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quarta-feira, julho 30, 2014

Há cem anos, a barbárie

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Há cem anos, a barbárie

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Captura de tela de 2014-07-29 08:29:38
Num mundo novamente marcado por militarização, xenofobia e arrogância imperial, vale examinar de perto origens da I Guerra Mundial, que completou um século ontem
Por David P Goldman | Tradução Vila Vudu | Imagem: John Singer Sargent, Gassed
Nenhum desastre na história do mundo foi mais previsível nem de preparação mais demorada. O grande romance de Robert Musil, O homem sem qualidades,[1] mostra a elite vienense nos meses antes da guerra, com suas preocupações pequenas, sem se dar conta de que o mundo dela estava às vésperas de sumir. É o maior antirromance europeu, porque a premissa autorreferencial – os protagonistas não sabem o que todos os leitores sabem – impede que o romance tenha fim. Não há escolhas certas, porque nada pode impedir que aquele mundo-bolha exploda. Depois de Musil – meta-Musil, por assim dizer – vem a grande evacuação. O romance é considerado obra-prima no mundo de língua alemã. Poucos norte-americanos o conhecem e, dentre esses, ainda menos são os que compreendem o romance.
Agora, quando se aproxima o 100º aniversário da 1ª Guerra Mundial, ouviremos número infindável de variações de lamentos pela Civilização Ocidental. Todos dirão mais ou menos o seguinte: no auge de sua prosperidade, de descobertas científicas e de realizações de grande arte, as nações europeias, de repente, inexplicavelmente, mergulharam em massacres mútuos e prepararam o terreno para o grande massacre que viria, de 1939 a 1945. Nada disso. Está errado, simplesmente errado.
A Europa já fizera a mesma coisa antes, por duas vezes: primeiro, na Guerra dos 30 Anos, de 1618-1648; e depois, outra vez, nas Guerras Napoleônicas, de 1797-1814.
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As baixas francesas nas Guerras Napoleônicas foram comparáveis às da 1ª Guerra Mundial, em relação à população. A França perdeu de 1,4 a 1,7 milhões de homens, sob Napoleão, de uma população total de 29 milhões. Tipicamente, no século 18, homens de 17-49 anos constituíam 1/5 da população. O total de contingente militar humano da França napoleônica era de menos de 6 milhões de homens, o que significa que as baixas alcançaram 23-28% do total da população masculina ativa, mais do que na 1ª Guerra Mundial. Muitos mais de outras nações também morreram; dos 500 mil soldados do exército poliglota de Napoleão que marchou para a Rússia em junho de 1812, só 16 mil voltaram.
Os eventos de 1914-1939, como Winston Churchill disse bem, foram “uma segunda Guerra dos 30 Anos”. De fato, a primeira Guerra dos 30 Anos foi, em vários sentidos, pior. Matou quase metade da população da Europa Central e deixou vazias grandes áreas da Espanha e da França.
Obnubilados como somos pela ideia de Progresso, do Iluminismo, rapidamente apagamos o precedente de nossos próprios problemas. Na leitura ‘das Luzes’, a Guerra dos 30 anos foi conflito religioso, a última orgia de sangue da superstição medieval, antes que a Idade da Razão varresse de vez as teias do fanatismo. É absolutamente falso: depois da revolta inicial, abortada, dos Protestantes da Boêmia contra o Império Austríaco, a Guerra dos 30 Anos tornou-se conflito franco-espanhol, luta de fanáticos dos dois lados, que acreditavam que a respectiva nação teria sido escolhida por Deus para ser agente Dele na Terra. Foi guerra religiosa, afinal de contas, mas guerra entre duas leituras nacionalistas pervertidas do cristianismo católico. A mesma megalomania etnocêntrica impeliu as nações da Europa na direção de 1914.
A guerra poderia ter sido evitada, afinal; e montar cenários nos quais teria sido evitada é uma espécie de prática artesanal doméstica, para historiadores. Esses cenários são mal disfarçadas “lições” de política para o presente. Sou autor de um livro desses, de cenário em que a guerra seria evitada, a saber, uma guerra alemã preventiva contra a França durante a Primeira Crise do Marrocos de 1906 (vide Why war comes when no one wants it, Asia Times Online, 2/5/2006).
As causas objetivas da guerra são bem conhecidas e infindavelmente analisadas. A Alemanha tinha a economia e população que mais rapidamente cresciam; os rivais, para conter sua influência, a cercaram.
– Com a população estagnada, a França não poderia esperar reconquistar para si as províncias da Alsácia e Lorena, que perdera para a Alemanha em 1870 – nem vencer qualquer guerra futura, a menos que fosse guerra imediata. Da paridade em meados do século 19, em 1914 a população alemã já era 1,5 vezes maior que a da França.
– A Alemanha não poderia concentrar seu exército num ataque esmagador contra a França, se esperasse até a Rússia ter construído sua rede ferroviária interna.
– O Império Austro-Húngaro  não conseguiria manter as etnias fracionadas em seu interior, sem castigar a Sérvia. Não poderia garantir direitos iguais aos sérvios, sem provocar os húngaros, que tinham posição privilegiada; só restava suprimir os primeiros.
– A Rússia não poderia manter controle sobre a parte oeste industrializada do império – Polônia, Ucrânia, os estados do Báltico e a Finlândia – se a Áustria humilhasse seu aliado sérvio, e a Rússia dependia dessas províncias para o grosso dos impostos que arrecadava.
– A Inglaterra não poderia manter o equilíbrio de poder na Europa, se a Alemanha esmagasse a França.
Nenhuma dessas potências conseguiria prosseguir sem encarar risco existencial: no caso da França, uma posição enfraquecida, sem esperanças, ante a Alemanha; no caso da Alemanha, uma eventual ameaça por uma Rússia industrializada; no caso da Áustria, rompimento do Império, por efeito de agitação eslavófila; no caso da Rússia, a perda das províncias do oeste, que cairiam na órbita teutônica; e no caso da Inglaterra, a irrelevância no continente, com desafio inevitável contra seu poderio nos mares.
Há vários excelentes relatos dos eventos que levaram à eclosão da guerra em agosto de 1914, um mais recente dos quais é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark.[2] Cada um dos combatentes, de fato, dar-se-ia melhor se conseguisse declinar dos combates. Mas isso significaria abrir mão da reivindicação de superioridade nacional que motivara os combates. Combateram, em outras palavras, não porque tivessem, no sentido estrito da palavra, de combater, mas por causa do tipo de gente que eram. Evan deixa implícito que não estariam raciocinando. Mas com o quê, então, estariam sonhando?
Os europeus lutaram a Grande Guerra de 1914 para evitar converterem-se no que são hoje. Mas, como o homem na história de Somerset Maughan,[3] que tinha encontro com a morte em Samarra, deram um jeito de apressar o encontro.
Ainda causa escândalo na Alemanha, que o maior romancista alemão do século 20, Thomas Mann, tenha saudado com entusiasmo a chegada da guerra. Tinha o “coração incendiado” na declaração de guerra, e “sinto-me em triunfo com o colapso do odiado mundo da paz, com a desgraça da corrompida ‘civilização’ mercantil-burguesa, eternamente inimiga do heroísmo e do gênio.” Mann louvou o “indispensável papel, como missionário”, da Alemanha; contrastou a Kultur alemã à mercenária Zivilisation ocidental.
Mann capturara o humor nacional. A Alemanha combateu a 1ª Guerra Mundial sob o estandarte da Kultur. Em 1915, 93 dos principais intelectuais e artistas alemães assinaram manifesto em que justificavam o clamor da Alemanha por guerra, em nome da superioridade cultural. Esse é o cerne de uma fala de feia fama de Hans Johst, autor de uma peça teatral de propaganda nazista, Schlageter,[4] apresentada no aniversário de Hitler, depois de os nazistas terem chegado ao poder, em 1933: “Quando ouço a palavra ‘cultura’, solto a trava da minha pistola.” Entende-se, em geral, que essa fala mostraria que os nazistas eram analfabetos, o que não é verdade; Hitler era pintor, mau pintor, mas pintor; e amante da música. Na verdade, sempre manifestou rancor contra o sacrifício inominável que o velho regime exigia, a serviço dos velhos ideais.
Thomas Mann entusiasmava-se com a estética da guerra: as mesmas qualidades e as mesmas atitudes que dão forma à arte dão forma à guerra. Por estranho que soe, por mais que perturbe, Mann estava absolutamente certo: a arte e a guerra exigem o mesmo irrestrito comprometimento existencial.
Num artigo de 2010,[5] argumentei que isso ajuda a explicar por que os israelenses tão frequentemente são músicos tão notáveis, os melhores musicistas do mundo clássico. Não apenas herdaram muitos dos melhores professores da Europa Central, mas, como nação, amam e buscam, muito mais do que temem e rejeitam, o risco; e o que faz as grandes interpretações musicais é um senso de risco. “Und setzet ihr nicht das Leben ein/Nie wird euch das Leben gewonnen sein” cantam os soldados da cavalaria de Wallenstein, no drama de Schiller, de 1799, sobre a Guerra dos 30 Anos: se você não aposta a própria vida, não ganha a vida para você mesmo. Com a Alemanha destroçada em 1945, Mann declarou então que a cultura alemã chegara ao fim. Esse é o ponto de seu grande romance do pós-guerra, Doutor Fausto:[6] o protagonista, Adrian Leverkuhn, enlouquece compondo uma cantata atonal cujo objetivo é “retomar” a 9ª Sinfonia de Beethoven – para substituir por aleatoriedade vazia, a harmonia ordenada do passado europeu.
Os asiáticos, que abraçaram em grandes números a música clássica ocidental, devem estranhar muito que essa arte magnífica seja tão negligenciada em suas terras de origem. A resposta é que nós, no ocidente, nós todos, soltamos a trava da pistola quando ouvimos a palavra “cultura”. A cultura harmoniosa, ordeira e otimista da Europa de pré-1914 é carregada de lealdade à tradição, quer dizer: de atitudes que nos levaram para as trincheiras. Desprezamos a cultura, porque abominamos a autoridade, a tradição, a lealdade, quer dizer, virtudes que os asiáticos ainda cultivam. Abominamos arte que exija de nós que reconheçamos autoridade superior – do gênio subordinado à tradição, ao precedente – e preferimos uma cultura popular que tudo nivelaria, com a qual nós podemos nos identificar como supostos iguais (vide American IdolatryAsia Times Online, 29/8/2006). Mas há uma dimensão da arte ocidental – a abertura para o risco – que a maioria dos asiáticos tem muita dificuldade para entender.
O importante historiador católico George Weigel[7] observa que, em 1914, até o clericato católico “bebeu fundo no poço de um nacionalismo que parecia além do alcance da crítica cristã moral. Assim, quando o Colégio de Cardeais reuniu-se em setembro de 1914 para eleger um sucessor do Papa Pio (…), o cardeal alemão Felix von Hartmann disse ao cardeal belga Desiré Mercier “Espero que não tenhamos de falar de guerra”, ao que Mercier respondeu de bate pronto: “E eu espero que não tenhamos de falar de paz.”
Weigel cita o capelão alemão que cantava “Fúria sobre a Alemanha! Oh, grande guerra santa da liberdade!”, e o bispo anglicano de Londres, que conclamava os fiéis de sua congregação a matar alemães: “Matem-nos, não matar por matar, mas matar para salvar o mundo; matar os bons, e também os maus. Matar.” Weigel pensa que esse nacionalismo maligno tem raízes no século anterior à 1ª Guerra Mundial. Não concordo. A megalomania da “nação eleita” motivou franceses e espanhóis, os dois lados da Guerra dos 30 Anos. Como escrevi em meu livro de 2011, How Civilizations Die (and Why Islam is Dying, Too) [Como as civilizações morrem (e por que o Islã também está morrendo)]:
“Não só os interesses temporais do estado francês, mas a crença apaixonada em que a França seria A Nação Eleita, motivaram Richelieu e Tremblay a prolongar as guerras religiosas dos anos 1620s por trinta anos, matando vasta proporção da população da Europa Central (…) Se a Guerra dos 30 Anos foi genuinamente guerra religiosa, de católicos contra protestantes, a França, como o mais poderoso país católico, deveria ter apoiado a Áustria católica. Mas a França não podia apoiar a demanda das dinastias Habsburgo austríaca e espanhola, que queriam o título imperial e o direito de representar a Cristandade. E a França, em vez de apoiar, decidiu arruinar a Áustria e a Espanha, para estabelecer-se ela mesma.
Como os franceses (…) a corte espanhola também acreditava que a Espanha era a nação escolhida por Deus como sua Procuradoria terrena. O monge e teórico político Juan de Salazar escreveu, em 1619, em seu tratado Politica Española que “os espanhóis foram eleitos para realizar o Novo Testamento assim como Israel foi eleita para realizar o Velho Testamento. Os milagres com que a Providência favoreceu a política espanhola confirmam essa analogia do povo espanhol com o povo judeu, de modo que a similaridade dos eventos em todas as épocas, e o modo singular como Deus manteve a escolha e o governo do povo espanhol, declaram que esse é o povo escolhido pela lei da graça, assim como o outro foi o escolhido antes, no tempo das escrituras (…) Daí se pode concluir, das atuais circunstâncias, como das sagradas Escrituras, que a monarquia espanhola perdurará por muitos séculos e será a última monarquia.” Segundo Stanley Payne, aí se vê “atitude não incomum na corte e em parte da elite de Castela.”
E adiante:
“A atormentada urgência de cada nação de ser ‘a escolhida’, experimentada na pele, começou com a primeira conversão de pagãos europeus; estava incorporada na Cristandade Europeia, na fundação. Cronistas cristãos põem os monarcas europeus recém batizados no papel de reis bíblicos; e suas nações, no papel da Israel bíblica. A primeira vez que se ouviu autoproclamação como ‘nação escolhida’ foi no auge da primeira das Idades das Trevas: do cronista do século 6º, São Gregório de Tours (538-594); e do clérigo ibérico do século 7º, Santo Isidoro de Sevilha.”
Os Santos Isidoro de Sevilha e Gregório de Tours foram, de certo modo, os Bialystock e Bloom,[8] da Idade das Trevas; os Produtores do show “a fundação da Europa”: venderam 100% do show a cada um e a todos os reizinhos. Não se pode culpar os produtores. Transmutar os invasores bárbaros que infestavam o arruinado império dos romanos em cristãos foi, talvez, o mais notável feito político de toda a história mundial, mas requereu muita lábia, que teria consequências assustadoras, chocantes, no longo prazo. Os restos das imundícies do velho paganismo europeu acumularam-se nos enroscados intestinos da Europa, até que os terríveis eventos de 1914-1945 puseram tudo para fora.”
A visão autenticamente católica de um império universal não conseguiu impor-se, ela própria, sobre os reclamos mais tangíveis de sangue e terra. Os europeus não lutaram as guerras de 1618, 1814 ou 1914 como cristãos, mas como criptopagãos. Essa foi a discussão entre os críticos judeus, de Heinrich Heine a Franz Rosenzweig e Siegmund Freud. Freud escreveu:
“Não podemos esquecer que todos os povos que hoje se destacaram na prática do antissemitismo só se tornaram cristãos em tempos relativamente recentes, às vezes obrigados por compulsão sangrenta. Pode-se dizer que todos foram ‘mal batizados’ [tb ‘mal cristianizados’ (NTs)]; sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que seus ancestrais sempre foram, barbaramente politeístas. Ainda não superaram o ressentimento e a rejeição que lhes inspira a nova religião, que foi imposta a eles; e que eles projetaram sobre a fonte da qual veio a eles o cristianismo.”[9]
Os homens não são moderados. Não somos tão diferentes de nossos pais como gostamos de crer. Os europeus hedonistas, sem filhos, de hoje, são o mesmo povo que lutou e morreu aos milhões pelo rei pelo país em 1618 ou 1814. Qualquer coisa pela qual valha a pena viver vale também que se morra por ela; se não se consegue pensar em nada por que morreríamos, implica que tampouco temos algo por que viver – exatamente como os europeus de hoje. A Europa aprendeu por muito tempo que sangue e terra, Kultur e Grandeur, eram itens pelos quais não valeria a pena lutar. Mas a Europa nada encontrou, pelo qual viver, depois que rejeitou para sempre os deuses nacionais de seu passado violento. Está morrendo de nervoso e tédio, desgostosa do próprio passado e descuidosa do próprio futuro, sem querer pôr filhos no mundo nem, que fosse, para assegurar a própria sobrevivência por mais um século.
“Muito foi salvo”, escreveu um soldado da Grande Guerra, J R R Tolkien, mas “muito tem agora de morrer.” Apesar de Hans Johst, a cultura europeia não morrerá: como aconteceu com a guarda da cultura grega clássica, que passou para as mãos de europeus, a arte europeia – pelo menos, com certeza, sua música – passará para as mãos de asiáticos.
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[1] MUSIL, Robert [1880-1942], O homem sem qualidades (1930-33-43), Nova Fronteira, 1978, trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth, 2 vol., 786 pp (romance inacabado).
[2] CLARK, Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a primeira guerra mundial, 1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
[3] “Encontro com a morte em Samarra”. É o trecho final de uma peça escrita por Somerset Maughan em 1932. Lê-se, em português, em http://warj.med.br/memo/samarra.asp [NTs].
[4] Sobre o personagem título, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Leo_Schlageter
[6] MANN, Thomas [1875-1955]. Doutor Fausto (1947), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, trad. Herbert Caro, s/d.
[8] Referência aos personagens do filme The Producers, primeiro filme de Mel Brooks, de 1968 (Zero Mostel faz o papel de Max Bialystock, produtor de uma peça teatral; e Gene Wilder é Leo Bloom, seu secretário). Sobre o filme, ver http://en.wikipedia.org/wiki/The_Producers_(1968_film). Em português, lê-se alguma coisa (de segunda mão, em O Estado de S.Paulo, em 1969) sobre a peça teatral (“Os Produtores”) que foi montada no Brasil, http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,os-produtores-traz-humor-escrachado-de-mel-brooks,52249. Talvez ajude a entender a metáfora [NTs].
[9] FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939 [1934-38]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXIII.

terça-feira, junho 10, 2014

Um ano do caso Snowden: proteção de denunciantes e da privacidade devem ser assegurados

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81013


Um ano do caso Snowden: proteção de denunciantes e da privacidade devem ser assegurados

Adital
Há um ano, o ex-agente da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) Edward Snowden fez explosivas revelações sobre as irregularidades do forte esquema de espionagem governamental que os Estados Unidos mantêm em países de todo o mundo. O caso adquiriu relevância internacional por chamar a atenção sobre o respeito ao direito à proteção internacional das pessoas que denunciam irregularidades e, claro, À proteção do direito à privacidade. Em relação a esses dois pontos a organização Anistia Internacional destaca a urgente necessidade de reformas que garantam esses direitos.
A instituição destaca que as leis são diferentes em cada nação, contudo os Estados Unidos são mais duros, prova disso é que o governo apresentou denúncia contra Snowden no marco da Lei de Espionagem, negando-lhe a possibilidade de defesa da denúncia de irregularidades em interesse público. Caso seja julgado no país, Snowden poderá ser condenado a 10 anos por cada acusação.
"Preocupa-nos profundamente o tratamento recebido por Edward Snowden e também somos plenamente conscientes de que há milhares de denunciantes de irregularidades que também sofrem perseguição pelo mero fato de trazer à luz informações que são de interesse público. É imprescindível que todos os Estados façam o possível para que qualquer pessoa possa denunciar abusos contra os direitos humanos em condições de segurança”, manifesta Michael Bochenek, diretor geral de Direito Internacional e Política da Anistia Internacional.
Hoje, Snowden vive uma situação de instabilidade. Há 10 meses, recebeu asilo político e mora em Moscou, na Rússia, mas não há garantias de que poderá ficar no país por tempo indeterminado; seu asilo vence no início de agosto. Além disso, os Estados Unidos têm pressionado alguns países para que não concedam asilo ou permitam que o ex-funcionário da NSA cruze seu espaço aéreo. Caso vá aos Estados Unidos, há grande probabilidade de que seja preso, visto que hoje é o "criminoso” mais procurado do mundo.
"As revelações de Edward Snowden comoveram o mundo e demonstraram, longe de toda dúvida, que os governos violaram sistematicamente o direito de seus cidadãos à privacidade. Agora, a Anistia Internacional, junto com outras organizações, faz sua a luta pela privacidade e exige que os governos respondam por seu abuso de poder”, afirma Michael Bochenek.
Ao contrário do que foi amplamente divulgado pelos Estados Unidos, Snowden era um funcionário do alto escalão da NSA. Ele tomou a decisão de denunciar as irregularidades após ver James Clapper, chefe da espionagem, jurar no Congresso que os Estados Unidos que não monitoravam informações de milhares de estadunidenses. Snowden entregou uma série de documentos ao jornalista Glenn Greenwald, que comprovam que os Estados Unidos, por meio da NSA, monitoravam comunicações por telefone e Internet no mundo todo, até mesmo dos próprios cidadãos estadunidenses, evidenciando uma flagrante vulneração do direito internacional.

quinta-feira, abril 10, 2014

Mudanças climáticas empurrarão milhões à miséria, alerta Banco Mundial

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/521185-mudancas-climaticas-empurrarao-milhoes-a-miseria-alerta-banco-mundial


Mudanças climáticas empurrarão milhões à miséria, alerta Banco Mundial

Relatório analisa os impactos já existentes e projeções futuras do aquecimento global em algumas das regiões mais pobres do planeta e reconhece a necessidade de medidas urgentes de adaptação.
A reportagem é de Fabiano Ávila e publicada pelo Instituto CarbonoBrasil, 19-06-2013.
Comunidades pobres na África, no Sudeste Asiático e em Ilhas do Pacífico que vinham, aos poucos, melhorando sua situação, começam a regredir devido às consequências do aumento das temperaturas médias do planeta, que tornam o acesso à água e aos alimentos cada vez mais difícil.
Essa é uma das conclusões do relatório Turn Down the Heat: Climate Extremes, Regional Impacts, and the Case for Resilience (algo como Diminua o Calor: Extremos Climáticos, Impactos Regionais e Casos para Resiliência), divulgado nesta quinta-feira (19) pelo Banco Mundial.
"Cientistas afirmam que se o planeta aquecer 2oC – o que pode acontecer nos próximos 20 ou 30 anos – teremos escassez de alimentos generalizada, ondas de calor sem precedentes e mais ciclones intensos. As mudanças climáticas, que já estão acontecendo, podem tornar a vida ainda pior em zonas pobres e prejudicar enormemente as vidas e esperanças de indivíduos e famílias que não têm responsabilidade nenhuma sobre as causas do aumento das temperaturas", afirmou Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial.
Segundo o relatório, o planeta já está registrando um aquecimento de 0,8oC e as temperaturas poderão subir mais 4oC até o fim do século se nada for feito. Baseado em análises do Instituto Postdam e do Climate Analytics, o documento traça o cenário atual e futuro de algumas das regiões mais vulneráveis ao clima no mundo, destacando o risco de grande degradação da qualidade de vida e da economia mundial se as previsões forem confirmadas e se ações de adaptação não forem postas em prática.
De acordo com Rachel Kyte, vice-presidente de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial, a inviabilidade da produção de alimentos está forçando uma regressão na qualidade de vida de cada vez mais pessoas. “Nas áreas avaliadas, milhões estão voltando a morar em favelas, colocando famílias inteiras sob o risco de doenças relacionadas a condições inadequadas de moradia.”
Na África subsaariana, por exemplo, os pesquisadores apontam que secas ficarão mais intensas e frequentes, prejudicando a já precária segurança alimentar e provocando problemas econômicos e conflitos sociais.
A estimativas são de uma queda de 80% na atual produção de alimentos na região para um aquecimento entre 1,5oC e 2oC, algo que pode acontecer dentro de três décadas.
No Sudeste da Ásia, considerando um cenário de inação por parte dos governos, cidades costeiras sofrerão com um aumento no nível do mar de até 30 cm em 2040. Cidades no delta do rio Mekong, no Vietnã, produtoras de arroz que é exportado para diversas partes do mundo, são especialmente vulneráveis ao avanço dos oceanos. Confirmados os 30 cm de elevação, isso significará uma imediata queda de 11% na cultura de arroz.
No Pacífico, a crescente acidez das águas já provoca a mortandade de corais e das muitas espécies de peixes recifais que são essenciais para os povos insulares. Também o acesso à água potável têm ficado mais difícil, com a salinidade crescente das reservas hídricas, causada pela subida do nível do mar.
“O resultado de nossa avaliação é um cenário dramático de um planeta sob extremos climáticos que causam devastação e sofrimento. Em muitos casos, ameaças múltiplas, como o aumento de ondas de calor, elevação do nível dos oceanos, secas e enchentes mais severas, colocam em risco justamente os mais pobres e vulneráveis”, explica o relatório.
Adaptação
“Precisamos atrair a atenção mundial para a tarefa de manter o aumento das temperaturas em 2oC. Estamos colocando nossas ideias em prática, buscando ajudar aqueles cujas vidas estão sendo particularmente afetadas pelos eventos climáticos extremos”, afirmou Kyte.
A entidade informou que aumentou de US$ 4,6 bilhões para US$ 7,1 bilhões os recursos que destinará para medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. O Banco também lançou o Plano de Ação de Gerenciamento Climático, que tem como objetivo alavancar novos recursos para lidar com o aquecimento global.
Entre as metas do novo plano estão: ajudar os países a desenvolverem estratégias que levem em conta os riscos e oportunidades das mudanças climáticas; fornecer ferramentas para a adaptação; criar novas práticas e padrões para aumentar a resiliência da sociedade; estimular os investimentos em tecnologias de baixo carbono e em energias alternativas.
“Não acredito que os pobres já estejam condenados ao futuro descrito nesse relatório. Estamos determinados a trabalhar junto aos países para encontrar soluções”, concluiu Kim.

terça-feira, março 18, 2014

MANIFESTO UNIVERSAL DOS POETAS DO MUNDO

poetas del mundo
http://www.poetasdelmundo.com/detalle_manifiesto.php?id=2828


MANIFESTO UNIVERSAL DOS POETAS DO MUNDO

Poeta, se voce conhece o objetivo do nosso movimento “Poetas do Mundo”, o mesmo que o nosso “Manifesto Universal” e queira ser fiel a seu compromisso, te receberemos como a um irmão com a mesma paixão de mudar o mundo com palabras, como uma manifestação suprema de sua arte e que seja esta a cheve para mudarmos o mundo e a historia. 
MANIFESTO UNIVERSAL DOS POETAS DO MUNDO
Poetas do Mundo é chegada a hora exata para unir nossas forças na defesa da continuação da vida: Somos Guerreiros da paz e mensageiros dessa nova etapa da humanidade. Somos os poetas da luz e essa luz é o veículo que nos conduz nessa chamada de alerta e por motivo nenhum devemos deixar de estarmos presentes. Vivemos atualmente o processo de morte de uma etapa degenerada e asistiremos o nascimento de uma NOVA ERA na qual nós poetas temos um rol determinante de estarmos presentes.

A humanidade vive momentos decisivos onde lutam por sobreviver: Seguimos para a beira de um precipicio que nos conduz a extinção ou mudamos o leme numa trajetória para a superação coletiva que nos assegure uma grande subsistencia.
Desde os mais remotos tempos em que o homem possa recordar, a existencia humana tem se confrontado en coexistir com o meio ambiente, que lhes foram asegurados e seguem asegurando a possibilidade de viver. Mas ao mesmo tempo e paradóximente o homem em seu afã de ser mais, de crecer e crecer, vindo   deteriorando o planeta até levar-lo ä limites colocando em perigo a possibilidade de seguirmos existindo como especie. Se o Homem nao muda o rumo, ¡E AGORA!, as próximas geraçães terão solidas razões para odiar-nos.
Por outro lado, neste mesmo contexto de querer sempre MAIS, não só usam dos meios materiais do planeta para crecer e subsistir, sendo também  que os meios humanos, arrastando-nos para a desesperada e criminosa competencia entre os homens a tal ponto que hoje estamos  matando-nos uns aos outros para sobreviver, para crecer ou simplesmente para dizer: SOU, quer dizer mais, mas ¡SOU! Ou sou mais que voce...
Assim como deterioramos o planeta constantemente com o uso abusivo dos recursos naturais e humanos, assim que se constroem armas de destruição em grande escala, capazes de destruir toda a humanidade em poucas horas e a supremacía do poder concentra-se sempre nas mesmas mãos, ao qual conhecemos como imperio(s)
Mas, nem tudo é negativo, porque o caos moral, o caos político (guerras infames), o caos economico ( coisas absurdas) nao passam de manifestações do “PARTO DA HISTORIA” assim como uma mulher dá a luz a um bebe; morre esta etapa e surge outra de seu seio.

1- Diante deste afan de dominio absoluto que nos poderia levar inevitablemente a auto destruição e diante de tamaña barbaridade. E a luz de novos tempos que se anunciam, Os Poetas do Mundo emprenderemos ao caminho do protesto, por um lado e ao da contrução de um novo amanhecer, que conducirá a libertação definitiva do homem.
2 – Os Poetas do Mundo, não todos, somente os Poetas do Mundo, porque não todos os poetas do mundo estamos dispostos a dizer: não sou, SOMOS. Os que estamos dispostos a abandonar o EGO que nos esta matando e somos capazes de olharmos com IGUALDADE, iniciamos a cavalgada coletiva através do mundo e colocarmos a arte da poesia a serviço da humanidade
3 – Ser poeta não significa somente escrever bonitas poesias, temos que VIVER-LA e viver-la não significa somente sentir-la, temos que praticar-la e praticar-la é uma coisa de todos os dias, de sempre enquanto tivermos cabeça para pensar e coração para sentir.
4 – Ser Poeta do Mundo é ainda algum mais difícil, ser Poeta do Mundo é asumir este manifesto em sua parte mais esencial; é asumir a defesa da vida, do amor, da diversidade, da liberdade e ser capaz de dizer: dou minha vida pela VIDA, ainda que amo minha vida. por isso é que dizemos BASTA de estupidez, BASTA de EGOS que não contribuem ao crescimento coletivo, nem pessoal e botemos a arte da poesia a servico da existencia da humanidade..
5 – Ser Poeta do Mundo é ser um guerreiro, uma guerreira, que galopa pelas lanurias da existencia humana, como fiz na noite do tempo, em busca da perfeição e o crescimento lícito da vida, enquanto se vive com as vestimentas  e as condições que temos para fazer-lo. E é por iso que não seremos pasivos diante dos crimes que se cometen diariamente em nome da liberdade, levantemos nossas vozes como um raio de luz e faremos tremer aos covardes, porque a palabra é a melhor arma que amedronta aos assassinos que conhecemos ao largo de nosa historia.
6 – Reconhecemos o valioso aporte dos poetas do mundo ao crescimento da humanidade através de séculos. Á aqueles que deixaram seus nomes marcados e nos centenarios livros da historia universal e na memoria coletiva dos homens, assim como também  reconhecemos o aporte dos poetas anónimos, poetas que passaram pela terra cumprindo suas missões legendarias através dos tempos. Cremos no valor que significaram estas majestosas contribuições em seus tempos, inclusive hoje, mas estamos a beira de uma nova etapa para a humanidade, assim, os Poetas do Mundo do século XXI não queremos enraizar com o passado para melhor olharmos o presente e o futuro. Os Poetas do Mundo deste século estamos sendo chamados a sermos criativos para com maior imaginação encontrar as respostas e explicações que HOJE a humanidade brada ante o evidente descalabro que estamos vivendo.
7 – Os Poetas do Mundo nos declaramos todos iguais, os consagrados e os menos conhecidos, os famosos e os anónimos, os ricos e os pobres, os brancos e os negros, os mesticos e os amarelos, sempre e quando se situem neste lado da vida, empunhando as mesmas espadas para combater o que mata a vida, lutando corpo a corpo na mesma barricada para defender a JUSTICA (unica para todos), a IGUALDADE (efetiva entre todos os habitantes da terra), a LIBERDADE (a verdadeira, não a artificial) e o DIREITO dos povos existirem e viverem em paz.
8 – Os Poetas do Mundo declaram qualquer espaço onde possam estar ou ser, como se fosse suas proprias arenas, para combater o mal, seja em palacios de poder ou numa miseravel caverna do mundo, nos campos onde trabalham os campesinos ou no fundo de uma mina onde se suga o sanque do mineiro, porque o poeta nao deixará de ir en qualquer lugar , levando nossa palabra, como se fosse uma chuva sobre a terra, fazendo seu espetaculo de graça, como se fossem flores para os olhos da humanidade. O Poeta será a luz que guiará o guerreiro como dunas na escuridade da noite.
9 – Os Poetas do Mundo nos declamos pacifistas, mas não covardes e pasivos, ante-militaristas, mas de nenhuma maneira ingênuos. Sentimentalistas por natureza porque a expressão artística, a tinta da escrita é o sangue de nossas almas. Vivemos atrapados pela embriaguês do encanto artístico, até uma vertigem dolorosa da criação. Mas esta criação terá sempre um objetivo determinado: APERFEIÇOAR A VIDA”, a nossa (individual), a de todos (coletivamente). Somos pacifistas em busca da paz universal, mas A PAZ não chega do nada, temos que ganhar-la, lutar por ela. Para isso somos Guerreiros. E a PAZ não existe se não há JUSTIÇA. A PAZ somente haverá quando reine primeiro a justiça, porque ela apenas reinará com justiça, porque a PAZ é uma consequencia da justiça. Ou será o que está sendo agora no reinado dos Imperios: PAZ DE CEMITERIO.
10 – Para ser Poeta do Mundo tem que estar disposto a aperfeicionarse sempre, a crecer diversivicadamente e aceitar a pluridade como aceitamos a complexidade da existencia. E no Batalhão dos Poetas do Mundo haverá espaço sempre para lutar, para os que creem ou não, ateos ou religiosos, justos  ou equivocados, mas deste lado da VIDA. Heterosexuais, bisexuais ou homosexuais, mas todos amantes do AMOR nobre, guerreiros de outrora ou combatentes modernos, mas sempre militantes do BEM e fidelidade. A grande cadeia humana que possa unir ao mundo, correntes por correntes, estará conformada por poetas repartidores de esperança e sorrizos nesta luta que dura  desde a aurora dos tempos.
11 – O homem buscará um terceiro por suas culpas, nossa reta é que cada qual asuma sua esencia, em seu proprio espírito, sem ter que acudir ao terceiro para acalar seus erros e derrotas. Nossa esperança é alcansarmos  através da palabra, acender o verbo nos corações de cada um, o verso das montanhas, a noite sigilosa da alma, o envólucro cuidadoso do ventre da natureza,  ver o amanhecer, para que cada um alce sua alma com amor, com palabras. A Poesia e do mundo e nós somos dela.



Poeta do Mundo,
¡Una-se a esta batalha pela existencia humana!
¡Converta-se no leme necesario para que continue a VIDA!


Luis Arias Manzo
(Secretario General)

Santiago de Chile, diciembre 2005

sexta-feira, janeiro 24, 2014

Pesquisa da Oxfam expõe desigualdade escandalosa no planeta

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Pesquisa-da-Oxfam-expoe-desigualdade-escandalosa-no-planeta/6/30075


24/01/2014 - Copyleft

Pesquisa da Oxfam expõe desigualdade escandalosa no planeta

Segundo a Oxfam, cerca de 3,5 bilhões de pessoas ganham, somadas as suas rendas, o mesmo que as 85 pessoas mais ricas do mundo.


Marcelo Justo
Andy Hall/Oxfam

Londres - A desigualdade mundial é tão acentuada que até a Cúpula dos Ricos de Davos, que começou na quarta-feira, a citou como uma das grandes ameaças para a economia global. Um informe da organização humanitária Oxfam difundido segunda-feira ilustrou essa realidade com uma comparação que revela os extremos do desequilíbrio social em pleno século XXI. Segundo os cálculos da Oxfam, a metade da população mundial – cerca de 3,5 bilhões de pessoas – ganham, somadas as suas rendas, o mesmo que as 85 pessoas mais ricas do planeta. Esta aparente confluência no diagnóstico entre uma ONG que luta contra a pobreza global e o Fórum Econômico Mundial, organizador de Davos, termina com a identificação do problema.

Em uma pesquisa da empresa de consultoria internacional PricewaterhouseCoopers, publicada quarta-feira, ficava claro que as mil multinacionais que financiam o Fórum de Davos defendem que a desregulação e a redução do déficit fiscal são fundamentais para lidar com os problemas econômicos globais. No caminho oposto, a Oxfam pretende terminar com os paraísos fiscais, promover um sistema tributário progressista e salários dignos, todas soluções rechaçadas pelas multinacionais. A Carta Maior conversou com o chefe de pesquisa da Oxfam, Ricardo Fuentes-Nieva sobre os desafios de promover uma maior igualdade em um mundo  globalizado.

A Oxfam está participando em Davos e coincidiu com a avaliação do Fórum Econômico Mundial sobre os perigos colocados pela desigualdade. Mas as coincidências param por aí, não?

Ricardo Fuentes-Nieva: Em nosso informe nos vimos que em 24 dos 26 países mundiais que têm informações estatísticas dos últimos 30 anos a desigualdade aumentou. Colocado de outra maneira, sete de cada dez pessoas do mundo vivem em um lugar mais desigual que há 30 anos. Uma segunda conclusão de nosso informe é que os ricos têm uma crescente influência nos processos políticos, o que coloca sérios problemas de legitimidade. Por último, pensamos que não razões para que essa situação siga sendo assim. É um tema que pode ser corrigido com políticas públicas concretas.

Precisamente, mas o caminho que vocês apontam é o oposto daquele que ´r promovido em Davos.

RFN: Nós acreditamos que deve haver um combate global contra a evasão fiscal e os paraísos fiscais. O estouro financeiro de 2008 aprofundou a desigualdade com os programas de austeridade aplicados para solucionar uma crise que teve sua origem nos mais ricos do mundo e sua especulação financeira. Os paraísos fiscais foram fundamentais nesta especulação e constituem uma das chaves do desfinanciamento dos estados porque distorcem a política governamental. Por um lado, forçam políticas de redução fiscal para os mais ricos para que não recorram à evasão e à fuga de capital. Por outro, impedem políticas sociais e econômicas que reduziriam a desigualdade pela queda da arrecadação fiscal.

Desde a década de 70, a carga tributária diminuiu para os ricos em 29 dos 30 países onde existem dados disponíveis. Esta é uma política impulsionada pelo crescente poder político dos ricos e pelo desequilíbrio em favor das corporações na distribuição dos lucros econômicos entre trabalhadores e o capital.

O argumento mais citado em favor de salários baixos e vantagens tributárias é a competitividade das empresas em um mundo globalizado. Sem questionar a globalização atual, não parece haver solução para o problema da desigualdade.

RFN: É um ponto muito importante. Parte desta concentração de renda está vinculada à globalização que, ao mesmo tempo, teve aspectos positivos ajudando a que milhões de pessoas saíssem da pobreza. Mas o certo é que o salário real médio decresceu em muitos países. Não se pode afirmar que este fenômeno se deva pura e exclusivamente à globalização. É certo que os avanços tecnológicos que acompanharam a globalização foram enormes e geraram uma redistribuição econômica para grupos com maior nível de educação. Mas, ao mesmo tempo, a concentração de renda que temos visto nos últimos dois anos não pode ser explicada por este fator porque a globalização é um processo em curso há muito tempo.

A América Latina foi um dos lugares mais desiguais do planeta por muito tempo. Como avalia a situação da região nos últimos dez anos?

RFN: Acreditamos que ocorreram grandes progressos que demonstram que é possível melhorar as coisas se existe vontade política. Programas sociais como o Bolsa Família no Brasil, o Trabalhar na Argentina, o Chile Solidário, e Oportunidades no México, colocaram a América Latina na vanguarda de políticas inovadoras de intervenção estatal para lidar com a desigualdade. Mas é certo que isso não foi suficiente. Os protestos no Chile ou no Brasil são sinais de que resta muito por fazer. Ainda assim, a tendência é animadora na América Latina e muito melhor do que em outras partes do mundo.

O que pode ocorrer se não se modificar este panorama de crescente desigualdade global?

RFN: Estamos diante de um perigo de ruptura do contrato social e de dissolução da ideia de cidadania. Se os governos não refletem a vontade de grande parte da população, começam a perder legitimidade, dinamismo e colocam em perigo a democracia, os direitos humanos e outras conquistas. Neste sentido, para além de se a avaliação que Davos faz da desigualdade como uma das ameaças da economia mundial é um mero exercício de relações públicas, creio que não é em interesse das mesmas empresas de Davos que essa situação se desdobra. Esse desdobre não vai passar de um ano, mas há um perigo que a sociedade se torne esclerosada com um impacto concreto econômico e com um risco crescente de explosão social porque, agora, a desigualdade está afetando ao conjunto da sociedade de muitos países, incluindo as classes médias, que foram uma das grandes perdedoras da crise de 2008.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Dá para reverter a desigualdade social mundial?

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527565-da-para-reverter-a-desigualdade-social-mundial


Dá para reverter a desigualdade social mundial?

Um relatório da ONG Oxfam, publicado na segunda-feira, estima que as 85 pessoas mais ricas do planeta ganham o equivalente às 3,5 bilhões mais pobres.
A reportagem é de Marcelo Justo, publicada pela BBC Brasil, 23-01-2014.
No Fórum Econômico Mundial de Davos - que nesta semana congrega políticos, empresários e personalidades com um volume de negócios equivalente a quase a metade do PIB americano -, a desigualdade foi identificada como uma das principais ameaças à economia mundial.
Mas, ainda que todos concordem com a gravidade do problema, haverá esforços para solucioná-lo?
Nos últimos 30 anos, segundo a Oxfam, o 1% mais rico da população passou a abocanhar renda ainda maior, em 24 dos 26 países que forneceram dados sobre o período. O Brasil é citado como um dos poucos países onde a desigualdade está diminuindo.
Nos EUA, em 1978, um salário anual médio equivalia a US$ 48 mil (em valores atuais), e 1% da população ganhava US$ 390 mil. Em 2010, o salário médio caiu para US$ 33 mil, enquanto 1% da população ganhava mais de US$ 1 milhão.
O período coincide com a hegemonia da crença neoliberal promovida entre os anos 70 e 80 por políticos como Augusto Pinochet, no Chile, Ronald Reagan, nos EUA, Margaret Thatcher, no Reino Unido.
A ideologia, que emergiu triunfante com a queda do Muro de Berlim, prega regulação mínima do Estado sobre a atividade econômica, liberdade absoluta ao mercado e redução dos impostos aos mais ricos, a fim de promover o crescimento econômico.
Oxfam defende iniciativas que vão na direção oposta: "É preciso um combate global à evasão a paraísos fiscais. Um sistema de impostos progressivo. Um salário digno", disse à BBC Mundo Ricardo Fuentes-Nieva, chefe de pesquisas do órgão.
Estados costumam ser as únicas entidades capazes de intervir significativamente na redução da desigualdade em nível nacional, mas, para tal, necessita de dinheiro para financiar investimentos em saúde, emprego, educação ou previdência social.
Distorções
Nas últimas décadas, a elite mundial contribuiu decisivamente para o "desfinanciamento" estatal: segundo o Tax Policy Center, dos EUA, desde a década de 1970, a carga de impostos caiu para os mais ricos em 29 dos 30 países nos quais há dados disponíveis.
No mesmo período, o número de paraísos fiscais alcançou 50 a 60 jurisdições, que, segundo cálculo da revista The Economist, são o destino do equivalente a quase o dobro do PIB dos EUA.
O diretor da ONG Tax Justice InternacionalJohn Christensen, ilustra o impacto dos paraísos fiscais.
"No âmbito de indivíduos, a perda em receita fiscal é de cerca de US$ 225 bilhões. Em âmbito corporativo, ocorre uma distorção de preços. (Multinacionais) pagam pouco ou nada (para manter o dinheiro) no paraíso fiscal e, no país de origem, pagam menos do que deveriam porque seus ganhos ficam muito abaixo da realidade", afirmou à BBC Mundo.
Isso provoca distorções tragicômicas. Um único edifício nas ilhas Cayman, chamado de Ugland House, é a sede oficial de 18 mil empresas.
Nos Estados Unidos, Delaware, cuja população não chega a 1 milhão de pessoas, existem 945 mil empresas, mas de uma por cabeça.
E o Google faturou US$ 5 bilhões no Reino Unido em 2012, mas praticamente não pagou impostos por isso.
Políticas
A globalização financeira, a desregulação e a capacidade de mover a produção de um país a outro converteram esse poder econômico em uma força capaz de dobrar governos.
"A elite mundial está impondo políticas de Estado que lhes favoreçam", opinou Ricardo Fuentes-Nieva. "Isso produz uma 'deslegitimação' da democracia e do Estado."
O relatório da Oxfam diz que, em pesquisas conduzidas em seis países - Brasil, Espanha, Índia, África do Sul, Reino Unido e EUA -, a maioria dos entrevistados opinou que as leis tendem a favorecer os mais ricos.
ONG fez um chamado por mais responsabilidade à elite global - chamado que, segundo Fontes-Nieva, pode ter mais apelo por conta da profundidade e da extensão de potenciais turbulências globais.
"Estamos ante um perigo de ruptura do contrato social. Desta vez, o conjunto da sociedade, inclusive a classe média, se vê afetada. Precisamos lembrar que tratam-se de políticas públicas que podem ser mudadas. Se não forem, o impacto prejudicará as próprias elites, porque a crescente exclusão de consumidores pode acabar produzindo uma sociedade economicamente doente."
Sinais de debilidade não faltam: segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o desemprego mundial será de 6,1% neste ano, em comparação com 5,5% em 2008. Entre os jovens, a taxa será de 13,1%.
A íntegra do relatório, em espanhol, pode ser lida aqui.