuro da União inquestionada.
O Museu de Arte Moderna de Edimburgo, perto de uma das saídas da cidade mas também no caminho de um dos grandes hospitais, tem dois edifícios, um de cada lado da estrada. No friso do edifício principal, escrito em néon roxo, lê-se "vai correr tudo bem". Do outro lado, por vezes aquele por onde se passa primeiro mas num jardim que não se vê da rua, outra instalação luminosa avisa: "não vai haver milagres". A mensagem é mais ou menos reconfortante conforme a ordem de leitura das frases mas qualquer das versões se aplica a esta campanha. Fiquemo-nos pela versão menos fácil — a esperança de que vá correr tudo bem, aliada à consciência de que não há milagres (muito menos conseguidos por uma cruz num papel) e de que, se queremos um mundo melhor, temos de fazer por ele, todos os dias.
Voltarei em breve a viver em Portugal. Apesar da minha formação de classicista me avisar contra a esperança, ensina-me também que ela é uma das mais bonitas características da humanidade. Espero levar na mala um pouco do otimismo comprometido das terras altas.
Oh, e no meio disto, não sei o que se passa no mundo da bola.

* Note-se também, já agora, que o alargamento do voto para maiores de 16 não é uma tentativa de influenciar a votação. Como seria de esperar, a geração que vai agora votar pela primeira vez está tão dividida quanto o resto da sociedade.
** Vale a pena ler o texto de Terry Conway para desfazer este mito.
*** George Monbiot publicou esta terça-feira um excelente texto sobre o tratamento mediático da campanha do SIM.

domingo, julho 13, 2014

Cinco coisas que nunca agradecemos à União Soviética

op
http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=17896


Cinco coisas que nunca agradecemos à União Soviética

Союз Советских Социалистических Республик
Embora fracassado, projeto socialista do século 20 alcançou êxitos parciais de grande relevância. Entre eles, reconhecimento dos direitos da mulher e vitória contra nazismo
Por Aanchal Anand, no Mundo Alternativo
1 – Direitos da Mulher: Enquanto algumas ilhas haviam concedido para as mulheres o direito ao voto já no século XIX, a primeira grande mudança ocorreu no começo do século XX. No ano de 1917, somente quatro países (Austrália, Finlândia, Noruega e Dinamarca) haviam adotado o sufrágio feminino. A Revolução Russa de 1917, que defendeu a igualdade de direitos para todos, difundiu o temor de que as feministas encontrassem no comunismo um sistema mais atrativo, e puderam conspirar junto com os bolcheviques para importar a ideologia nos países ocidentais. A melhor forma de cortar a raiz semelhante ameaça era conceder as mulheres o direito ao voto. A Grã Bretanha e a Alemanha legalizaram em 1918, e os EUA em 1920, outros logo tomariam o mesmo caminho. A França foi a única potência que não reconheceria esse direito até 1944.
mujer en la urss
2 – Legislação Trabalhista: Isso é bastante óbvio. Contamos com uma semana trabalhista de 5 dias, férias pagas de 2 a 4 semanas, licença maternidade, assistência de saúde, além de equipamentos de segurança para os operários, etc… Pela pressão que exerceu o comunismo sobre o capitalismo. Nunca conseguimos ver a face humana do comunismo, mas graças a URSS, foi possível ter tido a noção do lado mais humanitário frente ao capitalismo.
3 – A Segunda Guerra Mundial e a reconstrução depois da vitória: A URSS desempenhou um papel fundamental na derrota da Alemanha nazista. Stalingrado é o famoso campo de batalha que conseguiu dar trégua na guerra relâmpago (“Blitzkrieg”) e mudou o desenvolvimento da guerra. A URSS sofreu a perca de 23,4 milhões de pessoas (mais que na Alemanha e mais de 26 vezes o número de mortes que sofreram os Estados Unidos e o Reino Unido juntos). Uma vez concluída a guerra, foi desenhado o Plano Marshall devido que os países aliados do Ocidente não queriam que a Europa fosse sucumbida pelo socialismo, com a velha desculpa de que os habitantes de cada país seriam submetidos pela “doutrina da fome e da desolação”. Contudo, o Plano foi desenvolvido somente sob a condição de que os comunistas fossem excluídos dos parlamentos dos países que recebiam ajuda. Claro “exemplo de democracia”.
4 – O caminho anti-colonial: Enquanto o imperialismo alimentava a maquinaria industrial e capitalista, a URSS defendia a causa das colônias exploradas. Estendeu sua ajuda aos países que lutavam pela sua libertação e aos países que recentemente haviam conseguido sua independência. As inclinações soviéticas pela luta libertadora na Índia não são um segredo para ninguém, para um país pobre que lutava para se manter em pé, a ideologia socialista resultava naturalmente atrativa.
5 – Descobrimentos científicos: Os primeiros soviéticos lançaram o primeiro satélite, logo enviaram o primeiro cachorro, o primeiro homem e a primeira mulher ao espaço. Também desenvolveram diversos desenhos televisivos. Para resumir, não havia um Tata Sky (sistema de difusão direta pelo satélite) senão fosse pela magia soviética. Além do mais, os soviéticos também tiveram o êxito de terem criado órgãos artificiais, o primeiro helicóptero, a xerografia e também o mais famoso e célebre fúsil AK-47.
MOMENTO HISTÓRICO!
Aqui estão apenas cinco coisas a agradecer a URSS, mas poderiam selecionar outras muitas coisas como a alfabetização universal, a luta contra o fanatismo religioso e nacional, a elevação do nível de vida da classe trabalhadora, o advento da arte e da cultura e vários outros exemplos.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Por que o passado enfraquece a paz e o desenvolvimento

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-o-passado-enfraquece-a-paz-e-o-desenvolvimento/6/29955


Por que o passado enfraquece a paz e o desenvolvimento

Estamos frente a um período prolongado de instabilidade. Os legados das duas guerras mundiais se derreteram na herança do fim da Guerra Fria.


Roberto Savio (*)
Arquivo

San Salvador de Bahamas, janeiro de 2014 - À medida que o ano novo começa nos sentimos inclinados a adotar uma visão a longo prazo, assim veremos por que devemos ter paciência com nossas esperanças para a paz mundial. Ainda que a análise adequada deste tema exigiria um livro e não um artigo, tomo a liberdade de apresentar aqui alguns rascunhos muito crus para a reflexão.

Antes de mais nada, devemos concordar que estamos sendo vítimas de um ciclo de adaptações do pós-guerra. O ciclo começou com o fim da Primeira Guerra Mundial, continuou com o final da Segunda Guerra Mundial, e encerrou quando acabou a Guerra Fria. Mas enquanto ao acabar a Primeira Guerra Mundial nasceu a ideia da Sociedade de Nações, e o final da Segunda Guerra Mundial viu o nascimento das Nações Unidas, nada similar surgiu depois do fim da Guerra Fria.

A Primeira Guerra Mundial provocou o fim dos quatro impérios: o otomano, o austro-húngaro, o alemão e o russo.  É de amplo consenso que o ajuste depois desta guerra foi a causa de muitos dos conflitos que se seguiram. 

Por exemplo, as absurdas reparações de guerra impostas à Alemanha criaram o revanchismo que levou Hitler ao poder. O fim do Império austro-húngaro permitiu que os Balcãs se transformassem em um barril de pólvora. O final do Império Otomano e seu desmembramento pelas potências vencedoras em novos Estados artificiais está mostrando seus efeitos na atualidade.

Os protestos sociais generalizados de uma Europa empobrecida depois da Primeira Guerra Mundial marcaram o começo do nazismo e do comunismo: não reis ou pessoas, mas pela primeira vez, as ideologias. Assim, diferente das dinastias, eram as ideias no poder que uniram pessoas de todo o mundo.

Isso fez com que a Segunda Guerra Mundial fosse muito diferente em sua natureza e alcance que sua predecessora: era uma guerra entre as democracias e o nazismo. Contudo, o principal resultado foi dividir os ganhadores em dois blocos, o capitalismo e o comunismo. A ameaça do comunismo obrigou o Ocidente a adotar opções da justiça social, incluindo direitos dos trabalhadores, participação e valores sociais.

Enquanto isso, o resto do mundo se manejou em meio desta divisão, ou tratou de estabelecer seu próprio sistema – o Movimento dos Não Alinhados - e a divisão Norte-Sul se converteu em um importante novo ajuste de pós-guerra.

Na continuação, com a queda do Muro de Berlim em 1989, chegou o fim da Guerra Fria e da globalização. Esse ajuste do pós-guerra acrescenta elementos novos, adicionais às adaptações anteriores inacabadas e, dessa vez, a nível global. 
Com a globalização como marco de justificativa, um "novo capitalismo" se afiançou, no qual a harmonia social já não era vital, e a busca do máximo benefício no mercado se converteu no único valor, sem a "carga" dos custos sociais. O resultado foi o desmantelamento do sistema social, uma diminuição dos investimentos em educação e saúde, e a desaparição de sindicatos, para nomear só alguns. Em outras palavras, o fim da ideia de sociedades baseadas nos direitos de seus cidadãos.

A Suprema Corte dos EUA determinou inclusive que as corporações têm os mesmos direitos que os cidadãos. Entramos na era da "nova economia", baseada na ideia de que as pessoas são prescindíveis e que quanto menos formam parte da produção, melhor ainda. Os "novos" economistas argumentam que o desemprego chegou para ficar, e que o Estado tem pouco a ver com a economia. São os precursores de uma era sem precedentes na história, onde 99% do crescimento econômico vai para 1% da população e o salário fixo se converte em uma coisa do passado.

Um número crescente de jovens estão desempregados e aqueles que trabalham, o fazem com empregos precários. A rede de seguridade social que os avós e os pais ainda vão proporcionando, vai desaparecer gradualmente. As Nações Unidas predizem que as gerações jovens atuais se aposentarão com uma pensão mensal de 480 euros. Sem dúvida um mundo novo e diferente.

Hoje em dia, o legado que temos é uma combinação de ao menos três heranças que fazem distante a governança global. As Nações Unidas se fizeram cada vez mais marginais em virtude de uma globalização que funciona com dois motores: o comércio e as finanças. As finanças nunca fizeram parte das Nações Unidas, estão totalmente descontroladas e, desde 1994, o comércio é controlado com a criação da Organização Mundial do Comércio. Portanto, não existe um sistema que possa fazer frente à situação atual.

A primeira herança que temos é a criação de estados artificiais. Os Estados africanos e os países árabes foram criados em uma mesa de negociações entre as potências coloniais. Nenhum país árabe, exceto o Egito, pode proclamar uma história ininterrupta sobre seu território atual e seu povo. Os novos estados incorporam os grupos étnicos e religiosos, que não eram de todo homogêneos, e grupos homogêneos às vezes se desmembraram (basta olhar os curdos, que agora estão em quatro países: Turquia, Síria, Irã e Iraque). O processo de incorporação das minorias em toda a democracia é muito difícil, e requer um longo processo de emancipação nacional e sentido de interesse comum.  As regras da maioria e a minoria frequentemente exacerbam os conflitos.

Se prestarmos atenção, no segundo legado, de como as diferentes religiões devem coexistir, a dificuldade do processo de ajuste se torna mais clara.

A divisão entre sunitas e xiitas – e, mais importante, entre radicais e moderados -, é o obstáculo mais importante para a estabilidade entre os um milhão de muçulmanos no mundo. Só a modernidade elimina esse conflito, mas a modernidade vem com o desenvolvimento econômico, e tardará muito tempo antes que a modernidade chegue ao vasto mundo muçulmano.

A religião é também um elemento de conflito nos mundos budista e hinduísta.  A tecnicidade e a religião também jogam um papel importante na Ásia. Myanmar, com 40 minorias e diferentes religiões, é um bom exemplo de como é difícil o caminho para a democracia. E o mesmo acontece em tantos outros países, como a Malásia, Filipinas, Indonésia, Sri Lanka e assim sucessivamente. A democracia, em termos meramente formais, não pode resolver esses problemas se é que as minorias não se sentem, elas mesmas, uma parte real do processo de governança.

É evidente que só através da integração regional podem ser minimizados os conflitos locais, mas a integração continua sendo um objetivo longínquo. A América Latina, depois de dois séculos de independência política, só conseguiu produzir alguns acordos comerciais débeis e um insignificante Parlamento Latino-americano, integrado por representantes dos congressos nacionais e não eleitos pelos cidadãos, como na Europa.

A África nem sequer conseguiu isso. No início do processo de independência, houve um debate entre seus dois grandes: Jomo Kenyatta, do Quênia e Julius Nyerere, da Tanzânia. Kenyatta procurava a integração imediata da África, enquanto Nyerere apelou para a integração gradual, depois de uma fase de evolução nacional.

O resultado é que agora, com os parlamentos nacionais, os burocratas, os parlamentares e não apenas eles, a busca da unidade é muito débil. A Organização para a Unidade Africana não é mais que uma plataforma para reuniões de Chefes de Estado. Enquanto isso, o mundo árabe está mais dividido que nunca, e não conta com verdadeiras estruturas de inserção. A Ásia é tão vasta e diversa que nem sequer tenta algo tão completo, a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAM), uma iniciativa estadunidense para substituir a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (SEATO, na sigla em inglês), criada pelos países do sudeste asiático para formar uma frente comum contra o poder crescente da China, mas que é, geralmente, considerada como uma organização sem dentes. Portanto, a integração regional que poderia ter reduzido os conflitos nacionais, continua sendo muito distante.

Nosso terceiro legado é hoje a globalização. Homogeneizou-se o mundo pelo caminho errado, através do consumismo, por exemplo, do estilo de vida, do entretenimento e da comida, mas cresceu a divisão entre ricos e pobres em todo o mundo. Os países ricos têm agora um número crescente de pobres e os países pobres têm um número cada vez maior de ricos, com a justiça social em decadência, tanto internamente como internacionalmente.

Veja-se só o caso do desastre da fábrica têxtil Savar, de Bangladesh, no começo do ano passado, no qual mais de 1.000 pessoas perderam a vida. Nenhum tipo de indenização foi paga ainda, enquanto a indústria da confecção, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, continua aumentando seus lucros. A ausência total de leis sociais internacionais vai de mãos dadas com a globalização. A desigualdade social foi crescendo desde a queda do Muro de Berlim. A brecha entre ricos e pobres é cada vez maior em todo o mundo e a classe média está diminuindo, sobretudo na Europa.

Portanto, estamos frente a um período prolongado de instabilidade. Os legados das duas guerras mundiais se derreteram na herança do fim da Guerra Fria. Os Estados Unidos e a Europa se encontram em declive irreversível devido à aparição de um mundo multipolar, com novos países conquistando espaço e poder. E, entretanto, apesar de que se tenha definido claramente temas globais como a mudança climática, quando estes entram em conflito com os interesses econômicos, não se caminha a nenhuma parte, apesar de que já há muito tempo foram aprovados alguns tratados internacionais relevantes.

Será necessário tempo para chegar a um acordo com nossos legados e encontrar a solução justa para o futuro. Mas esta não é uma razão para perder a paciência com a governabilidade e a paz. Deveríamos dar-nos conta que uma nova era virá e que vamos sair da atual.

Como escreveu o filósofo italiano Antônio Gramsci em seus “Cadernos do cárcere”, quando um ciclo histórico termina e o novo ainda não chega, vamos ter que lidar com os “monstros”.

Então, quando sairemos da instabilidade atual? Provavelmente só quando um protesto global contra a injustiça social trouxer um pouco de interesse comum e semelhança entre ação e visão... E isso não está tão longe!

(*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e Publisher do Other News.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Chico Mendes é declarado patrono do meio ambiente no Brasil

o eco
http://www.oeco.org.br/salada-verde/27860-chico-mendes-e-declarado-patrono-do-meio-ambiente-no-brasil


Chico Mendes é declarado patrono do meio ambiente no Brasil
((o))eco - 16/12/13

Chico Mendes and children 1988Chico Mendes em sua casa, em Xapuri (AC), com seus dois filhos, Elenira e Sandino Mendes. Foto: Wikipédia.
A Presidente Dilma Roussef sancionou nesta segunda-feira (16) a Lei nº 12.892, que torna o líder seringueiro Chico Mendes patrono do meio ambiente brasileiro. No próximo dia 22 de dezembro é aniversário de 25 anos da morte de Mendes, assassinado a tiros no quintal de sua casa, em Xapuri, no Acre, em 1988.
A luta de Chico Mendes em prol dos povos da floresta e pela conservação da Amazônia motivou homenagens de várias instituições, que batizaram órgãos e departamentos com seu nome. Isso inclui o ICMBio (Instituo Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), responsável por gerir as Unidades de Conservação federais. Em Xapuri, a Reserva Extrativista Chico Mendes, criada em 1990, hoje explora e comercializa a borracha (Folha Defumada Líquida-FDL) e o óleo de copaíba, e implementa projetos na tentativa de conciliar preservação e extrativismo.
Na Câmara dos Deputados, o plenário onde funciona a Comissão da Amazônia deveria ganhar o nome de Chico Mendes há 5 meses, quando foi aprovado o projeto da deputada Janete Capiberibe (PSB-AP), que dava o nome de Mendes ao espaço. Mas, como mostra reportagem do Jornal O Globo, os ruralistas, que são maioria na comissão, se recusam a consumar a homenagem.

domingo, novembro 03, 2013

Os reis dos mares

fapesp
http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/10/17/os-reis-dos-mares/

Os reis dos mares

Portugueses realizaram as grandes navegações mesmo sem a melhor matemática conhecida nos séculos XV e XVI
NELDSON MARCOLIN | Edição 212 - Outubro de 2013

© LIVRO DAS ARMADAS DAS ÍNDIAS (1665)
Representação de 12 das 13 naus da armada de Pedro Álvares Cabral, que consta no Livro das armadas da Índia (1665)
Representação de 12 das 13 naus da armada de Pedro Álvares Cabral, que consta no Livro das armadas da Índia (1665)
As navegações da época dos descobrimentos, nos séculos XV e XVI, dependiam basicamente de conhecimentos astronômicos. Estes, por sua vez, eram fundados na matemática. Quando portugueses e espanhóis iniciaram a era das grandes conquistas, a matemática mais avançada não havia chegado aos reinos da península Ibérica. O que eles praticavam era baseado na aritmética, na geometria e na astronomia da Antiguidade.
A matemática começava a tomar novos rumos, especialmente na Inglaterra com os monges filósofos como Roger Bacon, Thomas Bradwardine, Guilherme de Ockham e com os estudos realizados no Merton College, escola que deu origem à Universidade de Oxford. De acordo com a historiografia do período, esse desenvolvimento ocorreu a partir de 1096 graças ao contato com a cultura muçulmana ocasionado pelas Cruzadas, o nome pelo qual as guerras de reconquista cristã contra os mouros ficaram conhecidas. Os muçulmanos haviam preservado e estudado o legado grego ao mesmo tempo que incorporaram elementos da cultura hindu.
Nos séculos XV e XVI, a astronomia usada pelos navegantes portugueses ainda tinha como base o sistema planetário criado por Ptolomeu, descrito no livro Almagesto (século II), e o trabalho de cosmografia Tratado da esfera (século XIII), do monge John de Sacrobosco, segundo o matemático Ubiratan D’Ambrosio, estudioso da história da matemática e hoje professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ambos, Ptolomeu e Sacrobosco, estavam superados se comparados ao que os ingleses já haviam escrito sobre o estudo dos movimentos.
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wTratado da esfera (século XIII), de Sacrobosco, livro importante para os navegantes portugueses
Tratado da esfera (século XIII), de Sacrobosco, livro importante para os navegantes portugueses
Ainda assim os portugueses foram muito bem-sucedidos em boa parte graças às ações do infante dom Henrique no século XV. Ele foi o patrono dos descobrimentos ao estabelecer o que hoje seria chamado de estratégia de desenvolvimento científico e tecnológico na região de Sagres, com a criação de técnicas de navegação e incentivos à indústria marítima. “O desenvolvimento da caravela, navio estável, ágil, rápido e mortífero, foi um grande projeto tecnológico”, diz D’Ambrosio.
A lista de conquistas é impressionante: Ceuta foi dominada em 1415, Gil Eanes superou o cabo Bojador em 1434, Bartolomeu Dias dobrou o cabo da Boa Esperança em 1488, Vasco da Gama abriu caminho para as Índias em 1499, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 e Fernão de Magalhães encontrou a passagem para o oceano Pacífico em 1520. Sem contar o desembarque na América do genovês Cristóvão Colombo a serviço da Espanha em 1492.
Como tantos triunfos podem ter ocorrido mesmo com um conhecimento matemático menos avançado do que o existente no restante da Europa? “Entre os navegantes alguns conheciam astronomia prática, outros sabiam fazer cálculos e havia os que estudaram cartografia”, explica D’Ambrosio. “Mesmo rudimentar, esse conhecimento se acumulou e se organizou em Portugal e ajudou nas navegações.”
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Réplicas dos navios Pinta, Nina e Santa Maria, de Colombo, em foto de 1893, nos Estados Unidos
Réplicas dos navios Pinta, Nina e Santa Maria, de Colombo, em foto de 1893, nos Estados Unidos
D’Ambrosio ressalta a diferença entre o conhecimento matemático na península Ibérica e o praticado nos demais reinos. No caso das navegações, o interesse estava voltado para a geometria. Os algarismos arábicos só foram utilizados em Portugal a partir do século XV, embora já no XII eles tenham se disseminado pela Europa por trazer mais facilidades para o comércio.
Apesar do raro intercâmbio com outros reinos, Portugal atraía personalidades que se tornaram importantes. Em 1475, Colombo encontrou em Lisboa seu irmão, o cartógrafo Bartolomeu Colombo, que vivia lá. O alemão Martin Behaím, de Nuremberg, foi à região em 1480 e introduziu a trigonometria no país. Ao voltar para sua cidade em 1492, Behaím apresentou o Erdapfel, o primeiro globo terrestre conhecido.
Para D’Ambrosio, o relativo isolamento de Portugal dos conhecimentos que circulavam na Europa se explica pelo fato de o país ter se fechado depois de expulsar os invasores mouros no século XIII. “A abertura para as informações técnicas e científicas já disponíveis só ocorreu com a grande reforma na Universidade de Coimbra, em 1772”, diz ele.