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terça-feira, julho 01, 2014

ONU reforça ação ambiental, mas ricos e emergentes divergem

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532801-onu-reforca-acao-ambiental-mas-ricos-e-emergentes-divergem-


ONU reforça ação ambiental, mas ricos e emergentes divergem

As cabines dos tradutores da Assembleia Ambiental das Nações Unidas - Unea ficam no alto, bem no meio da plenária. Era ali que terminava a sala dois anos atrás. "Tiveram que derrubar a parede e duplicar o espaço", diz um delegado. Foi logo após a Rio+20, quando a representação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), passou de apenas 58 membros para abrigar os mais de 190 membros da ONU.
A reportagem é de Daniela Chiaretti, publicada pelo jornal Valor, 30-06-2014.
A universalização do Pnuma, o braço ambiental da ONU, é um avanço concreto que ficou claro na Unea, a primeira grande assembleia ambiental das Nações Unidas em 42 anos de história do órgão. O orçamento do Pnuma também é mais substancial. A fatia que a ONU repassa para os custos fixos do órgão era de US$ 14 milhões e subiu para US$ 35 milhões no orçamento previsto para o biênio 2014-2015. O orçamento total do órgão ambiental será de US$ 670 milhões no biênio 2016-2017 para executar as ações previstas nos seus programas tradicionais e mais 16 decisões que a Unea aprovou na sexta-feira.
As boas notícias terminam por aí. As decisões ambientais que foram decididas por 113 ministros nos cinco dias de conferência em Nairóbi, onde fica a sede do Pnuma, não têm mais que passar pelo crivo da Assembleia Geral das Nações Unidas, como era antes da Rio+20, o que dá peso político ao órgão. Mas, como agora meio ambiente é finalmente discutido pela ótica do desenvolvimento, as decisões ficam à mercê das disputas econômicas entre países.
Prova disso é o documento final dos ministros de meio ambiente. Trata-se de uma mensagem política, que pede à comunidade internacional, por exemplo, ações que combatam o tráfico ilegal de vida selvagem, evitar a perda de biodiversidade ou destravar o acordo climático. Os ministros não fizeram mais do que sua obrigação: alertar o mundo das questões mais dramáticas e pedir soluções.
O tom aquarelado do texto é o problema. Os Estados Unidos sequer deixaram que o documento se chamasse "declaração". Temiam precedentes perigosos em um momento em que se inicia a negociação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS e a agenda Pós-2015, que servirá de referência para a cooperação internacional nas próximas décadas.
Por pressão dos EUA - que havia sido iniciada pelo Reino Unidos (sob olhar silencioso dos europeus), os países em desenvolvimento saíram perdendo. O rascunho do documento ministerial fazia referência ao princípio dasResponsabilidades Comuns porém Diferenciadas - CBDR. O conceito, aprovado pela comunidade internacional há mais de 20 anos, diz que todos os países têm que fazer esforços para proteger o planeta, mas reconhece, por exemplo, que o esforço feito pelo Brasil não pode ser o mesmo daquele do Haiti.
O mundo mudou nos últimos 20 anos e CBDR virou uma pedra no caminho dos EUA frente à China. Na Rio+20 foi uma briga de foice para que a sigla aparecesse no documento final. CBDR é princípio basilar para o mundo em desenvolvimento, o governo brasileiro o defende com unhas e dentes. Mas no documento final da UNEA o princípio desapareceu. Os EUAradicalizaram na madrugada de sábado: ou se aprovava o documento sem a referência, ou a UNEA terminava sem declaração dos ministros. Os outros cederam.
Para o grupo dos países em desenvolvimento trata-se de um mau presságio para a negociação da agenda pós-2015 e pior ainda para o acordo climático internacional, que deve ser aprovado em 2015.
A ministra brasileira do Meio AmbienteIzabella Teixeira, anunciou US$ 1 milhão para o programa de 10 anos que pretende instalar padrões de produção e consumo sustentáveis. Aprovado na Rio+20, o plano só tinha US$ 500 mil em carteira, o que é ridículo para ações que têm que projetar uma mudança econômica global. O anúncio brasileiro foi simbólico, porque os países ricos não investem em uma agenda que diz que devem consumir menos -- os EUA consomem per capita 25 vezes mais que Máli. "Os países ricos têm que liderar esta agenda", alfinetou a ministra em seu discurso. No final do evento, o Japão anunciou US$ 2,5 milhões neste programa.
O maior trunfo da Unea veio da frente técnica: os governos aprovaram 16 resoluções. Os delegados concordaram, por exemplo, com a proposta dos Estados Unidos de estimular seus governos a criarem políticas públicas para reduzirem emissões de poluentes em vários setores e pediram ao Pnuma que produza estudos. Poluição do ar mata sete milhões de pessoas por ano.
Por proposta da Noruega, a Unea pediu uma ação forte dos governos sobre o impacto nos ecossistemas marinhos de plásticos e microplásticos. Outra resolução quer que os governos ajam para impedir o comércio ilegal de vida selvagem e produtos madeireiros. Também há uma decisão sobre manejo e gestão integrada (com divulgação, participação da indústria e financiamento) de substâncias e resíduos químicos. "São ações para os próximos anos", celebrou Achim Steiner, diretor-executivo do Pnuma e subsecretário das Nações Unidas.

quinta-feira, abril 17, 2014

“Os Burgueses": Estudo ajuda a compreender porque querem tornar Portugal num país inviável

esquerda.net
http://www.esquerda.net/artigo/os-burgueses-estudo-ajuda-compreender-porque-querem-tornar-portugal-num-pais-inviavel/32244



“Os Burgueses": Estudo ajuda a compreender porque querem tornar Portugal num país inviável

No lançamento de “Os Burgueses”, Francisco Louçã diz que o estudo ajuda a compreender os motivos que levam a classe dominante a mergulhar Portugal no empobrecimento. Obra de mais de 500 páginas estuda a vida social das mil pessoas que constituem o núcleo que ocupa os lugares fundamentais de poder. D. Januário Torgal e José Manuel Sobral apresentaram, Mário Soares, João Cravinho, Carvalho da Silva, entre outros, estiveram presentes.
Na mesa estiveram os três autores e D. Januário Torgal Ferreira e José Manuel Sobral, que apresentaram. Foto de Catarina Oliveira
Na mesa estiveram os três autores e D. Januário Torgal Ferreira e José Manuel Sobral, que apresentaram. Foto de Catarina Oliveira
Mais de cem pessoas foram na terça-feira ao lançamento do livro “Os burgueses”, de autoria de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, em Lisboa. A obra de mais de 500 páginas, que se dedica a dissecar as cerca de mil pessoas donas de mais de metade do produto nacional do país, foi apresentada pelo ex-bispo das Forças Armadas D. Januário Torgal Ferreira e pelo sociólogo José Manuel Sobral.
Entre os presentes estavam o ex-presidente da República Mário Soares, os socialistas João Cravinho e Vítor Ramalho, o ex-secretário-geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva e os coordenadores do Bloco de Esquerda
Entre os presentes estavam o ex-presidente da República Mário Soares, os socialistas João Cravinho e Vítor Ramalho, o ex-secretário-geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva e os coordenadores do Bloco de Esquerda, Catarina Martins e João Semedo, bem como o líder parlamentar, Pedro Filipe Soares.
D. Januário Torgal abriu a apresentação com uma intervenção muito viva e ao mesmo tempo erudita, até porque “não podia parecer mal entre dois catedráticos” e outro que “lá há-de chegar”. Terminou com um desafio: que venha um trabalho de profundidade semelhante sobre o proletariado.
José Sobral concluiu a sua intervenção com uma certeza: a que diante da desigualdade crescente que se observa em Portugal, o protesto dos despossuídos acabará por encontrar canais para se expressar.
Estudo inédito
Os Burgueses"Os Burgueses" estuda as cerca de mil pessoas que dominam o país
“Os Burgueses” corresponde a um trabalho de investigação de dois anos, que mobilizou uma equipa mais ampla que os três autores, com destaque para os jovens investigadores Nuno Moniz e Adriano Campos, que trabalharam na base de dados de ministros e secretários de Estado, e as suas ligações com os negócios e as empresas.
A primeira parte da obra incide sobre a construção do poder social da burguesia portuguesa, sobretudo nas últimas décadas. Inclui o estudo inédito dos percursos dos 776 membros de todos os governos constitucionais e da sua cooptação pelas principais empresas financeiras, do PSI20 e das parcerias público-privadas.
A segunda parte estuda a vida social deste milhar de pessoas que constitui o núcleo da classe dominante e que ocupa os lugares fundamentais de poder: onde moram, as escolas que frequentam, os seus casamentos e alguns dos seus luxos.
A terceira parte procura responder a uma nova pergunta sobre esta relação de poder. Se de um lado estão os 99% e do outros os 1%, porque são estes que mandam? O livro parte da expansão das máquinas de produção de senso comum para uma teoria do poder. Publicidade, telenovelas, discursos das autoridades e de telejornal, concursos, livros infantis, homilias, literatura kitsh, exames de faculdade - esta análise inclui todas estas formas de criação de mitos e geração de desejo e representação que sustentam a hegemonia burguesa.
A obra em papel complementa-se com o site Os Burgueses, onde estão disponíveis documentos, elementos gráficos, bases de dados, resumo dos capítulos e outros materiais deste estudo.
Livro é uma das chaves para compreender por que esta classe afirma hoje que Portugal se tornou num país inviável. 
Dizem-nos que Portugal é um país inviável”
Na última intervenção da noite, Francisco Louçã, que falou depois de Teixeira Lopes e Jorge Costa, disse que o conhecimento de quem é, de onde veio e como se organiza a burguesia portuguesa é uma das chaves para compreender por que esta classe afirma hoje que Portugal se tornou num país inviável. “Esta é a única conclusão que podemos tirar quando o próprio Presidente da República nos diz que o país terá de viver mais 20 anos de empobrecimento”.
Compreender as ligações da burguesia portuguesa com o capital internacional, a relação, no concreto, que as suas empresas mantêm perante o mundo globalizado, a sua relação de dependência face ao capital internacional talvez ajudem a explicar esta política de empobrecimento, de definhamento do país – que adotou o nome de austeridade – que os que mandam no país querem eternizar.
O livro, editado pela Bertrand, já está à venda nas livrarias e custa em torno de 20 euros.


segunda-feira, janeiro 20, 2014

Três anos de revoltas conectadas

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http://outraspalavras.net/capa/tresanos-de-revoltas-conectadas/


Três anos de revoltas conectadas

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Novos estudos tentam compreender ações de protesto que marcam cenário mundial. Que têm em comum? Como evoluem? Para onde caminham?
Por Bernardo Gutierrez | Tradução: Cauê Ameni e Gabriela Leite
Existem elementos comuns entre a explosão do movimento espanhol 15M e o nascimento #YoSoy123 no México? Pode-se traçar algum paralelo entre a defesa do Gezi Park, em Instambul, e as revoltas iniciadas pelo Passe Livre no Brasil? Há padrões compartilhados entre as revoltas que sacudiram o mundo desde a centelha da Primaveira Árabe?
Se levarmos em conta apenas em pautas concretas, as revoltas poderiam parecer desconexas. O grito de “Não somos mercadorias nas mãos dos políticos e banqueiros”, do 15M, teria pouco a ver com o “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, das revoltas no Brasil. Occupy Wall Street estaria longe do #YoSoy132 mexicano que nasceu contra a criminalização de 131 estudantes da Universidade Iberoamericana. No entanto, o imaginário de todas as revoltas parece conectado por algo que escapa à lógica.
O “vamos fazer como em Tahrir” (praça no Cairo, Egito) era um eco dos “quarenta da [Porta do] Sol” que acamparam em Madri na noite do 15 de maio de 2011. “Acabou a mordomia, o Rio vai virar outra Turquia” ressoava nas manifestações iniciais do Rio de Janeiro. O hashtag #TomaLaCalle, que agitou os indignados espanhois, foi reutilizado e remesclado na mobilização peruana de julho do ano passado.
A Anonymous Rio hackeou a conta do Twitter da Rede Globo e colocou três palavras: Democracia real já. E o imaginário do Occupy está presente na maioria das revoltas dos últimos tempos. O que, como e por que flutua no ar uma conexão inexplicável, à primeira vista?
Existem conexões ou semelhanças mais concretas. Depois da desocupação do acampamento do #direngezi das praças turcas, o fluxo #direnODTU põe seus esforços em plantar árvores em espaços onde o Estado tem plantadas megainfraestruturas. E exatamente isso também faz o MovimentoPró-Árvore (Fortaleza) o Fica Ficus (Belo Horizonte) no Brasil, buscadonarede pelos participantes dos acampamentos turcos.
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Coincidências? Contágio formal? Sem existir uma resposta única e definitiva, o certo é que existe um número crescente de analogias. Ações, memes, estética, processos, protocolos compartilhados.
Os abusos policiais durante os protestos no Brasil fazem com que nasça a redeAdvogadosAtivistas, similar em protocolo à LegalSol ou TomaParte, do 15M. Após a explosão do #YoSoy132, surge a plataforma ArtistasAliados para criticar os intermediários da indústria. Depois de Occupy Wall Street, chegou o OccupyMusicians. E muitas outras semelhanças. O TomaLaTele do 15M foi replicado em um sem-número de países. Os OccupyNews (como o OccupyGeziNews), são algo comum. Os mexicanos de #YoSoy132 cercaram a redação do canal televisivo Televisa. E os brasileiros criaram #OcupeAMídia e cercaram a toda poderosa Rede Globo. E mais e mais.
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Mapa conceitual da tecnopolítica, elaborado por Javier Toret.
Conspirações? Contágio formal? Ou há algo mais? Poderíamos afirmar que existem analogias antropológicas, tecnológicas e/ou sociais? Padrões de rede que se repetem à margem de contextos políticos e causas concretas? A Rede de Pesquisas sobre a Revolução Global (Global Revolution Research Network, GRRN), da Universidade Aberta da Catalunha (Universitat Oberta de Catalunya, UOC), nasce precisamente partindo de uma hipótese: existem padrões de auto-organização das diferentes revoltas que surgiram após a revolução dos Jasmin, de Tunis.
O objetivo deste grupo transdisciplinar é encontar padrões rede, elementos comuns e conexões nas mobilizações de Túnis, Egito, Espanha, Estados Unidos, México, Turquia e Brasil. Por exemplo, a conexão da Turquia com o Brasil aparece de alguma maneira na visualização realizada por Interagentes sobre amobilizaçãode 6 dejunho, na qual duas contas turcas (Recep Tayyip Erdoğan – Türkiye’nin Gururu y Diren Gezi Parkı) figuram entre as dez mais compartilhadas no evento do Facebook de São Paulo
As conclusõesdoprimeiroencontrodogrupo, “Três anos de revoltas interconectadas”, celebrado em Barcelona no final de outubro, destacam “a centralidade das redes de comunicação digital, sua dimensão global, a existência de padrões comuns de ação coletiva, assim como a defesa da democracia e a liberdade de acesso à informação”
Javier Toret, coordenador do estudo “Tecnopolíticaapotênciadasmultidõesconectadas”, realizado pelo 15MDatanalysis para a Universidade Aberta da Catalunha, realizado pla15MDatanalysis para la UOC e um dos impulsionadores da GRRN, assegura que “os marcos teóricos tradicionais não estão à altura da complexidade de estes novos movimentos em rede”. Por isso, prossegue, é necessário “usar métodos cruzados entre ciências complexas, como a teoria de redes, apoiado em dados, e cruzar campos disciplinares”. Um dos conceitos chave para a investigação da GRRN é a tecnopolítica, que Toret separa do “clickativismo”, ou “ciberativismo”.
A tecnopolítica reconhece a multidão como um novo sujeito político. A tecnopolítica gera movimentos em rede. A tecnopolítica gera ação multicamadas, articulando e tornando híbridos espaços físicos e digitais. Das redes às ruas. E ao contrário
Toni Blanco, participante do GRRN, afirma que não podemos chamar o 15M de movimento social: “ele é melhor descrito como uma “rede tecnopolítica cidadã”. Rede e não movimento. Tecnopolítica e não ciberativismo.
Um parágrafo do estudo “Tecnopolítica” do 15MDatanalysis precisa o conceito: “Esta multidão conectada tem uma anatomia híbrida, física e virtual, em que se destacam as identifides coletivas. Ela possui forma de rede e capacidade de produzir ativações emocionais, convertendo o mal-estar em empoderamento”. Ocorre o mesmo no 15M, no #YoSOy132, no Occupy, em Diren Gezi ou nas revoltas brasileiras?
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Acima, redes competitivas (partidos); abaixo, redes colaborativas (revoltas globais)
Nada como o uso do denominado big data para se aprofundar nos padrões de rede que se repetem nas revoltas interconectadas. Os gráficos — visualizações de redes — das organizações tradicionais revelam um padrão claramente competitivo.
O estudo elaborado pelo 15MDatanalysis (acima, página 22 desta apresentação) sobre a relação dos partidos políticos espanhóis antes das eleições de 20 de novembro de 2011 mostra que não existem interações entre as diferentes comunidades dos partidos. Os atores centrais são os designados previamente como líderes.
O mesmo ocorre no estudo realizado pelo Labic do Brasil (acima, à direita), que prova a endogamia do PT (vermelho) e do PSDB (azul) frente ao diálogo cruzado das comunidades do MovimentoPasseLivre e Anonymous.
As redes cooperativas das revoltas globais são muito distintas das redes competitivas dos partidos políticos de identidade fechada e de chefias permanentes. A topologia da rede do 15M (abaixo à esquerda) ou a do #YoSoy132 (abaixo à direita) revelam o diálogo de diferentes comunidades identitárias e geográficas.
Para a jornalista Sandra Yánez, integrante do grupo GRRN, os dados são vitais para perceber “análises quantitativas ou picos de emocionalidade”. Para Toni Blanco, o importante é “abordar a partir dos dados o fenômeno como um sistema complexo, não como sistema linear”. Dados que, mergulhando na relação dos nós, conseguem esmiuçar melhor revoltas que fogem de explicações do paradigma direita-esquerda.
Foi exatamente estudando dados que o 15MDatanalysis chegou a novos conceitos, como o de “liderança temporal distribuída”. Arnau Monty, do Ateneu Candela de Terrassa, explica de forma simples, afirmando que o 15M não desaparece, mas evolui: “A Primavera Valenciana, o 12M15M, 15MpaRAto, as marés ou a própria PAH demonstram a capacidade de atualização permanente destes movimentos e a facilidade para criar identidades coletivas novas para enfrentar problemas concretos.”
O pesquisador brasileiro Fábio Malini usa um conceito parecido para descrever o 15M, que denomina um “beta movimento”. Um movimento em constante mutação. Um sistema em rede que, em um determinado momento, passa a apoiar uma causa ou ação, seja o #25S (Cerca o Congresso) o a greve dos garis de Madri. A liderança não é sempre a mesma. E pode vir da periferia do sistema rede e não de seus nós centrais.
Algo similar ocorreu um ano depois do nascimento do Occupy Wall Street. Quando alguns desprezavam o movimento, o poder latente da rede criou o processo #OccupySandy. A norte-americana Joan Donovan, pesquisadora e participante do InterOccupy, aponta exatamente para o potencial das redes emergentes: “Não se trata do que Occupy Wall Street fez, mas da rede que foi criada.”
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Uma das hipóteses mais importantes para o estudo mundial incipiente da Global Revolution Research Network é a importância das identidades coletivas na gestação, explosão e desenvolvimento das revoltas. No caso do 15M, a hipótese das identidades coletivas foi comprovada na visualização dos dados.
Por exemplo, o gráfico do dia de ação #15O (15 de outubro) de 2011 mostra como os nós das identidades coletivas @DemocraciaReal, @AcampadaSol, @15OctoberNet, @TakeTheSquare e @OccupyWallStreet foram os mais influentes. Os gráficos da rede de #YoSOy132 também revelam a preponderância de alguns nós, como o @Global132, @AnonOpaHispano ou @YoSoy132Camp. Os estudos do Facebook realizados porInteragentessobreosprotestosdoBrasil também provam que as identidades coletivas moveram os atores tradicionais, ao longo do processo.
A peculiaridade brasileira faz com que no Twitter as celebridades convivam com as identidades coletivas em campanhas concretas como #AbaixoRedeGloboOPovoNãoÉBobo(página 15 desta apresentação). Ou que nos protestos do Rio de Janeiro nem famosos e nem identidades coletivas impusessem o ritmo: o gráfico da MediaLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre #ProtestosRJ apresenta uma rede feita por atores menores. Por outro lado, existe outro tipo de identidades coletivas a serem investigadas, como as comunidades que surgiram nas redes sociais do Egito após a morte do blogueiro Khaled Said ou após a desaparição do pedreiro Amarildo, no Rio de Janeiro.
Marcelo Branco, ativista do software livre, destacou no recente encontro #RuasEmRede, em São Paulo, o papel, nas revoltas do Brasil em 2013, de “movimentos sem lideranças das organizações conhecidas tradicionais”. E frisou que a maior semelhança entre todas as revoltas tem mais a ver com uma nova (e mais aberta) arquitetura das convocações e dos protestos do que com componentes ideológicos.
Nas revoltas interconectadas, a agregação substitui a divisão (os torcedores das equipes de futebol de Istambul ou São Paulo desfilam juntos). O “pró” (construção, acampamentos, protótipos, dispositivos) ao “anti” (destruição). E as emoções convertem-se em combustível que conecta os diferentes sistemas em rede.
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#15MData: análise emocional
O estudo #15MDataanáliseemocional, do Coletivo Outliers, revela que os tuítes da gestação do 15M espanhol têm o dobro de carga emocional que o normal. A indignação e o empoderamento são as duas emoções mais presentes. E precisamente a sequência indignação-empoderamento, ativada pela violência policial, tem sido a tônica nas revoltas de 2013.
A repressão policial na praça Taksin de Istambul fez brotar a indignação. E quando a mídia chamou os manifestantes de “chapullers” (vândalos), a indignação transformou-se em empoderamento. O movimento se autoproclamou “o movimento chapulling” e criou açapul.tv. Quando a mídia brasileira usou a palavra “vândalos”, os manifestantes se transformaram em vândalos empoderados, com seu VândalosNews e centenas de identidades coletivas.
Ainda que não esteja baseada em critérios de extração e dados de análise de rede, aCartografiaAfetiva dos protestos do Brasil torna também visível a potência das emoções como a indignação, o medo, a esperança ou o empoderamento. Por isso, Javier Toret insiste na necessidade de elaborar um estudo global rigoroso e baseado em big data sobre o papel das emoções nas revoltas em rede: “As emoções foram um fator chave que disparou a velocidade, a viralidade e a conectividade entre pessoas, redes e causas destes movimentos rede. A multidão conectada afeta o mundo e ocupa o espaço urbano, desativando o feitiço das mídias de massa”.
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Acima: Aula Pública em #OcupaCabral do Rio de Janeiro, #UnienLaCalle do 15M-Maré Verde de Madri. Abaixo: #OccupyGeziArchitecture (Istambul) e El Campo de Cebada (Madri).
Que mais elementos comuns apresentam as revoltas interconectadas dos últimos anos? Para o arquiteto e pesquisador Pablo de Soto, as revoltas da Turquia e do Brasil “colocam os bens comuns urbanos como novo eixo de lutas”. Pablo, que está desenvolvendo o projeto MapeandoosComuns no Rio de Janeiro, assegura que 2013 confirma a tese das cidades rebeldes do geógrafo David Harvey. Também, a construção teórica de Antonio Negri e Michael Hardt, que consideram a cidade como o terreno onde a multidão cozinhará as novas instituições do comum.
O Diren Gezi da Turquia explodiu com a defesa do parque Gezi e de outros bens comuns. No Brasil, os principais eixos da luta também estão ao redor dos bens comuns urbanos. As campanhas pela Tarifa Zero (transporte), OMaracaéNosso (uma proposta de gestão coletiva contra a privatização do estádio do Maracanã), os movimentos do ParquedoCocó(Fortaleza) ou os Comitês da Copa convertem a defesa do comum na essência de suas lutas.
Por outro lado, as “aulas públicas” durante os protestos do Brasil (aulas no espaço público) compartilham formato e protocolo com a #UniEnLaCalle ou a Universidad Indignada do 15M. De fato, ainda que o 15M não tivesse causas ou motivos urbanos para ocupar as praças ou ruas, está transformando a cidade no novo protótipo de participação política.
Um protótipo global (conecta territórios dispersos) e híbrido (combina redes analógicas e digitais). Um protótipo construído por assembleias, fluxos, rituais, protocolos, consensos de mínimos e forks (desvios, no jargão hacker) que nas palavras dos pesquisadores Alberto Corsin e Adolfo Stalella transformam a urbe na nova interfaceaberta.
O que têm em comum as revoltas interconectadas dos últimos anos? Veremos novas eclosões?
É difícil fazer qualquer tipo de previsão. Pablo de Soto pensa que 2014 verá nascer “um novo internacionalismo metropolitano pelos bens comuns”. A Global Revolution Research Network seguirá buscando respostas em sua pesquisa mundial, “um laboratório em tempo real de análise e propectiva”. Héctor Huerga, do 15M Barcelona Internacional, dá ênfase em um detalhe: “Nas revoltas interconectadas, a convocatória parte de um meme. E é o sujeito receptor, não o emissor, que está dando as chaves para as novas revoltas”. A imprevisibilidade dos sistemas emergentes e das subjetividades em rede desenha um final aberto e múltiplo.
No momento, o estudo “Tecnopolítica: a potência das multidões conectadas”, é um bom ponto de partida para estudar revoltas que, na maioria dos casos não se encaixam, com a definição de revolução clássica (tomada do poder), mas ultrapassam o formato de manifestação: “Compõem um sistema de rede mutante, com fronteiras móveis, híbrido, cyborg, um corpo coletivo que resiste ao tempo e que pode estender-se no espaço.”

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Vinte imagens para começar a compreender 2013

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http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/vinte-imagens-para-comecar-a-compreender-2013/#


Vinte imagens para começar a compreender 2013

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Multidões nas ruas. Repressão. Fenômenos climáticos extremos. Refugiados. Esportes imprevistos. Agência AFP aponta suas fotos que mais repercutiram nas redes sociais, no ano
Por AFP / Edição: Pragmatismo Politico
Confira abaixo a seleção:
Ps.: a ordem numérica tem apenas caráter organizacional e não se refere a ranqueamento
1. Pessoas em varandas observam participantes de corrida de touros no festival de São Firmino, em Pamplona, Espanha, no dia 7 de julho. Milhares de pessoas do mundo inteiro vão todos os anos até a cidade espanhola para participar da festa dos touros. (Foto: Pedro Armestre / AFP)
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2. Multidão de pessoas com bóias se refresca em parque aquático de Suining, na China, em 27 de julho. Neste dia, os termômetros locais marcavam 41ºC (Foto: AFP)
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3. Manifestante turco cobre o rosto com garrafa d’água improvisada como máscara de gás durante protestos em Ancara, no dia 9 de junho, o décimo dia consecutivo de grandes manifestações contra o governo do premiê Recep Tayyp Erdogan (Foto: Marco Longari / AFP)
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4. O indonésio Handoko Njotokusumo e seu cão, o golden retriever Ace, andam de moto por rua de Surabaya, em 2 de maio (Foto: Juni Kriswanto / AFP)
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5. Manifestante beija policial durante manifestação em Susa, na Itália, contra a construção de uma linha de trens de alta velocidade entre Turim (Itália) e Lyon (França), no dia 16 de novembro (Foto: Marco Bertorello / AFP)
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6. June Simson (dir.) é abraçada por vizinha após encontrar o seu gato junto aos destroços de sua casa em Moore, no Estado americano de Oklahoma, em 21 de maio. A cidade foi devastada pela passagem de um tornado, que matou mais de 20 pessoas, incluindo 9 crianças de uma escola, na região de Okalhoma City (Foto: Joshua Lott / AFP)
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7. Manifestantes egípcios protestam a expressão inglesa “Game Over” (o jogo acabou, na tradução livre) em prédio do governo nos arredores da Praça Tahrir, no Cairo, em 2 de julho. No dia seguinte, o presidente Mohamed Mursi foi deposto como resultado dos protestos que tomaram conta do país (Foto: Khaled Desouki / AFP)
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8. A italiana Licia Ronzulli (centro) participa com a sua filha Victoria de votação no Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França, em 19 de novembro (Foto: Frederik Florin / AFP)
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9. Policiais disparam tiros de bala de borracha em manifestante durante protesto no Rio de Janeiro em 20 de junho (Foto: Christophe Simon / AFP)
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10. O jamaicano Usain Bolt (esq.) vence a final dos 100 m rasos no mundial de atletismo em Moscou, na Rússia, em 11 de agosto (Foto: Olivier Morin / AFP)
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11. Mulher sofre para controlar o seu guarda-chuva durante chuva provocada pela passagem do tufão Usagi por Manila, nas Filipinas, em 22 de setembro (Foto: Noel Celis / AFP)
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12. Crianças observam os estragos causados pela passagem do supertufão Haiyan pela cidade de Tacloban, Filipinas, no dia 10 de novembro. Milhares de pessoas morreram neste desastre natural (Foto: Noel Celis / AFP)
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13. Vítima do supertufão Haiyan é observada por sua mulher em hospital de Tacloban, nas Filipinas, em 15 de novembro. O homem teve a perna amputada, o que gerou uma posterior infecção. A mulher o mantinha vivo ao bombear manualmente ar em seus pulmões (Foto: Philippe Lopez / AFP)
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14. Sobreviventes do supertufão Haiyan marcham durante procissão na cidade de Tolosa, Filipinas, em 19 de novembro, uma semana após a cidade ser devastada (Foto: Philippe Lopez / AFP)
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15. Atleta observa pinguim durante maratona na Antártida, em 1º de março. Cinquenta e dois corajosos atletas enfrentaram o frio no continente gelado para disputar a prova (Foto: Joel Estay / AFP)
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16. Imagem aérea mostra o campo de refugiados sírios de Za’atari, na Jordânia, em 18 de julho. Na época, o local abrigava ao menos 115 mil pessoas que fugiram da guerra civil na Síria (Foto: Mandel Ngan / AFP)
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17. Mulher egípcia tenta impedir que escavadeira atropele jovem ferido durante confronto com as forças de segurança no Cairo, em 14 de agosto. Na data, as autoridades realizaram uma operação para destruir um acampamento montado por manifestantes nas proximidades da mesquita de Rabaa al-Adawiya (Foto: Mohammed Abdel Moneim / AFP)
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18. Manifestantes egípcios direcionam lasers para helicóptero que sobrevoava o palácio presidencial no Cairo em 30 de junho. Milhares de pessoas acamparam por dias exigindo a renúncia do presidente Mohamed Mursi, que viria a ser deposto no dia 3 de julho (Foto: Khaled Desouki / AFP)
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19. Caixões de vítimas de naufrágio de barco com imigrantes são perfilados no aeroporto de Lampedusa, na Itália, em 5 de outubro. Mais de 300 migrantes africanos morreram na tragédia (Foto: Alberto Pizzoli / AFP)
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20. Ex-soldado reage após ser condenado à morte por tribunal de Daca, em Bangladesh, em 5 de novembro. Ele e cerca de outras 150 pessoas foram condenadas por um motim militar que resultou em um massacre de oficiais em 2009 (Foto: Munir uz Zaman / AFP)
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