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quinta-feira, setembro 18, 2014

A Escócia já ganhou

esquerda
http://www.esquerda.net/dossier/escocia-ja-ganhou/34137


A Escócia já ganhou

O referendo de 18 de Setembro trouxe para o quotidiano discussões sobre história, política e economia, sobre o que foi o passado e o que se quer do futuro. Quase ninguém responde agora “ah, eu não falo dessas coisas”. E já não era sem tempo! Artigo de Mariana Vieira, em Edimburgo.
"There will be no miracles here" - jardim do Museu de Arte Moderna de Edimburgo. Foto Luís Branco
Quando cheguei à Escócia, em Março de 2006, aprendi que teria de passar a acompanhar os resultados do futebol se quisesse fazer amigos. A partir daí, chegava-se ao resto. À política, às histórias da família, às preferências religiosas e assim por diante. Puxar qualquer um destes assuntos sem aquecimento prévio podia ser infrutífero e considerado mal-educado. Se tivesse chegado à Escócia em Março de 2014, a conversa teria sido outra. Durante os últimos dois anos e meio, trocar opiniões sobre assuntos sérios (para além da bola, claro) deixou de ser coisa reservada para quando a noite já vai longa. O referendo de 18 de Setembro trouxe para o quotidiano discussões sobre história, política e economia, sobre o que foi o passado e o que se quer do futuro. Quase ninguém responde agora “ah, eu não falo dessas coisas”. E já não era sem tempo!
O jornalista Jeremy Paxman queixava-se esta semana de que “uma Svetlana qualquer com residência a norte da fronteira podia votar” mas ele, “um quarto escocês”, não podia. Pois… exactamente porque qualquer Svetlana que viva na Escócia faz parte da comunidade sobre a qual está a votar, enquanto a ligação de Paxman será de material genético, portanto absolutamente irrelevante. O referendo, portanto, dizia-me respeito.
No dia em que o referendo foi anunciado, pensei, enquanto estudante que tinha vindo de passagem por um ano e acabou por ficar quase uma década, que o assunto não me dizia respeito. Quer dizer, interessava-me, como (quase) tudo o que é humano me interessa, mas pensava que não me cabia decidir sobre questões identitárias alheias e que a minha antipatia por nacionalismos me fazia desconfiar da necessidade disto tudo. Votar NÃO nunca foi hipótese, os escoceses que fizessem o que entendessem, mas não votar de todo chegou a parecer a opção mais sensata. O preconceito era meu. Muito pouca gente encara a independência como um fim em si mesmo e, como se vê pela escolha de universo de eleitores, é tudo menos uma questão identitária*. O jornalista Jeremy Paxman queixava-se esta semana de que “uma Svetlana qualquer com residência a norte da fronteira podia votar” mas ele, “um quarto escocês”, não podia. Pois… exactamente porque qualquer Svetlana que viva na Escócia faz parte da comunidade sobre a qual está a votar, enquanto a ligação de Paxman será de material genético, portanto absolutamente irrelevante. O referendo, portanto, dizia-me respeito. Fui ficando e assim que comecei a frequentar reuniões e sessões de esclarecimento, percebi a campanha do SIM tinha uma forte componente internacionalista e anti-globalizante, aliada a uma enorme convicção de que a Escócia só terá sucesso se proteger e incentivar as suas comunidades imigrantes. Curiosamente, a noção de que não fazia parte desta terra veio do lado oposto, com a substituição de um nacionalismo escocês pouco acentuado por um nacionalismo da União, paternalista, insistente e assustador.
À falta de um discurso identitário vindo da campanha do SIM que pudessem atacar, os seus adversários agarraram-se à noção de família. Como se votar pela independência não significasse pôr fim a um império obsoleto representado pelo Reino Unido, que consideram uma das maiores vitórias do pacifismo e da cooperação, ou uma normalização da vida democrática, mas sim tornar-se um estrangeiro para os amigos e parentes, erguer uma fronteira entre iguais, precisar de um passaporte para visitar a avó. Claro está, isto exclui quem não é daqui, a quem o apelo às raízes britânicas não aquece nem arrefece — faz parte da condição de migrante saber que se deve ter o passaporte à mão para visitar os primos e nunca ninguém deixou de ter irmãos por mudar de país. O discurso deveria pesar ainda menos nesta terra, em que tanta gente tem pais irlandeses, tias americanas, filhos indianos, avós canadianas e tantas outras felizes misturadas dentro e fora da gigante Commonwealth. Da família à metáfora do divórcio ou da birra de adolescente foi um saltinho. A Escócia quer sair de casa e levar tudo com ela. A Escócia sempre foi meio tontinha, claro, mas gostamos muito dela. A Escócia devia dar uma segunda oportunidade à Inglaterra (sempre a Inglaterra, nunca Gales ou o norte da Irlanda) e “trabalhar na relação”, como se o problema se resolvesse com um livro de auto-ajuda e umas sessões de terapia. Claro que quem não nasceu aqui nem sequer interessa para a metáfora, nem como familiar distante. Teria sido fácil pegar mais consistentemente no medo da multiplicação de vistos e autorizações de trabalho, por exemplo. Mas não. O apelo é apenas emocional, a quem se identifique com a “identidade britânica”. O que, de certa forma, é compreensível, já que de outra forma teriam, por exemplo, de justificar as ameaças recorrentes de Cameron de dificultar o acesso ao Reino Unido ou ao sistema nacional de saúde britânico.
Falhando a noção de família, o Labour (mas agora também a direita, numa mudança de discurso surreal) reclama o património da solidariedade entre os trabalhadores. Quebrar a unidade do Reino Unido é abandonar a Inglaterra a um governo Conservador perpétuo e dividir os sindicatos nas suas lutas comuns**. Esquecendo por um momento que o sindicalismo ainda não recuperou de todos os ataques que lhe foram feitos desde os anos 80, o que é impressionante no discurso pretensamente de esquerda do lado do NÃO é a impressão que deixa de que a solidariedade fora de fronteiras e, já agora, através de línguas diferentes, lhes é desconhecida. Transparece uma insularidade que, infelizmente, é comum noutras áreas, como muito do discurso académico, em que para lá da Mancha só há, quando muito a Alemanha. E da solidariedade com a Irlanda independente parece que é melhor não falar, pelo sim, pelo não. A ideia de que uma nação que acaba de redescobrir o que é a intervenção directa na democracia deva disso abdicar em nome de uma solidariedade vazia, que dispense outra de organizar a sua resistência, é aberrante. Mas esta gente nunca olhou para o resto do mundo? Nunca viu campanhas internacionais? Não se lembra, como o actor Kieran Hurley repete cada vez que pode, de que ainda há bem pouco tempo os estudantes escoceses se organizaram para apoiar os estudantes ingleses que tinham de pagar propinas? Propinas essas que não seriam aplicadas na Escócia? A solidariedade estará presente sempre que houver movimento social, mas a reorganização sindical e, por muito que lhe tenham resistido, a reorganização do Labour e das suas prioridades por todo o território tem até muito a ganhar com o debate da independência e com a crescente politização de um eleitorado há muito afastado das urnas.
Com o chavão da solidariedade (que sempre fizeram questão de boicotar quando existiu de facto), de repente, toda a gente do centro-direita governamental se tornou ultrasocialista e reclama uma “transformação radical do Reino Unido” que passe por todas as suas nações. Bom, de repente é como quem diz. Desde o momento exacto em que o pânico se instaurou graças a uma única sondagem a apontar para o que até aí parecia impossível. Líderes partidários prometem empenhamento de alma e coração na devolução máxima (projecto que têm vindo a vetar há décadas e contra o qual estiveram no momento da decisão dos termos do referendo), falam no horror do socialismo num só país (quem diria!), contra o nacionalismo e o terror do tirano que quer tomar a Escócia e acabar com a imprensa livre. Por outro lado, o nível de alerta sobre o terrorismo é aumentado, admitidamente sem qualquer informação nova que o justifique, duas semanas antes do referendo, numa manobra óbvia para influenciar o eleitorado preocupado com a defesa nacional face a um atentado, se o exército se dividir.
O Museu de Arte Moderna de Edimburgo, perto de uma das saídas da cidade mas também no caminho de um dos grandes hospitais, tem dois edifícios, um de cada lado da estrada. No friso do edifício principal, escrito em néon roxo, lê-se "vai correr tudo bem". Do outro lado, por vezes aquele por onde se passa primeiro mas num jardim que não se vê da rua, outra instalação luminosa avisa: "não vai haver milagres". A mensagem é mais ou menos reconfortante conforme a ordem de leitura das frases mas qualquer das versões se aplica a esta campanha.
Nos meios sociais, a campanha do NÃO nas últimas duas semanas é o delírio! Fala-se de gangs organizados de activistas do SIM que se passeiam pelas ruas a ameaçar e intimidar quem deles discorde. Fala-se em fascismo e totalitarismo, repressão e violência. Do medo de dizer que se vai votar não! Medo de quê, já agora, quando se tem toda a banca, a imprensa e a opinião transmitida dos países aliados do mesmo lado? O discurso de Cameron e amigos soa a falso. Soa a falso que quem ameace com os cenários de desgraça sejam também aqueles que foram responsáveis pela situação actual e que, até há duas semanas, só tinham para oferta mais austeridade, xenofobia e privatizações de serviços essenciais. Ou de gente que não põe os pés na Escócia há anos e não tem noção de que o palco principal desta campanha tem sido o contacto directo com as populações, em sessões cheias de gente interessada em debater todos os aspectos da questão.

Que os líderes partidários mintam descaradamente, ou que se minta descaradamente nas redes sociais, é uma coisa, mas a imprensa também entrou a matar na jogada***. Para além dos cenários apocalípticos, sempre com a caução de um nobel qualquer, as notícias desceram ao nível do absurdo e da desonestidade caricatural. Compara-se Alex Salmond com Hitler, Mugabe, ou Estaline. Anuncia-se, em jornais nacionais como o Telegraph (que apesar de tudo não é um tablóide) que a Coreia do Norte já declarou o seu apoio à independência e manifestou interesse em negociar com os produtores de whisky. Outros dizem-nos que o Monstro do Loch Ness vai mudar-se para Lake District e afectar o turismo. Os aristocratas campeões de Polo de Elefante estão com medo do que esses gatunos lhes vão fazer às terras. A “piada” de primeiro de Abril do Guardian já se tornou rumor “confirmado”: se a independência ganha, as pessoas vão ter de passar a conduzir pela direita. Mais grave do que isso, hoje, a dois dias do referendo, uma fonte não identificada revela à imprensa que tudo o que Alex Salmond tem andado a prometer sobre o sistema nacional de saúde é mentira e que planeia uma série de cortes para o dia seguinte à votação. A manutenção do sistema nacional de saúde é só um dos elementos fundamentais da campanha do SIM. Depois de uma campanha tão parcial começa a ser difícil distinguir realidade e ficção. Se tudo correr bem, os eleitores de dia 18 saberão distinguir o desespero confrangedor de Londres pela manutenção do status quo da vontade real de transformação, mas é muito provável que as ameaças tripliquem ainda nas últimas horas antes da votação.
Voltando ao lado positivo. Uma das enormes transformações desta campanha foi para a esquerda radical. Primeiro, tem sido uma lição sobre colaboração. Por muito que se possa desconfiar do programa do SNP, as campanhas têm sido paralelas e complementares, nunca hostis entre si. O SNP continuará na sua fase mais à esquerda enquanto tiver consciência de que grande parte do eleitorado que lhe permitiu maioria absoluta votou pelas políticas de justiça social, desiludido com o Labour. A esquerda voltou a ter motivação e mão de obra que lhe faltava há muito. O SSP (em crise desde o escândalo à volta de Tommy Sheridan) e os Verdes (ainda com representação parlamentar) estiveram muitíssimo envolvidos em todo o processo e foram responsáveis por trazer de novo para a participação política grande parte das áreas mais pobres e geralmente negligenciadas e pela mobilização da classe trabalhadora. Se o SIM ganhar, será por causa deste trabalho prolongado com as populações, para o qual o NÃO só acordou há uns dias. Dizia acima que a independência não é um fim em si mesmo para a maior parte daqueles que decidiram levar a cabo esta campanha, mas uma forma de tornar a Escócia uma nação democrática, em que, qualquer que seja o governo, os eleitores sintam que está ao seu alcance influenciar a sua escolha e avaliar a sua intervenção. A reivindicação de que a Escócia possa funcionar como uma democracia moderna (sem Câmara dos Lordes, por exemplo), favorecerá todos os quadrantes políticos. Deixando de ser responsáveis pela representação do Labour em Westminster, será normal e até saudável que também a direita se reorganize e ganhe algum terreno. Por enquanto, a tendência da esmagadora maioria de votantes no SIM é para a reivindicação de uma sociedade mais justa, fora dos programas nucleares e fora da austeridade que assola a Europa. Não será surpreendente se, após o envolvimento da comunidade na escrita da constituição, se abra o espaço político para, por exemplo, reivindicar a instauração da república e pôr fim a essa outra instituição obsoleta das ilhas britânicas.
Depois de uma campanha tão parcial começa a ser difícil distinguir realidade e ficção. Se tudo correr bem, os eleitores de dia 18 saberão distinguir o desespero confrangedor de Londres pela manutenção do status quo da vontade real de transformação, mas é muito provável que as ameaças tripliquem ainda nas últimas horas antes da votação.
O que quer que a Escócia venha a ser, terá de contar com a capacidade de manter o entusiasmo actual e os níveis de participação social. Será difícil para um país isolado contrariar o neoliberalismo vigente? Com certeza, mas o mais importante é que não tem de ser um país isolado e os esforços a norte podem encorajar e ganhar aliados pelo resto da Europa. Há a consciência de que isto vai ser a campanha mais importante da vida de muita gente. Há riscos na independência da Escócia? Há, claro. Internos e externos. A enorme diferença é a determinação com que a população respondeu ao desafio e, em vez de discutir apenas a separação, se dedicou a imaginar o mundo em que quer viver. É ingénuo pensar que isso será possível? Talvez. Mas a alternativa já todos vimos qual é. E é muito fácil prever o futuro da União inquestionada.
O Museu de Arte Moderna de Edimburgo, perto de uma das saídas da cidade mas também no caminho de um dos grandes hospitais, tem dois edifícios, um de cada lado da estrada. No friso do edifício principal, escrito em néon roxo, lê-se "vai correr tudo bem". Do outro lado, por vezes aquele por onde se passa primeiro mas num jardim que não se vê da rua, outra instalação luminosa avisa: "não vai haver milagres". A mensagem é mais ou menos reconfortante conforme a ordem de leitura das frases mas qualquer das versões se aplica a esta campanha. Fiquemo-nos pela versão menos fácil — a esperança de que vá correr tudo bem, aliada à consciência de que não há milagres (muito menos conseguidos por uma cruz num papel) e de que, se queremos um mundo melhor, temos de fazer por ele, todos os dias.
Voltarei em breve a viver em Portugal. Apesar da minha formação de classicista me avisar contra a esperança, ensina-me também que ela é uma das mais bonitas características da humanidade. Espero levar na mala um pouco do otimismo comprometido das terras altas.
Oh, e no meio disto, não sei o que se passa no mundo da bola.

* Note-se também, já agora, que o alargamento do voto para maiores de 16 não é uma tentativa de influenciar a votação. Como seria de esperar, a geração que vai agora votar pela primeira vez está tão dividida quanto o resto da sociedade.
** Vale a pena ler o texto de Terry Conway para desfazer este mito.
*** George Monbiot publicou esta terça-feira um excelente texto sobre o tratamento mediático da campanha do SIM.

domingo, julho 13, 2014

Cinco coisas que nunca agradecemos à União Soviética

op
http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=17896


Cinco coisas que nunca agradecemos à União Soviética

Союз Советских Социалистических Республик
Embora fracassado, projeto socialista do século 20 alcançou êxitos parciais de grande relevância. Entre eles, reconhecimento dos direitos da mulher e vitória contra nazismo
Por Aanchal Anand, no Mundo Alternativo
1 – Direitos da Mulher: Enquanto algumas ilhas haviam concedido para as mulheres o direito ao voto já no século XIX, a primeira grande mudança ocorreu no começo do século XX. No ano de 1917, somente quatro países (Austrália, Finlândia, Noruega e Dinamarca) haviam adotado o sufrágio feminino. A Revolução Russa de 1917, que defendeu a igualdade de direitos para todos, difundiu o temor de que as feministas encontrassem no comunismo um sistema mais atrativo, e puderam conspirar junto com os bolcheviques para importar a ideologia nos países ocidentais. A melhor forma de cortar a raiz semelhante ameaça era conceder as mulheres o direito ao voto. A Grã Bretanha e a Alemanha legalizaram em 1918, e os EUA em 1920, outros logo tomariam o mesmo caminho. A França foi a única potência que não reconheceria esse direito até 1944.
mujer en la urss
2 – Legislação Trabalhista: Isso é bastante óbvio. Contamos com uma semana trabalhista de 5 dias, férias pagas de 2 a 4 semanas, licença maternidade, assistência de saúde, além de equipamentos de segurança para os operários, etc… Pela pressão que exerceu o comunismo sobre o capitalismo. Nunca conseguimos ver a face humana do comunismo, mas graças a URSS, foi possível ter tido a noção do lado mais humanitário frente ao capitalismo.
3 – A Segunda Guerra Mundial e a reconstrução depois da vitória: A URSS desempenhou um papel fundamental na derrota da Alemanha nazista. Stalingrado é o famoso campo de batalha que conseguiu dar trégua na guerra relâmpago (“Blitzkrieg”) e mudou o desenvolvimento da guerra. A URSS sofreu a perca de 23,4 milhões de pessoas (mais que na Alemanha e mais de 26 vezes o número de mortes que sofreram os Estados Unidos e o Reino Unido juntos). Uma vez concluída a guerra, foi desenhado o Plano Marshall devido que os países aliados do Ocidente não queriam que a Europa fosse sucumbida pelo socialismo, com a velha desculpa de que os habitantes de cada país seriam submetidos pela “doutrina da fome e da desolação”. Contudo, o Plano foi desenvolvido somente sob a condição de que os comunistas fossem excluídos dos parlamentos dos países que recebiam ajuda. Claro “exemplo de democracia”.
4 – O caminho anti-colonial: Enquanto o imperialismo alimentava a maquinaria industrial e capitalista, a URSS defendia a causa das colônias exploradas. Estendeu sua ajuda aos países que lutavam pela sua libertação e aos países que recentemente haviam conseguido sua independência. As inclinações soviéticas pela luta libertadora na Índia não são um segredo para ninguém, para um país pobre que lutava para se manter em pé, a ideologia socialista resultava naturalmente atrativa.
5 – Descobrimentos científicos: Os primeiros soviéticos lançaram o primeiro satélite, logo enviaram o primeiro cachorro, o primeiro homem e a primeira mulher ao espaço. Também desenvolveram diversos desenhos televisivos. Para resumir, não havia um Tata Sky (sistema de difusão direta pelo satélite) senão fosse pela magia soviética. Além do mais, os soviéticos também tiveram o êxito de terem criado órgãos artificiais, o primeiro helicóptero, a xerografia e também o mais famoso e célebre fúsil AK-47.
MOMENTO HISTÓRICO!
Aqui estão apenas cinco coisas a agradecer a URSS, mas poderiam selecionar outras muitas coisas como a alfabetização universal, a luta contra o fanatismo religioso e nacional, a elevação do nível de vida da classe trabalhadora, o advento da arte e da cultura e vários outros exemplos.

sábado, junho 21, 2014

PORQUE É QUE OS PORTUGUESES DEVEM AMAR A GALIZA

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http://blog.lusofonias.net/?p=18283


PORQUE É QUE OS PORTUGUESES DEVEM AMAR A GALIZA

 UM POVO UMA FALA

PORQUE É QUE NÓS, PORTUGUES@S, DEVEMOS AMAR A GALI-ZA. (JOSÉ CHÃO DE LAMAS) SEXTA-FEIRA, 25.05.12


 
A primeira questão que, como portugueses, devemos colocar-nos, é se é possível, ou se algum dia teria sido possível, a existência de Portugal sem a existência da Galiza. Corria o século XIX, que entrava no seu último quartel, e num jornal do Porto, “O Primeiro de Janeiro”, era entrevistado o grande historiador Alexandre Herculano. O jornalista demorava-se em pormenores do que estava nas origens de Portugal, e o historiador respondeu-lhe: “Portugal é a criação do génio galego”.

Olhemos os seguintes factos:

1- Portugal não nasceu no ano 1143. Nasceu quando da queda do império romano no ventre do reino dos suevos, que criaram as condições para que a província da Gallaecia (com forte personalidade diferencial) evoluísse, juntamente com parte da Lusitânia, de modo claramente separado do resto peninsular. É neste reino que se produzem e funcionam os mecanismos que farão que a nossa língua portuguesa nasça do latim e seja estabelecida no noroeste peninsular no velho solar da Gallaecia, no seu esqueleto fundamental no período que vai dos séculos VI ao IX.

Aí já temos os primórdios da nossa actual língua e o nosso funcionamento como povo diferenciado na península e no mundo europeu. É suficiente olharmos todas as crónicas muçulmanas peninsulares ou documentos referentes à península, das longínquas terras europeias do Mar do Norte, e ali estamos nós, portugueses, trajados de galegos. Que Portugal então não se chamasse assim, pois chamando-se Galiza era já verdadeiro Portugal, tanto faz.Porventura quando nós, portugueses, ou galegos, ou galego-portugueses, estendíamos o reino para o Sul, não estávamos a fazer Portugal? O portuguesíssimo mosteiro de Lorvão(perto de Coimbra) fundávamo-lo no século IX e assim figura nas actas fundacionais “in finibus Galleciae”.


2 – Que é Portugal, o nome da cidade mais galeguíssima da Galiza, o Porto, a velha Portuscale romana, e mais tardePortucale (Portugale), a que foi reduzido o nome para que pudesse usufruir dele o estado inteiro? E quem eram os galegos, a tribo celta achada por Decimo Junio Bruto morando ali onde o Douro se mistura com o oceano, “em Portugal”, esses calecos do Douro deram o nome a todo o noroeste peninsular? Há algo mais português que o ser galego? E galego por antonomásia só o podem ser os habitantes do Porto. Aí estão as raízes. E eles, por serem do Portugale (Porto), são os mais verdadeiros portugueses.


3 – Nós, os portugueses, os que nos fazemos perguntas acerca destas coisas (só quem fizer as perguntas dará com as respostas; em saber perguntar, pesquisar, está o segredo da sabedoria e do conhecimento), pensamos que a Galiza é uma região espanhola que vêm caindo por cima de Portugal e na qual as pessoas falam um linguajar deturpado e feio como um espanhol com muitas palavras portuguesas, e onde as pessoas do povo entendem os portugueses e não têm essa atitude anti-portuguesa que se dá nos espanhóis quando o homem (ou mulher) português não é um iberista. Mas isso não é a Galiza, é somente uma parte da Galiza. A Galiza é na realidade grande parte de Portugal, de Santarém para cima, é aí que chegava o velho reino da Galiza. Haverá por acaso algo mais galego do que Braga, capital da Galiza romana, do reino suevo, da Igreja da Galiza? Lugo e Santiago sempre agiram por delegação do “verum caput” Braga, durante doze séculos a cabeça, e que por isso mesmo é ainda a cidade primaz de Portugal.
Nós, os portugueses, podemos dizer que, da Galiza, o seu cerne, a sua essência, está em Portugal, e que não temos medo de chamar Galiza a todo o Norte do nosso País, que as coisas são como são, por muito que pese aos espanhóis.


4- Portugal é a criação dos homens do Norte, eles deram-nos a língua (a sua alma colectiva essencial), eles puseram os topónimos e designaram a(s) terra(s), por isso temos os mesmos nomes do Cantábrico ao Tejo. Por isso depois da Galiza, vem a Beira (a velha Beira da Galiza), depois a Estremadura (a extrema do reino da Galiza), e ao sul do Tejo estava o Além-Tejo. Com certeza que, se os alentejanos houvessem posto os nomes, para eles os ‘alentejanos’ seriam os da Beira. Rompeu-se a Galiza no século XII e continuamos a ser galegos embora o nosso reino se chame Portugal. (Ao norte do Minho, acabaram caindo na órbita de Castela, ao sul levamos os nossos estandartes e a nossa língua pelo caminho de todos os mares). Quando os linguistas alemães e Carolina de Michäelis difundem a nossa literatura medieval, chamam à língua ‘galego-português’, isso não o faziam porque a língua não fosse português cem per cento, que o era; mas perante o facto de todos além e aquém Minho chamarem a sua língua ‘galego’. Na corte portuguesa de Lisboa à língua que se falava ainda não se dera o nome do reino, simplesmente chamava-se-lhe galego. E os doutos criaram o ‘galego-português’ como expressão, ao parecer-lhes mais simples que explicar à população que a língua portuguesa antes se chamava galega.


5- Nós, os portugueses, amando a Galiza, estamos a amar o próprio Portugal, estamos a mergulhar nas essências pátrias. Mas deu-se a queda das fronteiras, a Espanha está a invadir-nos todos os dias – e de que maneira. Não vai sendo hora de nós, portugueses, nos comprometermos firmemente na defesa da lusofonia no além Minho?

Nota sobre o/a autor/a:
José Chão de Lamas, patriota português, que tem a pátria verdadeira na sua língua, e a sua pátria pequena nos seus dois Portugal > Portugale (Porto) e Portugal.
Fonte:
» Grupo Portugueses Pela Galiza Lusófona

domingo, maio 25, 2014

Portugal diante da opção Jangada de Pedra

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http://outraspalavras.net/capa/portugal-diante-da-opcao-jangada-de-pedra/


Portugal diante da opção Jangada de Pedra

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Humilhado pelo centro de poder europeu, resta ao país escolher a aventura democrática que José Saramago previu. Haverá, para tanto, forças e vontade?
Por Boaventura de Sousa Santos | Imagem: Nuno Madeira, Mar Português
No período pós-25 de Abril de 1974, a mistificação política nunca atingiu os níveis que hoje atinge. Mistificação consiste em fazer alguém acreditar numa mentira. A mentira é que o processo da troika terminou com êxito, que Portugal tem hoje melhores condições para se desenvolver como país europeu e que a reforma do Estado proposta garante a criação de uma sociedade mais equitativa.
Que o sucesso da troika seja o outro lado da hecatombe social que se abate sobre os portugueses empobrecidos; que as novas condições de desenvolvimento sejam as típicas de um país subdesenvolvido (emigração, trabalho e velhice sem direitos) que tínhamos deixado de ser; que a reforma do Estado proposta seja aquela que os países latino-americanos rejeitaram nos últimos 15 anos precisamente para construir sociedades mais equitativas — nada disso é relevante para a mídia ou entra no discurso político. No momento em que o país vive um momento político idêntico ao do Verão quente de 1975, só que de sentido político oposto, o Partido Socialista (PS), sem a coragem de então, pede que seja tornado público o conteúdo da carta de intenções com que se concluem os trabalhos da troika. Não se trata de enfrentar a mentira com a verdade, mas antes de certificar que a mentira é verdadeira. Com razão, o primeiro ministro Passos Coelho responde que a carta não contém nada de novo nem de extraordinário. Basta consultar aletter of intent da Irlanda de 29 de Novembro de 2013. A carta é a expressão do compromisso do país a aceitar como verdades as mentiras que acima referi e de agir em conformidade nas próximas décadas.
Para entender a força da mistificação em curso é preciso situar o atual momento no contexto histórico mais amplo. Talvez por durante séculos ser uma entidade frágil face ao Império Otomano, a Europa sempre foi muito ciosa dos seus centros, que idolatrou, e desdenhosa das periferias, que demonizou. No início do seculo XIX, o chanceler da Áustria, Metternich, proferiu uma frase famosa — “Asien beginnt an der Landstrasse” — a Ásia começa na Landstrasse, que era então uma rua dos subúrbios de Viena. Aí viviam os emigrantes dos Balcãs que, obviamente para os austríacos, não eram europeus.
Para entender isto é necessário recuar alguns séculos mais e observar a relativa rigidez histórica das relações entre centros e periferias dentro da Europa. Um centro mediterrânico que não durou muito mais do que século e meio (século XVI e metade do século XVII) foi suplantado por um outro que acabou durando muito mais e tendo um muito maior impacto estrutural. Este último foi um centro com raízes na Liga Hanseática dos séculos XII e XIII, um centro virado para o Atlântico Norte, para o mar do Norte e o Báltico, e englobando as cidades do Norte da Itália, França, Países Baixos e, no século XIX, Alemanha. Um centro sempre rodeado de periferias: no Norte, os países nórdicos; no Sul, a Península Ibérica; no Sudeste, os Balcãs; no Oriente, territórios considerados feudais (o Império Otomano e a Rússia semieuropeizada desde Pedro, o Grande). Ao fim de cinco séculos, só as periferias do Norte tiveram acesso ao Centro, o mesmo Centro que é hoje o coração da União Europeia.
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Este dualismo está mais arraigado na cultura europeia do que se poderia pensar e pode bem explicar algumas das dificuldades no modo como está a ser abordada a atual crise. O que parece ser só um problema financeiro e econômico é também um problema cultural e sócio-psicológico. Um exemplo poderá ajudar. Entre o século XV e o século XIX são muitos os relatos de viajantes e comerciantes do Norte da Europa sobre os portugueses e espanhóis e as condições de vida prevalecentes no Sul da Europa. O mais surpreendente nesses relatos é que atribuem aos portugueses e espanhóis as mesmas características que, na mesma época, os colonizadores portugueses e espanhóis atribuíam aos povos “primitivos” e “selvagens” das suas colônias. Eis algumas citações do século XVIII: “O português é mandrião, nada industrioso, não aproveita as riquezas da sua terra, nem sabe fazer vender as das suas colônias”; “os portugueses são altos, bem-parecidos e robustos, na sua maior parte muito morenos, o que resulta do clima e ainda mais do cruzamento com negros”. Ou seja, a miscigenação, que os portugueses consideravam o sinal benevolente da sua colonização, virava-se contra eles por via do preconceito colonial e racista. Quando hoje lemos na imprensa alemã notícias e comentários sobre os países do Sul da Europa, é fácil verificar que o preconceito colonial e racista ainda está bem presente.
No caso específico de Portugal, o seu estatuto de país periférico na Europa teve até agora três fases. O momento europeu de rejeição (1890-1930) foi concomitante com a partilha de África no final do século XIX (Conferência de Berlim, 1884-85, o Ultimato Inglês, em 1890), tendo pretendido tornar claro que Portugal era um país sem qualquer poder para influenciar o momento imperialista da Europa, mesmo sendo detentor do maior e mais antigo império colonial. Portugal era o centro de um império integrado noutro muito maior, de que o Império Português era apenas uma periferia. O segundo momento pareceu ter um sinal contrário. Ocorreu no final do século XX, tendo como precedente a Revolução do 25 de Abril de 1974 e, como início, a adesão à então Comunidade Econômica Europeia em 1986, hoje União Europeia (1974/1986-2011). Foi um momento exaltante para as elites portuguesas e para os portugueses que nelas confiaram.
Portugal tinha sido finalmente aceito pela Europa depois de séculos de rejeição e agora, em pleno fim da história, era só esperar pela convergência total com o Centro desenvolvido da Europa. E o movimento de convergência pareceu ser real até 2000. Digo “pareceu”, porque dados fiáveis do Deutsche Bank (Discussion Paper N.º 28/2013) mostram que nos últimos 40 anos não houve nenhuma significativa convergência de rendimentos no interior da UE, ainda que sejam identificáveis algumas variações. Depois de 2000, a ignorância militante dos nossos governantes e a insidiosa penetração do neoliberalismo no coração das instituições europeias fizeram com que as correntes subterrâneas da história voltassem à superfície.
O terceiro momento europeu, iniciado com a vinda da troika e concluído com a sua saída (2011-Maio de 2013), pareceu ser de início um novo momento europeu de rejeição disfarçada de aceitação, mas acabou por ser o momento de rendição com prisão preventiva e saídas precárias. Do Deutsche Bank ao FMI, os relatórios são unânimes em mostrar que Portugal, longe de convergir, vai continuar a divergir da Europa desenvolvida. Ou seja, o objetivo da integração na UE fracassou, um fracasso que, com doses brutais de mistificação, se apresenta como êxito. Depois da Guerra do Vietnã, nunca uma derrota se disfarçou tão bem de vitória. Dado o seu novo estatuto, Portugal, para não estorvar, tem de ser mantido dentro, mas do lado de fora, e vigiado.
Portugal sai da Europa seguro pela trela curta do euro e do tratado orçamentário. Não pode ir muito longe. Arranjará um lugarzito na soleira da porta da Europa, um país sem-abrigo por onde passarão regularmente as carrinhos da sopa humanitária. É digno de nós, como portugueses e como europeus, que não haja alternativas a este estado das coisas? Claro que não. Estará o atual sistema político-partidário em condições de explorar essas alternativas? Claro que não. Como em democracia há sempre alternativas, o regime atual é democrático? Claro que não. Haverá então alternativas democráticas, quer a nível nacional, quer a nível europeu, a este regime autoritário? Claro que sim. Para isso, é necessário que a jangada de pedra, tão premonitória, se afaste o suficiente para romper com a trela ou para forçar que ela seja refeita de modo a dar mais margem de liberdade ao movimento da jangada. Não esqueçamos que os cães são os melhores amigos dos homens. O cão de Saramago, Constante, no momento crucial de ter de decidir, optou pela Península Ibérica.

sábado, maio 24, 2014

A saída limpa...da Europa

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/A-saida-limpa-da-Europa/30974


Colunista
21/05/2014 - Copyleft 
Boaventura de Sousa Santos

A saída limpa...da Europa

Portugal arranjará um lugarzito na soleira da porta da Europa, um país sem-abrigo por onde passarão regularmente os carrinhos da sopa humanitária.




No período pós-25 de Abril de 1974, a mistificação política nunca atingiu os níveis que hoje atinge. Mistificação consiste em fazer alguém acreditar numa mentira. A mentira é que  o processo da troika terminou com êxito, que Portugal tem hoje melhores condições para se desenvolver como país europeu e que a reforma do estado proposta garante a criação de uma sociedade mais equitativa. Que o sucesso da troika seja o outro lado da hecatombe social que se abate sobre os portugueses empobrecidos;  que as novas condições de desenvolvimento sejam as típicas de um país subdesenvolvido (emigração, trabalho e velhice sem direitos,) que tínhamos deixado de ser; que a reforma do estado proposta seja aquela que os países latino-americanos rejeitaram nos últimos quinze anos precisamente para construir sociedades mais equitativas –  nada disso é relevante para os média ou entra no discurso político.
 
No momento em que o país vive um momento político idêntico ao do Verão quente de 1975, só que de sentido político oposto, o Partido Socialista,  sem a coragem de então (será que a esquerda só tem coragem contra a esquerda?), pede que seja tornado público o conteúdo da carta de intenções com que se concluem os trabalhos da troika. Não se trata de enfrentar a mentira com a verdade mas antes de certificar que a mentira é verdadeira. Com razão, Passos Coelho responde que a carta não contém nada de novo nem de extraordinário. Basta consultar a letter of intent da Irlanda de 29 de Novembro de 2013. A carta é a expressão do  compromisso do país a aceitar como verdades as mentiras que acima referi e de agir em conformidade nas próximas décadas.

Para entender a força da mistificação em curso é preciso situar o atual momento no contexto histórico mais amplo. Talvez por durante séculos ser uma entidade frágil face ao Imperio Otomano, a Europa sempre foi muito ciosa dos seus centros, que idolatrou, e desdenhosa das periferias, que demonizou. No início do seculo XIX, o Chanceler da Áustria, Metternich, proferiu uma frase famosa – "Asien beginnt an der Landstrasse" –  a Ásia começa na Landstrasse,  que era então uma rua dos subúrbios de Viena. Aí viviam os emigrantes dos Balcãs que, obviamente para os austríacos, não eram europeus. Para entender isto é  necessário recuar alguns séculos mais e observar a relativa rigidez histórica das relações entre centros e periferias dentro da Europa. Um centro mediterrânico que não durou muito mais do que século e meio  (século XVI e metade do século XVII) foi suplantado por um outro que acabou durando muito mais e tendo um muito maior impacto estrutural.
 
Este último foi um centro com raízes na Liga Hanseática dos séculos XII e XIII, um centro virado para o Atlântico Norte, para o Mar do Norte e o Báltico, e englobando as cidades do norte da Itália, França, Países Baixos e, no século XIX, Alemanha.
 
Um centro sempre rodeado de periferias: no norte, os países nórdicos; no sul, a península ibérica; no sudeste, os Balcãs; no oriente, territórios considerados feudais (o império otomano e a Rússia semi-europeizada desde Pedro o Grande).
 
Ao fim de cinco séculos, só as periferias do norte tiveram acesso ao centro, o mesmo centro que é hoje o coração da União Europeia.

Este dualismo está mais arreigado na cultura europeia do que se poderia pensar e pode bem explicar algumas das dificuldades no modo como está a ser abordada a actual crise. O que parece ser só um problema financeiro e económico é também um problema cultural e sócio-psicológico. Um exemplo poderá ajudar. Entre o seculo XV e o seculo XIX são muitos os relatos de viajantes e comerciantes do Norte da Europa sobre os portugueses e espanhóis e as condições de vida prevalecentes no Sul da Europa. O mais surpreendente nesses relatos é que atribuem aos portugueses e espanhóis as mesmas características que, na mesma época, os colonizadores portugueses e espanhóis atribuíam  aos povos "primitivos" e "selvagens" das suas colónias. Eis algumas citações do século XVIII: “O português é mandrião, nada industrioso, não aproveita as riquezas da sua terra, nem sabe fazer vender as das suas colónias”; “os portugueses são altos, bem parecidos e robustos, na sua maior parte muito morenos, o que resulta do clima e ainda mais do cruzamento com negros".  Ou seja, a miscigenação, que os portugueses consideravam o sinal benevolente da sua colonização, virava-se contra eles por via do preconceito colonial e racista. Quando hoje lemos na imprensa alemã notícias e comentários sobre os países do sul da Europa é fácil verificar que o preconceito colonial e racista ainda está bem presente.

No caso específico de Portugal, o seu estatuto de país periférico na Europa teve até agora três fases. O momento europeu de rejeição (1890-1930) foi concomitante com a partilha de África no final do século XIX (Conferência de Berlim, 1884-85, o Ultimato Inglês, em 1890), pretendido tornar claro que Portugal era um país sem qualquer poder para influenciar o momento imperialista da Europa, mesmo sendo detentor do maior e mais antigo império colonial. Portugal era o centro de um império integrado noutro muito maior de que o império português era apenas uma periferia. O segundo momento pareceu ter um sinal contrário. Ocorreu no final do século XX, tendo como precedente a Revolução do 25 de Abril de 1974 e, como início, a adesão à então Comunidade Económica Europeia em 1986, hoje União Europeia  (1974/1986-2011). Foi um momento exaltante para as elites portuguesas e para os portugueses que nelas confiaram. Portugal tinha sido finalmente aceite pela Europa depois de séculos de rejeição e agora, em pleno fim da história, era só esperar pela convergência total com o centro desenvolvido da Europa. E o movimento de convergência pareceu ser real até 2000. Digo “pareceu”, porque dados fiáveis do Deutsche Bank (Discussion Paper No 28/2013) mostram que nos últimos quarenta anos não houve nenhuma significativa convergência de rendimentos no interior da UE, ainda que sejam identificáveis algumas variações.  
 
Depois de 2000, a ignorância militante dos nossos governantes e a insidiosa penetração do neoliberalismo no coração das instituições europeias fizeram com que as correntes subterrâneas da história voltassem à superfície. O terceiro momento europeu, iniciado com a vinda da troika e concluído com a sua saída (2011-Maio de 2013), pareceu ser de início um novo  momento europeu de rejeição disfarçada de aceitação, mas acabou por ser o momento de rendição com prisão preventiva e saídas precárias. Do Deutsche Bank ao FMI, os relatórios são unânimes em mostrar que Portugal, longe de convergir, vai continuar a divergir da Europa desenvolvida. Ou seja, o objectivo da integração na UE fracassou, um fracasso que, com doses brutais de mistificação, se apresenta como êxito. Depois da Guerra do Vietnã, nunca uma derrota  se disfarçou tão bem de vitória. Dado o seu novo estatuto, Portugal, para não estorvar, tem de ser mantido dentro, mas do lado de fora, e vigiado. 

Portugal sai da Europa seguro pela trela curta do euro e do tratado orçamental. Não pode ir muito longe. Arranjará um lugarzito na soleira da porta da Europa, um país sem-abrigo por onde passarão regularmente os carrinhos da sopa humanitária. É digno de nós, como portugueses e como europeus que não haja alternativas a este estado de coisas? Claro que não. Estará o atual sistema político-partidário em condições de explorar essas alternativas? Claro que não. Como em democracia há sempre alternativas, o regime atual é democrático? Claro que não. Haverá então alternativas democráticas, quer a nível nacional quer a nível europeu, a este regime autoritário? Claro que sim.
 
Para isso, é necessário que a jangada de pedra , tão premonitória, se afaste o suficiente para romper com a trela ou para forçar que ela seja refeita de modo a dar mais margem de liberdade ao movimento da jangada. Não esqueçamos que os cães são os melhores amigos dos homens. O cão de Saramago, Constante, no momento crucial de ter de decidir, optou pela península ibérica.