terça-feira, abril 15, 2014

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 3)

o eco
http://www.oeco.org.br/olhar-naturalista/28214-monte-roraima-caminhadas-observacao-de-aves-e-bolivarianos-em-crise-parte-3

Por aí com Darwin e uma Canon. Meditações, viagens, opiniões e incorreções políticas de Fábio Olmos, um biólogo viajante que acha que quanto mais você sabe, mais você vê.

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 3)
Fábio Olmos - 14/04/14

Figura-31O Maverick, ponto culminante do Roraima, visto de nosso hotel. Foto: Rita Souza
Dormimos muito bem sob um friozinho de 9 graus e um belo dia nos saudou. Novamente subimos o Maverick, agora sob um tremendo vento, para fazer algumas das fotos obrigatórias do Roraima antes do café da manhã e partir para uma longa caminhada pelo platô. Antes de sairmos fomos visitados por tico-ticos, fura-flores e um beija-flor-violeta Colibri coruscans, outra novidade para nosso grupo.
Partimos rumo ao vale do Arabopó, um dos rios que nascem no platô e despencam lá de cima em fendas que cortam o interior da montanha. Durante a caminhada era difícil escolher qual formação de rochas era mais interessante e você quase acredita nas histórias de que as pedras mudam de posição durante a noite. Lógico, não há nada sobrenatural envolvido, apenas o poder erosivo do vento e da água, mediados por biofilmes, sobre camadas de arenito com resistências diversas. O que não é menos impressionante.
Além das rochas a vegetação é uma atração à parte. As espécies mais comuns são as Stegolepis guianensis, mas há várias orquídeas, algumas bromélias e muitas plantas carnívoras. Onde o solo é mais profundo, como em alguns vales, crescem arvoretas Bonnetia roraimae, que também ocorrem na floresta nebular abaixo.
As plantas tendem a crescer em "ilhas" de sedimento cercadas por muita rocha nua e o acúmulo gradual de matéria orgânica e partículas minerais faz com que essas cresçam e possam sustentar espécies de maior porte. As depressões na rocha, por sua vez, acumulam muita água, formando poças e piscinas onde crescem cianobactérias que formam melequentos tapetes roxos. Imaginamos se estas melecas roxas poderiam evoluir para algo como o Blob.
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Essa é uma caminhada longa e cansativa (fizemos 17 km neste dia) e ao chegarmos ao Arabopó encontramos o vale inundado, o que nos fez decidir mudar de rota e ir para o Fosso. Essa é uma cavidade inundada que abre para o exterior através de um poço vertical. Seu interior mostra colunas que suportam o teto e espeleotemas formados com mediação do biofilme que encrusta as rochas, um bom exemplo de como biologia e geologia se combinam.
Nossa equipe de apoio já havia providenciado um almoço, que nos aguardava quando chegamos, e após um bom banho e explorar os arredores começamos a longa caminhada de volta ao nosso hotel.
Mais aves
"o grande momento foi observar dezenas de guácharosSteatornis caripensisrepousando nas prateleiras ao longo do paredão do canyon que é a fenda (...)"
No dia seguinte, que começou com um sol glorioso e céus limpos, optamos por uma abordagem mais ornitológica e após o café da manhã fomos diretamente ao "hotel" Guácharo, onde uma ave desta espécie havia tentado nidificar. Só encontramos mais turistas acampados ali, então decidimos ir à famosa Fenda dos Guácharos (ou dos "demônios voadores", como querem alguns) para observar estas aves.
É uma caminhada mais curta, mas não com geologia não menos dramática, que rendeu visões rápidas de duas espécies adicionais de beija-flores. Mas o grande momento foi observar dezenas de guácharos Steatornis caripensis repousando nas prateleiras ao longo do paredão do canyon que é a fenda, um dos pontos altos da viagem para nosso grupo de observadores de aves.
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Os guácharos são aves noturnas que se alimentam de frutos, especialmente de palmeiras, e formam colônias em cavernas e fendas profundas abrigadas do sol. Eles têm um sistema de ecolocação similar aos morcegos e sua voz faz jus à história dos demônios voadores. Os do Monte Roraima devem voar boas distâncias até as áreas de floresta para encontrar seu alimento.
Banho gelado
Da Fenda retraçamos o caminho até a Praça Central e dali até as Jacuzzis, um conjunto de piscinas naturais que é uma das atrações mais famosas do Roraima. No caminho passamos por um afloramento de cristais de rocha, formados por intrusões vulcânicas que penetraram no arenito. Muito mais duros do que este, os cristais acabam acumulando-se na superfície conforme o arenito é erodido e vira areia.
As Jacuzzi foram uma parada bem-vinda para um banho gelado (obrigatório) antes de retornamos para o hotel, almoçar e iniciar a descida para o acampamento Base, uma decisão que tomamos para evitar ter que caminhar do topo do Roraima até o Tek no mesmo dia, o que é bem puxado, e termos mais tempo para ir atrás de mais aves. Um gavião-de-rabo-branco Geranoaetus albicaudatus voava sobre o platô quando deixamos o acampamento, uma espécie não listada para o Monte Roraima mas frequente na Gran Sabana.
Figura-44As famosas Jaccuzzi. Foto: Fábio Olmos
O bom tempo ajudou durante este dia e após almoçar e guardar nossas coisas caminhamos de volta ao acampamento Base sem precisar nos encharcar com chuva ou sob as Lágrimas e com visão perfeita do paredão do Roraima. Nossa equipe de apoio desceu até o acampamento com humilhante rapidez e já víamos nossas barracas sendo armadas lá embaixo antes de chegarmos na metade do caminho.
Nossa lerdeza foi parcialmente causada pelas paradas para fotografar a paisagem e observar aves ao longo do caminho, onde reencontramos vários dos endêmicos, como o anambé, o fura-flor, o barranqueiro, a saíra e o asa-de-sabre, além do beija-flor-violeta. O que confirmou ser o trecho entre o Base e o paredão da montanha o melhor, em toda a caminhada, para observar aves.
De volta ao Base
"(...)próximos ao acampamento conseguimos atrair mais um bicho especial que foi devidamente fotografado, o ferreirinho-ferrugem Poecilotriccus russatus. Mais uma alegria para nosso grupo."
 
Chegamos no Base no final da tarde, ainda a tempo de observar as revoadas de Nanoppsittacas e novamente ficarmos frustrados por eles voarem tão alto e fotos serem impossíveis. Bom, ganha-se umas, perde-se outras.
O dia 14 de fevereiro foi nosso penúltimo dia e começou com uma manhã dedicada a procurar espécies que ainda não havíamos observado. Encontramos vários das espécies já conhecidas ao redor do acampamento Base, incluindo penetras vindos da savana mais abaixo como o sanhaçu-de-coleira Schistochlamys melanopis e a saíra-amarelaTangara cayana.
Tentamos atrair espécies que havíamos apenas ouvido e "pescamos" tocando as vozes de outras que poderiam ocorrer ali, mas não havíamos detectado, como um tucaninho verde que também é endêmico dali. Não tivemos sorte com eles, mas bem próximos ao acampamento conseguimos atrair mais um bicho especial que foi devidamente fotografado, o ferreirinho-ferrugem Poecilotriccus russatus. Mais uma alegria para nosso grupo.
Antes de partirmos ainda observamos duas espécies de andorinhões, um taperuçu-dos-tepuis Streptoprocne phelpsi voando em frente ao paredão e, na direção do Kukenan, dezenas de andorinhões-montanos Aeronautes montivagus, outra espécie compartilhada com os Andes e novidade para nosso grupo.
Rumo ao Tek
Figura-53Atravessando o Kukenan rumo ao acampamento no rio Tek. Foto: Fábio Olmos
"Cruzamos com muitos turistas, desde adolescentes a vovôs usando bengalas, conversando em alemão, francês, espanhol e eslovaco. Turistas americanos não são comuns por não serem bem-vindos"
 
Partimos rumo ao rio Tek, cada um no seu ritmo. Cruzamos com muitos turistas, desde adolescentes a vovôs usando bengalas, conversando em alemão, francês, espanhol e eslovaco. Turistas americanos não são comuns por não serem bem-vindos, embora os americanos sejam os maiores compradores do petróleo venezuelano.
Caminhar pelo parque me fez pensar em quantos secretários e ministros do meio ambiente brasileiros, para não dizer presidentes, foram ou são usuários das Unidades de Conservação? Quantos destes personagens, que tem nas mãos o destino de áreas insubstituíveis, são andarilhos, fotógrafos da natureza, montanhistas, observadores de aves, mergulhadores ou apenas frequentam estes espaços para relaxar?
Figura-54Nem só turistas usam o acampamento do rio Tek....
Isso para não dizer, quantos têm formação mínima sobre biodiversidade e ecossistemas? Para entender que um bagre do rio Madeira é diferente do bagre do pesque-pague, e porque uma barragem naquele rio é uma ideia ruim sem que seja necessária uma enchente para demonstrar uma das razões.
Acho que muitos poucos, o que explica parte do barbarismo do Brasil.
Fizemos uma parada para almoçar no rio Kukenan, logicamente com um mergulho no rio para esfriar e também desafiar os mosquitos-pólvora que queriam almoçar nosso sangue. Um turista eslovaco estava acampado ali por ter sido picado por uma aranha e não conseguir acompanhar seu grupo. Muito simpático, conversou com nosso grupo por um tempo e nos introduziu à bebida típica de seu país, a slivovitsa, um ótimo aguardente (ou melhor,palinka) feito de suco de ameixas. Eu amo a globalização.
Desejamos sorte ao nosso amigo e pouco depois chegamos ao acampamento do rio Tek, onde celebramos nossos lifers e a visita à montanha com latinhas de cerveja gelada e um generoso jantar. Grupos de turistas, incluindo muitos brasileiros, lotavam o lugar e também celebravam sua chegada ali.
Partimos cedo na manhã de 16 de fevereiro para vencer os 15 km até Paraitepui a tempo de visitar um outro ponto interessante que vimos no caminho desde Santa Elena e evitar chegar muito tarde em Boa Vista.
Figura-55Rumo a Paraitepui. É fogo...
Balanço
"o Parque Nacional Canaima existe há mais de 50 anos e é uma das grandes atrações turísticas da região, mas também é um parque com muitos problemas. As trilhas não estão preparadas para os usuários e degradam ambientes frágeis"
 
Minha chegada em Paraiepui depois dos 15 km desde o rio Tek teve o bônus de encontrar duas espécies de savanas, a corruíra-do-campoCistothorus platensis e o maxalagagá Micropygia schomburgkiicantando junto à vila. Depois de uma merecida bebida gelada demos baixa no livro de registros do parque antes de partirmos.
Como eu disse o Parque Nacional Canaima existe há mais de 50 anos e é uma das grandes atrações turísticas da região, mas também é um parque com muitos problemas. As trilhas não estão preparadas para os usuários e degradam ambientes frágeis como as turfeiras, além de erodir as encostas do Monte Roraima. É evidente que florestas continuam ser perdidas para o fogo e a agricultura e não vimos nenhum mamífero exceto cães domésticos. Faltam equipamentos como latrinas, mesmo simples arboloos que poderiam ser usados para reflorestar o entorno dos acampamentos .
Ignorando a lei que diz que Unidades de Conservação são um excelente indicador da eficiência de um governo, eu esperava mais de um país que já se orgulhou de ter um dos melhores sistemas de áreas protegidas na América Latina e ser revolucionário. O Monte Roraima merece mais cuidado.
Kako Paru
Figura-56Bônus geológico: Kako Paru, um rio que corre sobre um afloramento de jaspe vermelho. Foto: Fábio Olmos
"Este é um riacho, com talvez 10 m de largura, que corre e forma cachoeiras sobre um afloramento de jaspe vermelho, algo único no mundo."
 
A caminho de Santa Elena paramos no nosso bônus geológico, a cachoeira de Kako Paru, também no parque nacional. Este é um riacho, com talvez 10 m de largura, que corre e forma cachoeiras sobre um afloramento de jaspe vermelho, algo único no mundo. O jaspe é uma pedra semipreciosa formada em sedimentos ricos em sílica cozidos por fontes hidrotermais. Uma herança da atividade vulcânica que já existiu ali.
Filas, câmbio pior e notícias de conflitos
"Após nova parada para trocar os bolívares que sobraram (já desvalorizados na taxa de 1 para 32), fizemos boa parte da viagem rumo a Boa Vista no escuro. Isso mostrou a extensão dos incêndios que queimavam áreas enormes no norte do estado."
 
Em Santa Elena de Uraien encontramos filas quilométricas nos postos de combustível, soldados nas estradas e nervosismo. As notícias eram de que manifestações em outras partes do país haviam sido reprimidas e pessoas mortas pela polícia, ou que haviam tentado um golpe de estado. Paradas em lojas que supostamente teriam boas ofertas para turistas renderam prateleiras pouco abastecidas.
Após nova parada para trocar os bolívares que sobraram (já desvalorizados na taxa de 1 para 32), fizemos boa parte da viagem rumo a Boa Vista no escuro. Isso mostrou a extensão dos incêndios que queimavam áreas enormes no norte do estado. Nunca ficamos fora da vista de algum fogo e uma linha com pelo menos 3 km seguia paralela à estrada e queimava o lavrado e morros na Terra Indígena São Marcos. A piromania humana não perde uma chance de se manifestar.
Retornamos para casa em um voo noturno e logo procurei notícias sobre o que acontecia na Venezuela. Soubemos então que estudantes que perceberam que seu futuro foi roubado e gente comum cansada das filas, da falta de produtos básicos, da inflação absurda e da violência endêmica estavam nas ruas protestando contra um governo que não deixou outras opções para vozes discordantes.
Também vi como os pequenos stalins daqui manifestam seu apoio aos autoritários de lá e tentam confundir sobre quem são os fascistas nessa história.
Espero que a Venezuela saia desta confusão da forma mais indolor, e que nós, por aqui, aprendamos algo com o que acontece com nossos vizinhos. Democracia de verdade não é algo fácil e leva tempo para construir, mas as opções são muito piores.
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sábado, abril 12, 2014

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 2)

o eco
http://www.oeco.org.br/olhar-naturalista/28198-monte-roraima-caminhadas-observacao-de-aves-e-bolivarianos-em-crise-parte-2
Por aí com Darwin e uma Canon. Meditações, viagens, opiniões e incorreções políticas de Fábio Olmos, um biólogo viajante que acha que quanto mais você sabe, mais você vê.

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 2)
Fábio Olmos - 10/04/14

Figura-16O paredão do Roraima, 400 m de rocha nua. Fotos: Fábio Olmos
Partimos cedo, atravessando o rio Tek e logo depois o Kukenan, com pausa para observar aves (um par de arirambas-pretas Brachygalba lugubris deu um show) e um banho de rio antes de continuar a caminhada de 9 km até o Acampamento Base do Roraima. Este é um trecho em aclive, dos 1.100 m do rio Tek para os 1.850 m do Base, e cruza campos limpos, o ocasional capão de mata e algumas turfeiras.
Estas são áreas de vegetação herbácea bem particular que cresce sobre solo orgânico saturado de água. Estes são ambientes bem frágeis onde ocorrem plantas endêmicas como as Stegolepis guianensis e as carnívorasUtricularia humboldtii e Brocchinia reducta (sim, há bromélias carnívoras). Infelizmente as trilhas do parque não têm passarelas ou pontes e as turfeiras sofrem muito com o pisoteio.
Na parte final da caminhada, já alertados pelo Roraima estar coberto por nuvens, começou a chover e chegamos ao acampamento úmidos e cansados. O Base está no que já foi floresta, mas hoje está cercado por arbustos, samambaias e uma ou outra árvore, que se tornam mais densas em direção ao paredão do Roraima. Apesar disso, esquecemos o inconveniente da chuva e da caminhada, logo que chegamos, ao ver vários sabiás-de-cabeça-preta Turdus olivater que procuravam comida em meio às barracas. Essa é uma espécie dos Andes da Colombia e Venezuela que tem uma subespécie no Pantepui, única região onde ocorre no Brasil. Outras espécies mostram o mesmo padrão.
Nossa equipe de suporte havia se instalado fazia tempo em um barracão similar aos do Tek e foi muito eficiente em cuidar de nossas barracas e preparar um muito bem servido e muito bem vindo almoço. De nosso abrigo, os fotógrafos do grupo eram torturados ao ver aves interessantes nos ramos das árvores próximas sem poder sair por causa da chuva. Outros grupos, incluindo brasileiros, venezuelanos, russos e franceses usavam abrigos similares nos arredores.
Avistamentos
Figura-20Um anambé-de-whitelyi Pipreola whitelyi macho. Encontrar este endemismo dos tepuis foi um ponto alto da viagem.
"Ao tocar a gravação notamos um movimento nas árvores e logo todo o grupo vociferava expletivas e furiosamente tirava fotos de um espetacular casal de anambés-de-whitelyPipreola whitelyi, uma das espécies que mais desejávamos."
A chuva deu uma trégua no fim da tarde e pudemos ir atrás dos bichos. Rapidamente encontramos três endemismos dos tepuis, os simpáticos corruíra-do-tepui Troglodytes rufulus, tico-tico-do-tepui Atlapetes personatus e mariquita-de-cabeça-parda Myioborus castaneocapilla, que fizeram a todos esquecer a lama, as roupas molhadas e os joelhos doloridos.
Quando começou a escurecer ouvimos vozes periquíticas sobre nossas cabeças e logo detectamos bandos com dezenas de periquitos-dos-tepuis Nanopsittaca panychlora que chegavam da Gran Sabana para dormir em cavidades no paredão do Roraima, lá em cima. Os paniquetes partem todas as manhãs de uma altitude de pelo menos 2.500 m e vão procurar comida a 1.100-1.700 m, retornando à tarde. Veríamos seu trânsito todos os dias que passamos no Base.
Fomos dormir cansados, mas sorrindo de orelha a orelha.
De madrugada acordei com o estranhíssimo som feito por narcejões Gallinago undulata (ouça aqui) que voavam ao redor do acampamento. Logicamente lembrei do enredo em Up! e na possibilidade usar chocolate para atrair um Kevin.
Levantamos logo após clarear e antes do café da manhã fomos explorar os arredores do acampamento. Como na tarde anterior rapidamente encontramos um endemismo, a guaracava-dos-tepuis Elaenia dayi (sim, falta imaginação nesses nomes) e estávamos fotografando a dita quando ouvimos uma voz que pareceu familiar.
Ao tocar a gravação notamos um movimento nas árvores e logo todo o grupo vociferava expletivas e furiosamente tirava fotos de um espetacular casal de anambés-de-whitely Pipreola whitelyi, uma das espécies que mais desejávamos. A alegria foi complementada quando vimos nosso primeiro fura-flor-grande Diglossa major, outra especialidade que depois se mostrou uma das aves mais comuns.
Degustamos o café da manhã alegríssimos com o bom começo. Esse dia foi dedicado a observar aves entre o Base e o paredão do Roraima, uma caminhada de meros 2 km, se tanto, mas com inclinações de 75 graus em alguns pontos. Ou seja, bird-watching aeróbico com modelagem de pernas e glúteos.
O exercício valeu a pena. A floresta remanescente naquela área da base do Roraima tem poucas árvores de grande porte e muitos trechos que lembram as florestas nebulares da crista da Serra do Mar, e aves não pareciam muito abundantes. Mas aos poucos fomos registrando nossos alvos, alguns apenas ouvidos, como o torom-de-peito-pardo Myrmothera simplex, outros vistos, mas sem chance de fotos, como o flautista-do-tepuiMicrocerculus ustulatus, que faz jus ao nome e outras espécies que foram mais cooperativas e deram shows, como o joão-do-tepui Cranioleuca demissa, o alegrinho-de-garganta-branca Mecocerculus leucophrys, a choca-de-roraima Thamnophilus insignis, o barranqueiro-de-roraima Automolus roraimae, o asa-de-sabre-canelaCampylopterus hyperythrus, a saíra-de-cabeça-preta Tangara argentea e a patativa-da-amazônia Catamenia homochroa.
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Chegamos ao paredão do Roraima no meio da tarde. Ali, 400 m de rocha vertical te desafiam a escalá-los, e nossa prestativa equipe de suporte já nos esperava com o almoço pronto junto a uma cachoeira que nascia de dentro da rocha. Serviço 5 estrelas.
Após encher o tanque avançamos um pouco mais antes de decidir retornar e, exatamente onde havíamos almoçado, encontramos uma das espécies mais desejadas, um joão-de-roraima Roraimia adusta, o único gênero de ave restrito ao Pantepui. Este deu um show, intrigado com o play-back, e ainda atraiu várias outras aves que estavam próximas.
Chegamos ao Base no final da tarde, aproveitando o resto do dia para observar algumas espécies mais comuns, na maioria bichos da savana lá embaixo, que aparecem na área queimada ao redor do Base e eu aproveitei para tomar um bom banho noturno na cachoeira próxima. Nem preciso dizer que foi um bom dia.
Em 11 de fevereiro, saímos às 7:00 para subir os 4,5 km entre o Base e o topo do Roraima, um desnível de uns 900 m. Como eu disse há trechos com inclinação de 75 graus e a trilha, que não é mantida, em muitos trechos é uma voçoroca. Subimos cada um no seu ritmo, acompanhados pelos guias, enquanto a equipe de apoio disparava rumo a nosso próximo acampamento. O preparo físico desse pessoal é impressionante.
Sempre olhando o que voava ao longo da trilha fizemos algumas paradas para olhar e respirar, uma delas para degustar um ótimo abacaxi, cortesia da equipe de apoio. No caminho cruzamos com grupos de brasileiros, venezuelanos, poloneses e outros que desciam do alto da montanha, onde havia chovido impiedosamente desde o dia anterior. Alguns destes grupos que haviam optado por empresas mais baratas e pacotes de curta duração haviam subido no dia anterior e já retornavam. Não me pareceu que aproveitaram como podiam.
A trilha não segue um aclive constante, mas há uma forte descida em um trecho antes da subida que passa pelas Lágrimas, as cachoeiras que caem do alto do Roraima sobre a rampa final que dá no platô. As chuvas haviam transformado as Lágrimas em uma choradeira pior que a que seria vista se o Brasil for excluído da copa do mundo pela Argentina (eu não choraria, pelo contrário) e junto do riacho alimentado por elas encontramos nosso primeiro sapinho-do-roraima Oreophrynella quelchii, talvez arrastado pela água lá do alto. Já falarei sobre este bicho.
A montanha realmente nos torturou e ficamos totalmente encharcados pela inevitável passagem sob a cachoeira, o que esfriou um pouco a animação. Mas passando as Lágrimas e subindo a rampa final finalmente entramos em um ambiente totalmente diferente da floresta abaixo.
As intensas chuvas fazem com que haja pouco solo sobre o topo da montanha e este é dominado por afloramentos de rocha com muitas depressões onde a água se acumula. Embora o arenito seja rosado ou vermelho a superfície das rochas é negra, totalmente coberta por um biofilme de cianobactérias e outros microorganismos que interage com os padrões de erosão.
Sapinho endêmico
Figura-46O famoso sapinho-do-roraima Oreophrynella quelchii, um dos habitantes mais especiais da montanha.
"Ele não pula e não nada muito bem, mas também não precisa. Os ovos, colocados em abrigos sob as rochas, dão origem a sapinhos perfeitamente formados sem passar pela fase de girino"
 
Sob o olhar das rochas conhecidas como Guardiões e Pedra de Makunaima encontramos mais um sapinho-do-roraima e, sem as Lágrimas despencando sobre nós, pudemos observar o bichinho. É um sapinho minúsculo, com 2 cm, e totalmente negro exceto por manchas amareladas no ventre. Além de ser uma camuflagem, a cor é uma proteção contra os raios ultravioleta, intensos no alto de qualquer montanha.
Esse sapinho é encontrado apenas no topo do Monte Roraima e um tepui vizinho, o Wei Assipu, com pelo menos outras nove espécies vivendo em outros tepuis. O interessante é que estas mostram alta diversidade morfológica associada à baixa diversidade genética sugerindo que estavam em contato até recentemente (em termos evolutivos), uma indicação que habitats adequados para estes bichos existiam entre as montanhas durante o Pleistoceno. Uma pista destes podem ser as turfeiras que vimos no caminho até o Base, povoadas por plantas que reencontramos no topo do Roraima.
O. quelchii é uma das poucas espécies da herpetofauna que vive no hostil topo da montanha. Ele não pula e não nada muito bem, mas também não precisa. Os ovos, colocados em abrigos sob as rochas, dão origem a sapinhos perfeitamente formados sem passar pela fase de girino. A espécie que vive no Kukenan, ali ao lado (O. nigra), é muito social e dezenas de sapos podem ser encontrados juntos em um mesmo abrigo.
Alguns sugeriram que os Oreophrynella fossem parentes mais próximos de alguns sapos africanos que compartilham as mesmas características, membros de uma linhagem anterior à abertura do Atlântico, mas estudos genéticos e morfológicos mostram que isso é uma ilusão causada por evolução convergente.
Plantas carnívoras
Figura-30A última coisa que muitos insetos vêem: plantas carnívoras do gênero Heliamphora.
"As Heliamphora evoluíram como armadilhas vivas que capturam insetos atraídos para suas folhas, transformadas em poços da morte."
 
Outra das descobertas nesse trecho da caminhada foram as únicas populações de uma planta carnívora do gênero Heliamphora que encontramos. Existem 5 espécies deste gênero no Roraima e uma é endêmica da montanha, mas a julgar pela experiência dos dias seguintes todas se tornaram muito raras pois não as vimos de novo.
As Heliamphora evoluíram como armadilhas vivas que capturam insetos atraídos para suas folhas, transformadas em poços da morte. Os insetos fornecem nutrientes como fósforo que são muito escassos no pouco de solo que há no Roraima. Clique aqui para ver como isso funciona, com narração de Sir David Attenborough, lá no Roraima.
Além das Heliamphora há outros 5 gêneros de plantas carnívoras que vivem no alto do Roraima e nas turfeiras da Gran Sabana. Alguns gêneros como Utricularia têm espécies diferentes no alto da montanha e lá embaixo. E, como seria de se esperar, há gêneros com espécies diferentes no alto de cada tepui.
A planta carnívora mais evidente no alto do Roraima é a Drosera roraimae e esses predadores vermelhos são abundantes onde quer que haja algum substrato para que se fixem, formando um verdadeiro campo minado para os insetos.
Figura-30aDrosera roraimae é a planta carnívora mais comum no Monte Roraima. Foto: Rita Souza
Paisagens
"Durante a caminhada era difícil escolher qual formação de rochas era mais interessante e você quase acredita nas histórias de que as pedras mudam de posição durante a noite."
 
Chegar no platô do Monte Roraima é entrar em uma paisagem surreal como uma pintura de Dali e tão difícil de acreditar quanto as desculpas de um político condenado no Mensalão. A paisagem é alienígena, com rochas erodidas em formatos impossíveis. Em meio à garoa que parava e recomeçava caminhamos rumo à Praça Principal, onde há vários dos abrigos sob rocha chamados de hotéis. Nossa equipe já estava no nosso, o Principal, organizando as barracas e o almoço quando chegamos às 13:00.
As primeiras aves que vimos no topo da montanha foram vários tico-ticos Zonotrichia capensis da subespécie macconnelli, endêmica do Roraima. Muito mansos, exploravam o acampamento em busca de migalhas. Também vimos um fura-flor mas, no geral, o topo da montanha é pobre em aves.
Logo as nuvens cobriram o platô e choveu durante boa parte da tarde. Aproveitamos para descansar mas, com a chuva dando uma brecha no final da tarde, enfrentamos a neblina e o vento muito forte para subir o Maverick e ver o Kukenan e o paredão do Roraima sob a última luz do dia.
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Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 1)

o eco
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Por aí com Darwin e uma Canon. Meditações, viagens, opiniões e incorreções políticas de Fábio Olmos, um biólogo viajante que acha que quanto mais você sabe, mais você vê.

Monte Roraima: caminhadas, observação de aves e bolivarianos em crise (parte 1)
Fábio Olmos - 09/04/14

Figura-11O rio Kukenan e o Monte Roraima. A base da montanha já foi coberta por florestas. Fotos: Fábio Olmos
Entre 1,95 e 1,78 bilhões de anos atrás, areia trazida pela água e pelo vento se acumulou no mar e nas dunas e rios ao longo da costa de um antigo continente. A vida havia surgido uns 1,5 bilhão de anos antes e o planeta, dominado havia tanto tempo por criaturas que hoje chamamos de bactérias, algas azuis (ou cianobactérias) e Archaea, via o surgimento dos primeiros eucariotos, nossos ancestrais diretos.
Esta areia, que em alguns lugares conservou as marcas feitas pelas ondas, foi comprimida e, ao longo de milhões de anos, formou rochas areníticas com centenas de metros de espessura, enterradas por sedimentos mais recentes. Centenas de milhões de anos depois, estas rochas eram parte do supercontinente de Pangea, formado uns 300 milhões de anos atrás. Nessa época já existiam florestas, percorridas por anfíbios e répteis, mas dinossauros e os primeiros mamíferos só surgiriam dezenas de milhões de anos depois.
Uma colisão e tanto
"Exposto aos elementos, o grande maciço de arenito começou a ser erodido, voltando a ser areia, restando alguns pedaços que resistiram por acasos da geomorfologia."
 
Placas continentais flutuam pela superfície do planeta para lá e para cá e continentes tanto trombam e se unem como se rompem (veja aqui). Foi o que aconteceu com Pangea, que se quebrou uns 250 milhões de anos atrás. Um dos continentes que surgiu dessa quebra, Gondwana, também começou a se romper 200 milhões de anos atrás com a abertura do Atlântico e a separação da África e da América do Sul.
Conforme o Atlântico se alargava e a América do Sul era movida para o oeste, o continente já habitado por dinossauros colidiu com as placas tectônicas que são o assoalho do atual oceano Pacífico, o que continua até hoje. Isso causou o início da elevação dos Andes no oeste do continente e, entre outras coisas, a elevação daqueles antigos arenitos e das rochas vulcânicas embaixo destes.
Essas rochas foram elevadas 3 mil metros acima do nível do mar, formando um planalto que cobria o que é hoje boa parte do sul da Venezuela, oeste da Guiana e o norte de Roraima e Amazonas, um processo que culminou 70 milhões de anos atrás (dinos ainda dominavam a Terra) e foi acompanhado pela formação de fraturas preenchidas por lava vinda do interior do planeta. Essas intrusões deram origem a veios de cristal e jaspe que hoje encantam turistas.
Exposto aos elementos, o grande maciço de arenito começou a ser erodido, voltando a ser areia, restando alguns pedaços que resistiram por acasos da geomorfologia. Estes pedaços são as montanhas conhecidas por tepuis, caracterizadas pelo topo plano rodeado por paredões verticais, como muitas chapadas do Brasil central.
"Montanha de Cristal"
O mais famoso dos tepuis é Monte Roraima, que seria a "Montanha de Cristal" descrita por Sir Walter Raleigh, que explorou a região em 1595 e tem um papel importante na mitologia dos índios locais (é a casa de Makunaima). A montanha atinge 2.806 m de altitude no chamado Maverick (que parece o carro deste modelo estacionado lá em cima) e é parte da fronteira entre a Venezuela, Guiana e o Brasil. A maior parte de seu platô de 31 km2 está em território venezuelano e é parte do Parque Nacional Canaima, criado em 1962 com uma área de 3 milhões de hectares que se sobrepõem ao território ocupado por grupos indígenas como os Pemón. O brasileiro Parque Nacional do Monte Roraima abrange a parte brasileira da montanha e é sobreposto pela terra indígena Raposa-Serra do Sol.
O topo do Roraima só foi atingido (ao que se saiba) em 1884 pelos britânicos Everard F. im Thurn e Harry Perkins, que seguiram uma rota descoberta pelo ornitólogo (sim senhor) Henry Whitely. A façanha capturou a imaginação do público e foi uma das inspirações (junto com a figura do Coronel Fawcett) do livro "O Mundo Perdido", de Arthur Conan Doyle. Este, por sua vez, inspirou desde vários filmes e séries de TV até a genialanimação Up!, que em 5 minutos trata melhor da condição humana que boa parte da filosofia.
Várias expedições posteriores consolidaram o Roraima como destino tanto de expedições científicas como de aventureiros. E, mais recentemente, de turistas que encaram a escalaminhada até o topo. Hoje, entre 15 e 20 mil pessoas vão ao Parque Nacional com o objetivo de subir o Roraima.
A expedição
Figura-1A caminhada começa na vila de Paraitepui, um povoado Pemón no Parque Nacional Canaima de onde já se vê o Monte Roraima e seu irmão, o Kukenan (à esquerda).
"Mesmo que houvesse uma rota pelo lado brasileiro é improvável que fosse possível usá-la já que não há visitação organizada ao mesmo. O que me faz pensar se conseguirei subir o Pico da Neblina, no parque brasileiro homônimo, antes de morrer de velhice, pois a trilha a este pico foi fechada (...)"
 
Os tepuis são famosos por abrigar flora e fauna endêmicas muito interessantes. Embora abrigue menos espécies que as florestas das zonas mais baixas (c. 90 no Monte Roraima), a região do "Pantepui", que inclui montanhas como o Roraima, a leste, e o Pico da Neblina, a oeste, é considerada uma área de endemismo de aves que influenciou bastante nossa compreensão da evolução da biodiversidade tropical.
Os tepuis a leste do rio Caroni (como o Roraima) são mais ricos em espécies e abrigam mais aves endêmicas (c. 30), incluindo algumas espetaculares. Isso logicamente atrai o interesse de observadores de aves como eu, que gostam de combinar uma boa caminhada com a busca de espécies novas para o life-list. Fora isso, a flora restrita ao topo dos tepuis compõe uma comunidade muito particular que cresce em um ambiente hostil com geologia cênica. Muitas plantas têm adaptações bem especiais para viver ali, incluindo a capacidade de capturar e digerir pequenos animais.
Eu acalentava a ideia de visitar o Roraima há tempos e finalmente decidi. Junto com um pequeno grupo de amigos observadores de aves, organizamos um roteiro com a ajuda dos amigos da Makunaima Expedições, o qual incluiu um tempo extra para que pudéssemos tanto subir ao topo como observar as espécies que buscávamos.
Nossa viagem começou em Boa Vista no dia 8 de fevereiro. Liderados por nosso guia Francisco Diniz, que iria completar sua subida número 49 conosco, partimos muito cedo com destino a Santa Elena do Uraien, na Venezuela. O único acesso possível ao topo, a menos que você voe ou escale, é pela rota usada por Im Thurm e Perkins, no lado venezuelano da montanha. Mesmo que houvesse uma rota pelo lado brasileiro é improvável que fosse possível usá-la já que não há visitação organizada ao mesmo.
O que me faz pensar se conseguirei subir o Pico da Neblina, no parque brasileiro homônimo, antes de morrer de velhice. A trilha a este pico foi fechada, para protesto dos operadores turísticos (incluindo índios locais) enquanto um caro plano de manejo e estudos complementares não são realizados.
O caminho para Santa Elena cruza enormes áreas de lavrado, o "cerrado" de Roraima e da Guiana. Este é um dosecossistemas brasileiros mais desprotegidos apesar de sua importância e vulnerabilidade.
Bolivarianismo
"(...) fizemos um pit-stop em uma padaria bastante frequentada por outros brasileiros. Não havia pão (há falta crônica de farinha na Venezuela), mas matamos a fome com salgadinhos."
 
Vimos um tamanduá-bandeira cruzando a BR174 (um sinal de boa sorte!) e fizemos uma parada em Pacaraima, ainda no Brasil, para trocar reais por bolívares fuertes a uma taxa de 1 para 28. A política econômica chavista desvalorizou tremendamente a moeda local e mercadorias e serviços são muito mais baratos na Venezuela do que no Brasil, alimentando um intenso comércio entre Santa Elena e Boa Vista.
Parece bom para nós, mas isso está associado ao colapso da produção local, inflação entre as mais altas do mundo, contas públicas mancas e uma séria crise de desabastecimento resultante da falta de divisas estrangeiras, cortesia de um sistema que transfere os dólares das exportações de petróleo aos amigos do regime. O "socialismo do século 21" tornou a Venezuela uma grande importadora de alimentos, especialmente do Brasil, e deve ser por isso que nosso governo gosta dos chavistas.
Depois de passar pelos postos de fronteira, incluindo a Aduana Ecologica venezuelana, chegamos a Santa Elena, onde encontramos nosso guia local, o atencioso Luis Trejo. Ali transferimos nossas mochilas e carga para um Land Cruiser 4x4 e fizemos um pit-stop em uma padaria bastante frequentada por outros brasileiros. Não havia pão (há falta crônica de farinha na Venezuela), mas matamos a fome com salgadinhos.
De lá, seguimos até Paraitepui, parte do trajeto em uma estrada de terra com voçorocas que engoliriam um mamute. No caminho passamos por belos buritizais em uma paisagem de florestas e campos, os últimos cada vez mais dominantes conforme nos aproximamos de nosso destino. Esta é a Gran Sabana, uma ilha de campos limpos com ocasionais matas de galeria isolada em uma região de florestas.
Paraitepui é uma vila Pemón que também é o portal de entrada para o Monte Roraima, o qual, junto com sua montanha-irmã, o Kukenan, parece enganosamente próximo. Em Paraitepui fizemos os acertos com os carregadores e o restante de nossa equipe de suporte (todos Pemón) e nos registramos no escritório do parque nacional. Foi a única vez que vimos funcionários do parque até nosso retorno.
Um bônus que já animou nosso grupo foi encontrar um rabo-branco-cinza-claro (Phaethornis augusti) em seu ninho dentro do banheiro do centro de recepção aos turistas. Soubemos, semanas depois, que os filhotes cresciam bem.
Gran Sabana
Figura-4As manchas remanescentes de florestas são derrubadas pelos Pemón para abertura de roças no interior do parque nacional.
"O entusiasmado uso do fogo que converte florestas em capinzais é parte da cultura Pemón e esse amor pelas chamas e horizontes abertos tanto impede que florestas cresçam sobre áreas dominadas por capim como muda as condições do solo"
 
Os Pemón são um povo de língua carib, aparentado aos Makushi de Roraima. Sua economia depende da agricultura de coivara, caça e do turismo, além de subsídios governamentais. Eles se consideram um "povo da savana", em oposição aos "povos da floresta", e têm uma relação íntima com a origem da Gran Sabana.
A Gran Sabana é uma anomalia, uma área de campos em uma região onde o clima deveria sustentar florestas. A explicação é fonte de debates, mas durante a caminhada até o Roraima e no retorno vimos grandes áreas de savana e matas de galeria recentemente queimadas. Os troncos calcinados de árvores de grande porte que pontuam o sopé da montanha e do Kukenan são testemunhas de florestas que ocupavam áreas muito maiores até não muito tempo atrás.
Grandes incêndios ocorrem na região durantes as secas prolongadas e consta que o paliteiro é resultado de um incêndio provocado em 1926, um ano anormalmente seco, por uma expedição britânica. Mas muitos outros fogos, sem participação estrangeira, ocorreram antes e depois, o que explica a falta de regeneração das áreas queimadas.
O entusiasmado uso do fogo que converte florestas em capinzais é parte da cultura Pemón e esse amor pelas chamas e horizontes abertos tanto impede que florestas cresçam sobre áreas dominadas por capim como muda as condições do solo, tornando a regeneração cada vez mais difícil. Os Pemón, entre outras coisas, acham que o capim seco é triste e incendiá-lo e provocar a rebrota "alegra a natureza", além de atear fogo na borda dos capões de mata para espantar animais para caçá-los. Isto é um fator importante na implosão da biodiversidadedesses remanescentes.
Isso desperta lá (como aqui) o debate entre quem acha que eles devem fazer o que a tradição manda e quem acha que cientistas sociais deveriam saber mais sobre ecologia antes de palpitar sobre o assunto (veja mais aquiaqui).
Tudo indica que o gosto por ver a coisa pegar fogo data de muito tempo, já que carvões e savanas (que substituíram florestas e áreas arbustivas) surgem ao mesmo tempo no registro paleoecológico (veja aqui e aqui). A Gran Sabana parece ser mais um exemplo de alterações de ecossistemas e erosão da biodiversidade em larga escala provocada por povos "tradicionais" (algo similar ocorreu na Austrália, hoje dominada por vegetação pirófila). Também mostra como a sobreposição entre terras indígenas e Parques Nacionais é problemática para a biodiversidade.
Figura-5Passamos por muitos trechos de savana que foram queimados dentro do parque nacional, uma tradição muito arraigada entre os Pemón.
Primeira perna
"Durante todo o caminho temos o Roraima e seu irmão fotogênico, o Kukenan, ao lado. É difícil parar de tirar fotos, já que as mudanças na luz e nas nuvens mudam a paisagem a cada minuto."
 
Após os acertos finais, iniciamos a primeira perna de nossa caminhada, 15 km até o rio Tek, onde acamparíamos. O calor do meio-dia era amenizado pela brisa e por estarmos a 1.300 m de altitude. Este trecho da caminhada cruza uma topografia ondulada dominada por campos limpos com alguns riachos margeados por matas de galeria e capões em depressões do terreno. Em um capão que estava sendo convertido em uma roça de mandioca ouvimos e depois localizamos uma araponga-de-barbela (Procnias averano), bicho novo para a maior parte do nosso grupo.
Durante todo o caminho temos o Roraima e seu irmão fotogênico, o Kukenan, ao lado. É difícil parar de tirar fotos, já que as mudanças na luz e nas nuvens mudam a paisagem a cada minuto.
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Figura-2Figura-3
Figura-8
Com paradas para observar aves e descansar, chegamos ao rio Tek às 17:45. Ali existe uma área onde é permitido acampar e construções simples utilizadas pelas empresas de turismo, como cozinha e sala de jantar para seus clientes. Essas foram construídas por empreendedores Pemón que também vendem bebidas, muito bem vindas, aos clientes.
Infelizmente o lugar não conta com estrutura de sanitários ou mesmo sinalização organizando o que deve ser feito onde. A maior parte das empresas simplesmente direciona os clientes portando rolos de papel higiênico para as moitas mais convenientes. O resultado é a criação de campos minados e a visões pouco inspiradoras pelos arredores, com lixo, papel higiênico e fezes ao redor dos acampamentos e rios. A falta de controle pelo pessoal do parque realmente faz falta.
Há empresas, como a nossa, que usam um sistema de sanitário portátil e levam os resíduos para fora do parque, mas estes são minoria. Consta que em março haveria um mutirão para limpar a montanha. Espero que isso tenha acontecido.
No dia seguinte começamos bem, com um belo arco-íris matinal e encontrando um raro papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis) e alguns pedros-celouros (Sturnella magna) ainda no acampamento e, logo depois, um beija-flor (Polytmus milleri, endêmico do Pantepui).
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Figura-9Figura-6Figura-7
Figura-10


quinta-feira, abril 10, 2014

Mudanças climáticas empurrarão milhões à miséria, alerta Banco Mundial

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/521185-mudancas-climaticas-empurrarao-milhoes-a-miseria-alerta-banco-mundial


Mudanças climáticas empurrarão milhões à miséria, alerta Banco Mundial

Relatório analisa os impactos já existentes e projeções futuras do aquecimento global em algumas das regiões mais pobres do planeta e reconhece a necessidade de medidas urgentes de adaptação.
A reportagem é de Fabiano Ávila e publicada pelo Instituto CarbonoBrasil, 19-06-2013.
Comunidades pobres na África, no Sudeste Asiático e em Ilhas do Pacífico que vinham, aos poucos, melhorando sua situação, começam a regredir devido às consequências do aumento das temperaturas médias do planeta, que tornam o acesso à água e aos alimentos cada vez mais difícil.
Essa é uma das conclusões do relatório Turn Down the Heat: Climate Extremes, Regional Impacts, and the Case for Resilience (algo como Diminua o Calor: Extremos Climáticos, Impactos Regionais e Casos para Resiliência), divulgado nesta quinta-feira (19) pelo Banco Mundial.
"Cientistas afirmam que se o planeta aquecer 2oC – o que pode acontecer nos próximos 20 ou 30 anos – teremos escassez de alimentos generalizada, ondas de calor sem precedentes e mais ciclones intensos. As mudanças climáticas, que já estão acontecendo, podem tornar a vida ainda pior em zonas pobres e prejudicar enormemente as vidas e esperanças de indivíduos e famílias que não têm responsabilidade nenhuma sobre as causas do aumento das temperaturas", afirmou Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial.
Segundo o relatório, o planeta já está registrando um aquecimento de 0,8oC e as temperaturas poderão subir mais 4oC até o fim do século se nada for feito. Baseado em análises do Instituto Postdam e do Climate Analytics, o documento traça o cenário atual e futuro de algumas das regiões mais vulneráveis ao clima no mundo, destacando o risco de grande degradação da qualidade de vida e da economia mundial se as previsões forem confirmadas e se ações de adaptação não forem postas em prática.
De acordo com Rachel Kyte, vice-presidente de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial, a inviabilidade da produção de alimentos está forçando uma regressão na qualidade de vida de cada vez mais pessoas. “Nas áreas avaliadas, milhões estão voltando a morar em favelas, colocando famílias inteiras sob o risco de doenças relacionadas a condições inadequadas de moradia.”
Na África subsaariana, por exemplo, os pesquisadores apontam que secas ficarão mais intensas e frequentes, prejudicando a já precária segurança alimentar e provocando problemas econômicos e conflitos sociais.
A estimativas são de uma queda de 80% na atual produção de alimentos na região para um aquecimento entre 1,5oC e 2oC, algo que pode acontecer dentro de três décadas.
No Sudeste da Ásia, considerando um cenário de inação por parte dos governos, cidades costeiras sofrerão com um aumento no nível do mar de até 30 cm em 2040. Cidades no delta do rio Mekong, no Vietnã, produtoras de arroz que é exportado para diversas partes do mundo, são especialmente vulneráveis ao avanço dos oceanos. Confirmados os 30 cm de elevação, isso significará uma imediata queda de 11% na cultura de arroz.
No Pacífico, a crescente acidez das águas já provoca a mortandade de corais e das muitas espécies de peixes recifais que são essenciais para os povos insulares. Também o acesso à água potável têm ficado mais difícil, com a salinidade crescente das reservas hídricas, causada pela subida do nível do mar.
“O resultado de nossa avaliação é um cenário dramático de um planeta sob extremos climáticos que causam devastação e sofrimento. Em muitos casos, ameaças múltiplas, como o aumento de ondas de calor, elevação do nível dos oceanos, secas e enchentes mais severas, colocam em risco justamente os mais pobres e vulneráveis”, explica o relatório.
Adaptação
“Precisamos atrair a atenção mundial para a tarefa de manter o aumento das temperaturas em 2oC. Estamos colocando nossas ideias em prática, buscando ajudar aqueles cujas vidas estão sendo particularmente afetadas pelos eventos climáticos extremos”, afirmou Kyte.
A entidade informou que aumentou de US$ 4,6 bilhões para US$ 7,1 bilhões os recursos que destinará para medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. O Banco também lançou o Plano de Ação de Gerenciamento Climático, que tem como objetivo alavancar novos recursos para lidar com o aquecimento global.
Entre as metas do novo plano estão: ajudar os países a desenvolverem estratégias que levem em conta os riscos e oportunidades das mudanças climáticas; fornecer ferramentas para a adaptação; criar novas práticas e padrões para aumentar a resiliência da sociedade; estimular os investimentos em tecnologias de baixo carbono e em energias alternativas.
“Não acredito que os pobres já estejam condenados ao futuro descrito nesse relatório. Estamos determinados a trabalhar junto aos países para encontrar soluções”, concluiu Kim.