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terça-feira, janeiro 21, 2014

Entenda o que é REDD

o eco
http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/27940-entenda-o-que-e-redd


Entenda o que é REDD
((o))eco - 20/01/14

 entenda-redd
REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal ou, em inglês, Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation) é um conjunto de incentivos econômicos, com o fim de reduzir as emissões de gases de efeito estufa resultantes do desmatamento e da degradação florestal -- mudanças que prejudicam a floresta e limitam seus serviços ambientais. O conceito parte da ideia de incluir na contabilidade das emissões de gases de efeito estufa aquelas que são evitadas pela redução do desmatamento e a degradação florestal.
A preservação das florestas, além da redução nas emissões de gases do efeito estufa, tem o potencial de gerar outros benefícios substanciais, como impactos positivos sobre a biodiversidade e sobre a conservação de recursos hídricos. A "floresta em pé" também influencia a estabilização do regime de chuvas e, por consequência, o clima.
Histórico
A primeira versão do que viria ser o REDD resultou de uma parceria entre pesquisadores brasileiros e americanos, numa proposta conhecida como "Redução Compensada de Emissões", que foi apresentada durante a COP-9, em Milão, Itália (2003). Pelo documento, os países em desenvolvimento detentores de florestas tropicais que conseguissem promover reduções das suas emissões nacionais oriundas de desmatamento receberiam compensação financeira internacional correspondente às emissões evitadas. O conceito de redução compensada tornou-se a base da discussão de REDD nos anos seguintes.
O Protocolo de Kyoto, de 1997, excluiu as políticas relacionadas ao desmatamento e à degradação devido à complexidade das medições e monitoramento para os diversos ecossistemas e mudanças de uso da terra. Esta exclusão incentivou a formação da chamada "Coalition of Rainforest Nations" ou "Coalizão de Nações Tropicais", liderados por Papua Nova Guiné e Costa Rica. Este grupo, durante a COP-11, em Montreal, Canadá (2005) apresentou uma proposta similar à "Redução Compensada de Emissões" cujo objetivo era discutir formas de incentivar economicamente a redução do desmatamento nos países em desenvolvimento, detentores de florestas tropicais.
Mais tarde, na COP-13, em Bali, Indonésia (2007), chegou-se à Decisão 1/CP13, conhecida como "Mapa do Caminho de Bali": os governos dos países membros decidiram envolver-se em ações nacionais e internacionais contra a mudança climática. A adoção do documento resultou no conceito mais amplo de REDD +, que, além do desmatamento, inclui a a conservação florestal, manejo florestal sustentável e aumento dos estoques de carbono em áreas de floresta .
Na 15ª Conferência das Partes da UNFCCC (COP- 15), realizada em Copenhague em dezembro de 2009, os participantes assinaram o Acordo de Copenhague que confirmou a importância do REDD: "Nós reconhecemos o papel crucial da redução de emissões do desmatamento e degradação das florestas e a necessidade de intensificar a remoção de emissões de gases de efeito estufa por florestas e chegar a acordo sobre a necessidade de fornecer incentivos positivos para essas ações através do estabelecimento imediato de um mecanismo incluindo o REDD +, para permitir a mobilização de recursos financeiros dos países desenvolvidos."
O desenvolvimento do mecanismo de REDD tem progredido desde então, com a criação de um programa das Nações Unidas (UN-REDD) e o programa Parceria de Carbono Florestal (FCPF) do Banco Mundial. Os governos nacionais e o setor privado também desenvolvem seus próprios projetos.
REDD+
O conceito de REDD foi ampliado e é conhecido como REDD+: o sinal "+" inclui o papel da conservação, do manejo sustentável e do aumento de estoques de carbono nas florestas, indo além do desmatamento evitado e recuperação de florestas. Se refere à construção de um mecanismo, ou uma política, que deverá contemplar formas de prover incentivos positivos aos países em desenvolvimento que tomarem ações para a mitigação das mudanças climáticas: (1) Redução das emissões derivadas de desmatamento e degradação das florestas; (2) Aumento das reservas florestais de carbono; (3) Gestão sustentável das florestas; (4) Conservação florestal.
A principal (e mais controversa) estratégia oferece incentivos (compensações) para os países em desenvolvimento que reduzirem emissões de gases que provocam o efeito estufa provenientes de florestas e investirem em desenvolvimento sustentável e práticas de baixo carbono para o uso da terra. O financiamento virá de países desenvolvidos, dentro da lógica de responsabilidades diferenciadas que rege a Convenção do Clima.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

“Small is Beautiful”: African Small Island Development States and Climate Change

UNEC - AFRICA
http://es-blog.uneca.org/ES-Blog/es-blog/%E2%80%9Csmall-beautiful%E2%80%9D-african-small-island-development-states-and-climate-change



“Small is Beautiful”: African Small Island Development States and Climate Change


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1 NOVEMBER 2013
Of the world’s fifty-two Small Island Developing States (SIDS), six are in Africa. They include; Cape Verde, Comoros, Guinea Bissau, Mauritius, São Tomé and Príncipe and Seychelles. These countries range in size from the smallest, Seychelles, which is composed of 115 small islands representing the largest number among African SIDS, to the largest, Guinea Bissau, which comprises close to 80 islands.  For most, these countries trigger vivid images of tourist heavens characterized by tranquil beaches, palm trees, clear turquoise waters or colourful coral reefs.
Economist E.F. Schumacher’s seminal work in 1973, “Small is Beautiful”, sought to counter arguments to well-rehearsed economic maxims such as “growth is good” and “big is better”, and succeeded somehow, in casting some doubt on widely held views on growth and expansion. While most African SIDS would meet Schumacher’s categorization of smallness, and classify as beautiful, not all is well in paradise.
SIDS may indeed be beautiful, but they are in peril. Of all the threats facing SIDS, climate change is probably the most pressing. Although SIDS are inherently diverse socially, politically, economically and geographically; they share a number of characteristics that extenuate their vulnerability. This includes the distinct coastal zone concentration of their populations, infrastructure and socio-economic activities. For example, about 80% of the infrastructure and population in the Seychelles is concentrated along the coast of just a few islands. In addition, SIDS have a limited physical size and are susceptible to frequent and intense cyclones, hurricanes, droughts and storms.
The consequences of climate change and rising sea levels, are exposing SIDS to both irreversible and life threatening damage. The signs are evident from environmental degradation that threatens the diversity of marine ecosystems and resources utilized for livelihoods and food security. Coastal erosion also disrupts human settlements, infrastructure, social services, tourism facilities as well as agricultural subsistence. Water management-related challenges on the other hand are limiting freshwater resources while the risks of saline intrusion increase. Already vulnerable populations are threatened further by health risks stemming from vector borne diseases such as malaria or dengue.
In their entirety, such consequences only mount additional social, cultural and economic stress on SIDS, posing a threat to their very survival.  One only has to look to the Maldives in Asia to realize the gravity of rising sea levels. According to experts, Maldives could be uninhabitable within 50 years from now. It is literally sinking! The prospects for African SIDS could be just as devastating. Not long ago in 2004, a massive tsunami hit Asia and the tidal aftershocks rolled across the Indian Ocean as far as Africa’s east coast. These powerful waves were met with little resistance in the Seychelles which resulted in the capital Victoria being submerged in shallow seawater. Thinking ahead, more critical issues await SIDS. UNEP’s projections place Mauritius in the category of water-stressed countries and Comoros in the category of water-scarce countries by 2025. Cape Verde already belongs to that league.  
Paradox for the small
In contrast to Schumacher’s maxim, larger economies are predisposed to spreading the risks and burdens, both over time and space, thus absorbing the overall impacts of climate change. In the case of SIDS, the choices are reduced due to their geographic dispersion, remoteness and isolation from global markets. Coping strategies tend to be fewer and with heavy reliance on external assistance for post disaster recovery programmes. The paradox is that SIDS are paying for more than their fair share due to their smallness, and are “subsidizing” the cost of managing climate challenges that they are least responsible for. The combined annual carbon dioxide (CO2) output of all SIDS accounts for less than one per cent of global emissions. Yet SIDS are facing disproportionately greater vulnerabilities.
One size doesn’t fit all
The criteria that define SIDS are ambiguous. For instance, not all SIDS are technically “islands” although they lie along coasts, such as the case of Guinea-Bissau. Nor are all SIDS “developing states”, on the contrary, Cape Verde, Mauritius and Seychelles are middle income countries. By coming together, SIDS have been able to form a unified group for addressing environmental vulnerability and being recognized as a “special case” in multilateral environmental agreements like the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC).
Despite this, the distribution, scale and severity of the impacts of climate change tend to vary across the SIDS, yet all SIDS tend to be lumped together in one category. Both the homogeneity and heterogeneity of SIDS must be appreciated. In absence of this, the current international architecture is having a reverse effect on actually widening the solution space at national and local levels. International processes should instead be used to emphasize the need for customized and homegrown solutions for SIDS that reflect and are aligned to their own climate resilient development trajectories. For example, according to the Human Development report 2013, about half of the population in Guinea Bissau is living below the poverty line of $1.25 Per Person Per day. This is a stark contrast with Seychelles with less than 1% of the population living below the poverty line; placing the country among the healthiest countries in the world.
James Michel, the President of Seychelles[1] once stated: “A fair deal for SIDS means a truly sustainable governance structure for oceans. When harvesting the oceans for fish or other resources, they seem to belong to everyone. But, when it comes to dealing with sustainability of resources, of marine conservation or pollution, of piracy – the oceans seem to belong to no one”. These words underline the fact that SIDS stand alone in the face of rising temperatures and other biophysical impacts of climate.
What is next?
What then are the opportunities for SIDS to transform their vulnerabilities and better prepare for the impact of climate change?
First, social capital is of fundamental importance in the recovery and coping strategies of vulnerable communities. Investing in kinship and other forms of social capital improves the chances of being able to bounce-back after disasters. Even with the loss of biodiversity, biophysical losses can be compared with the kind of cultural losses that no amount of adaptation can fix. For instance, what would constitute a cultural fix for women rice growers in West Africa, faced with problems of salinization and “predatory” mangroves? How could they find a substitute to this tradition that has formed an essential part of their economic culture?
Second, strong institutions are fundamental enablers to an effective response strategy, either through adaptation or mitigation. They can provide the basis for formulating and supporting green economy policies that will allow Africa to stay on the run. Institutions can act as stewards and regulators for the management, distribution, measurement and ownership of natural resource goods and services. To graduate out of a special category, SIDS will need to think through innovative choices and solutions that will further insulate them from climate extremes and shocks.
Third, the economic and structural transformation of SIDS requires the engagement of a multiplicity of actors – the State, private sector, civil society and public-private partnerships. For example, the quality of institutions needed to usher in a new form of deliberative democracy acting on the principle of “common but differentiated responsibilities”, is one that can leverage opportunities in the energy and agricultural sectors to prepare for climate risks. The current primary products-driven and export-led growth model needs to build in value-adding export diversification. This is needed to broaden the revenue base and spread the rewards of growth across a larger section of the population. SIDS also need to invest in infrastructure to maximize trading opportunities and boost the inflow of investment to their economies.
Fourth, “small is beautiful” in terms of the abundance of natural resource endowment. SIDS need to better exploit their natural resource endowment.  Inclusive green growth is a frontier that could focus on affordable renewable energy services, the promotion of green jobs and the reduction of poverty. Already, interest in this areas and the role of low-carbon development to reduce dependence on fossil fuels is growing. For example, Cape Verde’s renewable energy targets and objectives for 2020-2030 include increasing electricity network coverage to 100% of renewable sources, and increasing energy efficiency by 30% through the promotion of new technology. Mauritius’s plan is to increase the share of renewable energy such as solar power, wind energy, hydro power, biogas and landfill gas, to around 35% by 2025. The Vice-President of Seychelles remarked at the UN General Assembly that SIDS are ideal locations and size for pilot projects in renewable energy and other areas, which can then be rolled out in other countries on a larger scale[2]. After all, the smallness of SIDS could actually be a blessing.
In addition, SIDS have the potential to incubate good technological options that can enable them to sprint towards greening their economies. Hard engineering solutions can insulate them from vulnerabilities such as oil price volatility, while pursuing integrated development will increase the resilience of ecosystems and improve human security.
Among key growth sectors, tourism is a major source of revenue. Currently the economic bloodline of most African SIDS and it holds huge potential for growth and development. Ecotourism can provide employment, generate income and help conserve natural resources, while promoting implementation of a biodiversity action plan.
Climate services and observational infrastructure that are used to predict weather patterns and identify climate related extremes tend to be weak in places where they are most needed. Investment in climate science and climate services would facilitate the production of high quality data and the development of early warning systems. In addition, it would initiate much needed research in the fields of climate change impact, vulnerability and adaptation. All this would better inform policy decisions.
Last but not least, while SIDS have made major efforts to carry out climate change adaptation measures, progress so far has tended to focus on public awareness, research and policy development rather than on implementation, largely due to financial constraints. Perhaps this is because there are only a limited number of financing options dedicated to adaptation (e.g. the GEF specialized adaptation facilities, the Adaptation Fund and the World Bank Catastrophe Risk Insurance Facility). Neither option can provide the scale nor magnitude of resources needed to address the climate change problem. If SIDS are to have a chance, new financing players and partners are needed quickly to support adaptation responses to climate change. 
Conclusion 
African SIDS tend to be overlooked in the predominant literature on climate change. Their differing vulnerabilities get drowned in a narrative that focuses on biophysical impacts with only superficial reference to the issue of social vulnerability. Local communities are in the frontline of climate change impacts. They are already adapting to climate variability and change.  After all, they have a history of surviving social and environmental changes with a wealth of indigenous knowledge that includes intricate systems of weather forecasting as well as mitigation and adaptation practices.  
However, effective and modern pathways for future adaptation will not happen in a vacuum. They will need to be facilitated, structured and organized within an institutional setting. The solution space must therefore be widened and the means for cost-effective, participatory and sustainable implementation facilitated.
Schumacher may not have been wrong after all, perhaps small is beautiful. The beauty of SIDS is in the ingenuity of its people, the entrepreneurial spirit, the ability to rise to the many challenges of climate change, to invent themselves and to find renewed resilience in their institutions, social ties, networks and alliances of reciprocity.

[1] Delivered at a conference in Mahe in July 2013
[2] H.E. Mr. Danny Faure at the    67th General Assembly General Debate, New York, 25-29 September and 1 October 2012

quinta-feira, janeiro 09, 2014

ProSavana: o Brasil agora exporta latifúndios?

OP
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/prosavana-o-brasil-agora-exporta-latifundios/


ProSavana: o Brasil agora exporta latifúndios?

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Em Moçambique, camponeses reagem a programa de “modernização” nipo-brasileiro. Promete elevar produtividade mas introduziria, de contrabando, monocultura, agrotóxicos e concentração fundiária 
Por Amos Zacarias, em Envolverde/IPS
Rodolfo Razão adquiriu, em 2010, o título de Direito de Uso e Aproveitamento de Terra (Duart) de dez hectares, mas só pode explorar sete. Alega que o restante foi ocupado por uma companhia sul-africana que cultiva soja, milho e feijões numa área estimada em dez mil hectares. De nada adiantou queixar-se às autoridades no distrito de Monapo, onde reside, na província de Nampula. Aos 78 anos, pouco pode esperar.
Brígida Mohamad, viúva de 50 anos, sofre por um dos seus sete filhos, cuja terra disse que foi invadida por uma empresa. “Meu filho já não tem onde cultivar, nós não estamos vendendo nossas machambas” (terreno agrícola), desabafou à IPS em Nacololo, localidade do mesmo distrito de Monapo, onde sempre viveu.
São casos que acentuam o temor com que os camponeses imaginam o Programa de Cooperação Tripartite para o Desenvolvimento Agrícola da Savana Tropical em Moçambique, conhecido como ProSavana e apoiado financeiramente pelas agências de cooperação brasileira (ABC) e japonesa (Jica).
O programa, baseado na tecnologia de agricultura tropical desenvolvida no Brasil, pretende aumentar a produção no corredor de Nacala, uma área de 14,5 milhões de hectares no centro e norte de Moçambique, com potencialidades agronômicas semelhantes às do cerrado, a savana brasileira. Vivem ali cerca de 4,5 milhões de habitantes, 80% na zona rural, uma alta densidade em comparação com países como o Brasil, que já viveram uma modernização agrícola que promove o êxodo rural.
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No entanto, em certos lugares é possível percorrer dois quilômetros sem encontrar uma casa, dada a dispersão e o isolamento das familias dedicadas à agricultura de subsistência em lotes de 1,5 hectares, em média. A mandioca é a principal base alimentar da região. Produzem ainda o milho, abóbora, gergelim, girassol e batata-doce. O algodão, o tabaco e o caju são cultivados para a geração de renda.
A perspectiva de se transformar o corredor em grande celeiro do país, inclusive para a exportação facilitada pelo porto de Nacala, deve intensificar os conflitos pela terra, ao atrair empresas voltadas à produção comercial e ao aumento de produtividade, em extensos estabelecimentos que deslocam populações tradicionais.
A presença dos grandes investidores é uma desgraça, praguejou Brígida Mohamad, ao rejeitar mudanças que não são necessariamente provocadas pelo ProSavana, mas podem acelerar-se por sua influência. Os camponeses não perderão suas terras, o objetivo principal do programa é acolher os agricultores que já estão no terreno e melhorar suas técnicas de produção, garantiu à IPS o coordenador moçambicano do ProSavana, Calisto Bias.
Contudo, as comunidades do corredor de Nacala sofrerão uma ruptura na sua forma de viver, porque os grandes investidores trazem novas relações, de empregados e patrões, e as monoculturas põem em xeque o hábito de “produzir um pouco de tudo para sua alimentação”, prevê Sheila Rafi, Oficial de Recursos Naturais da organização não governamental Livaningo.
Gerar emprego por meio de investimentos agrícolas e do estabelecimento de cadeias de valor é de fato uma das “missões” do ProSavana. Outra é modernizar e diversificar a agricultura com vistas a um aumento da produtividade e da produção, informa o site criado pelo Ministério da Agricultura para divulgar o programa.
Porém, a ameaça mais sentida é a de “usurpação” das terras. Alguns tentam proteger os seus espaços com a obtenção de títulos de Duart, mas não é uma garantia, segundo os depoimentos ouvidos. A lei moçambicana de terras diz que a terra é propriedade do Estado, e não pode ser vendida ou mesmo penhorada. As pessoas, individual ou coletivamente, podem solicitar ao governo o Duart, até um período máximo de 50 anos.
Cerca de 250 camponeses de Nacololo aglomeraram-se, no dia 11 de dezembro, diante da casa do chefe do posto local, exigindo explicações sobre uma alegada usurpação de cerca de 600 hectares pela empresa sul-africana Suni.
O distrito de Malema, a 232 quilômetros da cidade de Nampula, também vive dias turbulentos. No local operam grandes companhias agrícolas como a japonesa Nitori, produtora de algodão, que obteve a concessão de cerca de 20 mil hectares onde vivem algumas famílias a serem reassentadas. Outra é a Agromoz (Agribusiness de Moçambique S.A.), sociedade de capitais brasileiro, moçambicano e português, dedicada ao cultivo de soja em dez mil hectares.
A falta de informações oficiais agrava a incerteza. “Só estamos ouvindo que há um programa chamado ProSavana pelos meios de comunicação e organizações da sociedade civil, o governo ainda não nos falou disto”, afirmou Razão. “Não estamos contra o desenvolvimento, mas queremos políticas que beneficiem o camponês e que nos expliquem o que é isto de ProSavana”, cobrou Costa Estevão, presidente do Núcleo Provincial de Camponeses de Nampula.
O acordo triangular, de aparente complementaridade entre o mercado importador japonês, os conhecimentos brasileiros e as terras de Moçambique, em execução desde 2011, já mostrou seu potencial de controvérsias.
Organizações sociais dos três países se mobilizaram para rejeitar ou reorientar o ProSavana. O Brasil quer “exportar um modelo em conflito”, segundo Fatima Mello, diretora de relações internacionais da organização não governamental brasileira Fase, que participou em agosto da Conferência Triangular dos Povos frente ao ProSavana, em Maputo.
Milhões de camponeses sem terra, êxodo rural, sangrentas disputas de terra, desmatamento e recordes mundiais no uso do agrotóxico são efeitos desse modelo que privilegia o agronegócio, a monocultura para exportação e as grandes empresas, destacam os ativistas, que defendem a agricultura familiar e a segurança alimentar.
Parte importante na implantação desse modelo foi o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), idealizado em 1974 e executado a partir de 1978, que inspira o ProSavana. Vem do Brasil a tecnologia a ser transferida aos agricultores do Corredor de Nacala. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) capacita técnicos e gestores do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique no primeiro projeto do ProSavana.
Os outros dois componentes, a elaboração do Plano Diretor que avalia as áreas e culturas com potencialidade no Corredor e o Projeto de Extensão e Modelos (PEM), também têm decisiva participação brasileira.
Faltam “um debate público profundo, amplo, transparente e democrático” com a sociedade  e a avaliação de impacto ambiental exigida legalmente, protestaram 23 organizações e movimentos sociais moçambicanos, apoiados por 42 internacionais, em carta aberta aos governantes do Brasil, Japão e Moçambique, assinada em Maputo no dia 23 de maio do ano passado.
Os signatários reivindicam suspensão imediata das ações do ProSavana, abertura de um diálogo oficial com todos os sectores sociais do país, prioridade para a agricultura camponesa e agroecológica e uma política de soberania alimentar. Todos os recursos destinados ao ProSavana devem ser “realocados na definição e elaboração de um Plano Nacional de Apoio à Agricultura Familiar sustentável”, afirma a carta.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Brasil é grande exportador de “água virtual”

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527047-brasil-e-grande-exportador-de-agua-virtual


Brasil é grande exportador de “água virtual”

As commodities agrícolas estão entre os principais itens de exportação do Brasil. A produção é tão elevada que se estima, atualmente, que a agricultura responde por mais de um quarto do PIB nacional. Porém, há um novo elemento, de abudante quantidade no País, que vem sendo muito bem cotado no mercado internacional e a China, um dos maiores clientes de nossas riquezas, já desponta como um dos grandes mercados para este antigo, porém valioso produto. A água!
A informação é publicada pela Agência USP, 07-01-2014.
O Brasil é hoje um dos maiores exportadores globais de “água virtual”, conceito criado para explicar a quantidade de água empregada para produzir um produto em um determinado local, porém destinado para outra localidade, criando assim um fluxo virtual entre os países.
“A China adotou uma política de aumentar as importações de culturas de elevado uso de água, como a soja, o que reduz a demanda de água na Ásia, mas aumenta a dependência de quem produz mercadorias que necessitam de irrigação no Mato Grosso”, explica Maria Victoria Ramos Ballester, professora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba.
Para países situados em regiões que sofrem com escassez hídrica, o comercio de água virtual é atraente e benéfico. “Por meio da importação de mercadorias que consomem muita água durante seu processo produtivo, nações, estados e municípios podem aliviar as pressões que sofrem sobre suas próprias fontes”, esclarece a professora. “Quando um produto, seja ele qual for, é comercializado entre países, estados ou municípios, entende-se que a água utilizada em seu processo fabril também foi exportada”, completa.
Ponto chave
Apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no âmbito das pesquisas de colaboração internacional promovidas pelo Belmont Forum, conselho de agências de fomento à pesquisa de vários países do mundo, a equipe de trabalho atuará em uma das fronteiras agrícolas de mais rápida expansão e intensificação do mundo, a bacia hidrográfica do Alto Xingu, localizada ao sul da Amazônia brasileira.
“A região do Alto Xingu é globalmente conectada por meio de exportações agrícolas e, portanto, é um ponto chave na rede mundial de comércio de água virtual”, afirma Vicky Ballester, pesquisadora do projeto e membro do Programa Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais.
Ao longo das últimas quatro décadas, o Alto Xingu sofreu um processo de desmatamento em larga escala, impulsionado principalmente pela intensificação da criação de gado e lavouras. Nos últimos vinte anos, a crescente demanda mundial por carne tem alimentado a expansão das áreas de cultivo na região, especialmente a soja para a alimentação animal. “As exportações de soja aumentaram e deslocaram-se da Europa, que era o principal mercado de destino em 2000, para aChina, que hoje se tornou o maior importador de soja de Mato Grosso”.
As tendências de crescimento populacional na Ásia indicam que esse comércio de água virtual se tornará ainda mais estratégico para a segurança hídrica dos países da região, principalmente a China. Os pesquisadores do projeto do Cena propõem avaliar o consumo de água da cultura de soja e sua eficiência, já que os recursos hídricos subterrâneos no Alto Xingu estão entre os menos explorados do planeta, o que sugere que a futura intensificação da agricultura pode recorrer a essa região para explorar ainda mais seus recursos para irrigação.
“Enquanto a água virtual, relacionada com as exportações de soja do Mato Grosso, está ajudando a subsidiar a segurança alimentar e hídrica na China, existem inúmeras demandas conflitantes de água dentro da bacia do Alto Xingu”, conclui a professora.

Por que o passado enfraquece a paz e o desenvolvimento

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-o-passado-enfraquece-a-paz-e-o-desenvolvimento/6/29955


Por que o passado enfraquece a paz e o desenvolvimento

Estamos frente a um período prolongado de instabilidade. Os legados das duas guerras mundiais se derreteram na herança do fim da Guerra Fria.


Roberto Savio (*)
Arquivo

San Salvador de Bahamas, janeiro de 2014 - À medida que o ano novo começa nos sentimos inclinados a adotar uma visão a longo prazo, assim veremos por que devemos ter paciência com nossas esperanças para a paz mundial. Ainda que a análise adequada deste tema exigiria um livro e não um artigo, tomo a liberdade de apresentar aqui alguns rascunhos muito crus para a reflexão.

Antes de mais nada, devemos concordar que estamos sendo vítimas de um ciclo de adaptações do pós-guerra. O ciclo começou com o fim da Primeira Guerra Mundial, continuou com o final da Segunda Guerra Mundial, e encerrou quando acabou a Guerra Fria. Mas enquanto ao acabar a Primeira Guerra Mundial nasceu a ideia da Sociedade de Nações, e o final da Segunda Guerra Mundial viu o nascimento das Nações Unidas, nada similar surgiu depois do fim da Guerra Fria.

A Primeira Guerra Mundial provocou o fim dos quatro impérios: o otomano, o austro-húngaro, o alemão e o russo.  É de amplo consenso que o ajuste depois desta guerra foi a causa de muitos dos conflitos que se seguiram. 

Por exemplo, as absurdas reparações de guerra impostas à Alemanha criaram o revanchismo que levou Hitler ao poder. O fim do Império austro-húngaro permitiu que os Balcãs se transformassem em um barril de pólvora. O final do Império Otomano e seu desmembramento pelas potências vencedoras em novos Estados artificiais está mostrando seus efeitos na atualidade.

Os protestos sociais generalizados de uma Europa empobrecida depois da Primeira Guerra Mundial marcaram o começo do nazismo e do comunismo: não reis ou pessoas, mas pela primeira vez, as ideologias. Assim, diferente das dinastias, eram as ideias no poder que uniram pessoas de todo o mundo.

Isso fez com que a Segunda Guerra Mundial fosse muito diferente em sua natureza e alcance que sua predecessora: era uma guerra entre as democracias e o nazismo. Contudo, o principal resultado foi dividir os ganhadores em dois blocos, o capitalismo e o comunismo. A ameaça do comunismo obrigou o Ocidente a adotar opções da justiça social, incluindo direitos dos trabalhadores, participação e valores sociais.

Enquanto isso, o resto do mundo se manejou em meio desta divisão, ou tratou de estabelecer seu próprio sistema – o Movimento dos Não Alinhados - e a divisão Norte-Sul se converteu em um importante novo ajuste de pós-guerra.

Na continuação, com a queda do Muro de Berlim em 1989, chegou o fim da Guerra Fria e da globalização. Esse ajuste do pós-guerra acrescenta elementos novos, adicionais às adaptações anteriores inacabadas e, dessa vez, a nível global. 
Com a globalização como marco de justificativa, um "novo capitalismo" se afiançou, no qual a harmonia social já não era vital, e a busca do máximo benefício no mercado se converteu no único valor, sem a "carga" dos custos sociais. O resultado foi o desmantelamento do sistema social, uma diminuição dos investimentos em educação e saúde, e a desaparição de sindicatos, para nomear só alguns. Em outras palavras, o fim da ideia de sociedades baseadas nos direitos de seus cidadãos.

A Suprema Corte dos EUA determinou inclusive que as corporações têm os mesmos direitos que os cidadãos. Entramos na era da "nova economia", baseada na ideia de que as pessoas são prescindíveis e que quanto menos formam parte da produção, melhor ainda. Os "novos" economistas argumentam que o desemprego chegou para ficar, e que o Estado tem pouco a ver com a economia. São os precursores de uma era sem precedentes na história, onde 99% do crescimento econômico vai para 1% da população e o salário fixo se converte em uma coisa do passado.

Um número crescente de jovens estão desempregados e aqueles que trabalham, o fazem com empregos precários. A rede de seguridade social que os avós e os pais ainda vão proporcionando, vai desaparecer gradualmente. As Nações Unidas predizem que as gerações jovens atuais se aposentarão com uma pensão mensal de 480 euros. Sem dúvida um mundo novo e diferente.

Hoje em dia, o legado que temos é uma combinação de ao menos três heranças que fazem distante a governança global. As Nações Unidas se fizeram cada vez mais marginais em virtude de uma globalização que funciona com dois motores: o comércio e as finanças. As finanças nunca fizeram parte das Nações Unidas, estão totalmente descontroladas e, desde 1994, o comércio é controlado com a criação da Organização Mundial do Comércio. Portanto, não existe um sistema que possa fazer frente à situação atual.

A primeira herança que temos é a criação de estados artificiais. Os Estados africanos e os países árabes foram criados em uma mesa de negociações entre as potências coloniais. Nenhum país árabe, exceto o Egito, pode proclamar uma história ininterrupta sobre seu território atual e seu povo. Os novos estados incorporam os grupos étnicos e religiosos, que não eram de todo homogêneos, e grupos homogêneos às vezes se desmembraram (basta olhar os curdos, que agora estão em quatro países: Turquia, Síria, Irã e Iraque). O processo de incorporação das minorias em toda a democracia é muito difícil, e requer um longo processo de emancipação nacional e sentido de interesse comum.  As regras da maioria e a minoria frequentemente exacerbam os conflitos.

Se prestarmos atenção, no segundo legado, de como as diferentes religiões devem coexistir, a dificuldade do processo de ajuste se torna mais clara.

A divisão entre sunitas e xiitas – e, mais importante, entre radicais e moderados -, é o obstáculo mais importante para a estabilidade entre os um milhão de muçulmanos no mundo. Só a modernidade elimina esse conflito, mas a modernidade vem com o desenvolvimento econômico, e tardará muito tempo antes que a modernidade chegue ao vasto mundo muçulmano.

A religião é também um elemento de conflito nos mundos budista e hinduísta.  A tecnicidade e a religião também jogam um papel importante na Ásia. Myanmar, com 40 minorias e diferentes religiões, é um bom exemplo de como é difícil o caminho para a democracia. E o mesmo acontece em tantos outros países, como a Malásia, Filipinas, Indonésia, Sri Lanka e assim sucessivamente. A democracia, em termos meramente formais, não pode resolver esses problemas se é que as minorias não se sentem, elas mesmas, uma parte real do processo de governança.

É evidente que só através da integração regional podem ser minimizados os conflitos locais, mas a integração continua sendo um objetivo longínquo. A América Latina, depois de dois séculos de independência política, só conseguiu produzir alguns acordos comerciais débeis e um insignificante Parlamento Latino-americano, integrado por representantes dos congressos nacionais e não eleitos pelos cidadãos, como na Europa.

A África nem sequer conseguiu isso. No início do processo de independência, houve um debate entre seus dois grandes: Jomo Kenyatta, do Quênia e Julius Nyerere, da Tanzânia. Kenyatta procurava a integração imediata da África, enquanto Nyerere apelou para a integração gradual, depois de uma fase de evolução nacional.

O resultado é que agora, com os parlamentos nacionais, os burocratas, os parlamentares e não apenas eles, a busca da unidade é muito débil. A Organização para a Unidade Africana não é mais que uma plataforma para reuniões de Chefes de Estado. Enquanto isso, o mundo árabe está mais dividido que nunca, e não conta com verdadeiras estruturas de inserção. A Ásia é tão vasta e diversa que nem sequer tenta algo tão completo, a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAM), uma iniciativa estadunidense para substituir a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (SEATO, na sigla em inglês), criada pelos países do sudeste asiático para formar uma frente comum contra o poder crescente da China, mas que é, geralmente, considerada como uma organização sem dentes. Portanto, a integração regional que poderia ter reduzido os conflitos nacionais, continua sendo muito distante.

Nosso terceiro legado é hoje a globalização. Homogeneizou-se o mundo pelo caminho errado, através do consumismo, por exemplo, do estilo de vida, do entretenimento e da comida, mas cresceu a divisão entre ricos e pobres em todo o mundo. Os países ricos têm agora um número crescente de pobres e os países pobres têm um número cada vez maior de ricos, com a justiça social em decadência, tanto internamente como internacionalmente.

Veja-se só o caso do desastre da fábrica têxtil Savar, de Bangladesh, no começo do ano passado, no qual mais de 1.000 pessoas perderam a vida. Nenhum tipo de indenização foi paga ainda, enquanto a indústria da confecção, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, continua aumentando seus lucros. A ausência total de leis sociais internacionais vai de mãos dadas com a globalização. A desigualdade social foi crescendo desde a queda do Muro de Berlim. A brecha entre ricos e pobres é cada vez maior em todo o mundo e a classe média está diminuindo, sobretudo na Europa.

Portanto, estamos frente a um período prolongado de instabilidade. Os legados das duas guerras mundiais se derreteram na herança do fim da Guerra Fria. Os Estados Unidos e a Europa se encontram em declive irreversível devido à aparição de um mundo multipolar, com novos países conquistando espaço e poder. E, entretanto, apesar de que se tenha definido claramente temas globais como a mudança climática, quando estes entram em conflito com os interesses econômicos, não se caminha a nenhuma parte, apesar de que já há muito tempo foram aprovados alguns tratados internacionais relevantes.

Será necessário tempo para chegar a um acordo com nossos legados e encontrar a solução justa para o futuro. Mas esta não é uma razão para perder a paciência com a governabilidade e a paz. Deveríamos dar-nos conta que uma nova era virá e que vamos sair da atual.

Como escreveu o filósofo italiano Antônio Gramsci em seus “Cadernos do cárcere”, quando um ciclo histórico termina e o novo ainda não chega, vamos ter que lidar com os “monstros”.

Então, quando sairemos da instabilidade atual? Provavelmente só quando um protesto global contra a injustiça social trouxer um pouco de interesse comum e semelhança entre ação e visão... E isso não está tão longe!

(*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e Publisher do Other News.

terça-feira, outubro 08, 2013

história das soluções

a história das soluções

versão em português:
http://youtu.be/kcBGf3E24iY

original:
http://youtu.be/cpkRvc-sOKk



The Story of Solutions explores how we can move our economy in a more sustainable and just direction, starting with orienting ourselves toward a new goal.

*

domingo, setembro 29, 2013

Alemanha forte, Europa social destroçada

outras palavras
http://outraspalavras.net/capa/alemanha-forte-europa-social-destrocada/

Alemanha forte, Europa social destroçada

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Reeleição de Angela Merkel pressagia continente que abandona solidariedade, assume face punitiva do protestantismo e descamba para desigualdade e xenofobia
Por Roberto Sávio | Tradução: Vinícius Gomes
As recentes eleições alemãs borraram as fronteiras entre norte e sul da Europa. Ao longo dos últimos três anos, todo o mundo parecia olhar apenas para a crise na Grécia, seguida pela da Irlanda, de Portugal; pelo declínio da França, a estagnação da Espanha e a falta de governabilidade na Itália. Poucos perceberam que a Holanda (quinta economia da zona do euro) foi obrigada a admitir que em 2014 não conseguirá cumprir a meta de déficit fiscal abaixo de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e já atingiu os 3,8%.
A Finlândia, outra forte aliada no dogma de “austeridade” da Alemanha e sua firme imposição no sul da Europa, admitiu que terá de violar outro princípio: aquele segundo o qual o endividamento não pode ultrapassar 60% do PIB. Também a Áustria parece caminhar em direção à desaceleração, sem falar da situação difícil dos países da Europa Oriental e da Polônia. A Eslovênia figura na lista como o próximo país a ser “resgatado”, depois do Chipre.
Em seu discurso no Dia do Príncipe, para as duas casas do parlamento holandês, o rei William praticamente liquidou o conceito de Estado de bem-estar social, ao dizer claramente que o sistema clássico da segunda metade do século XX seria “insustentável”, e clamar por sua substituição pela chamada “participação da sociedade”, em que as pessoas são responsáveis por seu próprio futuro. O rei lia um discurso preparado pelo premiê liberal Mark Rutte, que comanda o país com apoio dos sociais-democratas. […]
É exatamente a mesma posição do candidato republicano Mitt Romney durante sua campanha contra Barack Obama, nas últimas eleições dos EUA. Trata-se de um excelente exemplo de como o modelo social europeu vem progressivamente minguando e se tornando cada vez mais parecido com o norte-americano. E para ficar ainda mais semelhante, logo depois do discurso do rei o governo holandês comprou, por 6 bilhões de dólares, 37 caças F-35. A manutenção destes caças irá custar 300 milhões ao ano – um custo que certamente deixará mais seguros os cidadãos holandeses ameaçados de cortes em aposentadorias e benefícios sociais…
Ao vencer as eleições, Angela Merkel já anunciou que irá manter a “austeridade” como base dos relacionamentos da Alemanha na Europa. Em outras palavras, os países devem continuar cortando custos sociais para equilibrar o orçamento. Merkel acredita que a unidade europeia é importante: sabe bem que uma das razões para o sucesso da Alemanha é que uma Europa fraca torna mais forte a economia alemã, via exportações e taxas de juros. Mas Merkel não é uma líder da Europa, ela é líder da Alemanha. Nunca tentou explicar aos seus cidadãos as razões fundamentais da vantagem alemã.
O fato é que os empréstimos às nações do sul da Europa destinaram-se, primeiramente, a pagar as dívidas dos bancos daqueles países, sendo que alto percentual foi parar nos bancos alemães, detentores de títulos da Grécia, Irlanda, Portugal e por aí vai (além de a Alemanha injetar, em seus próprios bancos, 300 bilhões de dólares).
Merkel é uma líder que, ao contrário de seus antecessores, não se sente responsável, por razões pessoais e históricas, pelos pecados passados da Alemanha. Ela não tem problema algum em projetar uma imagem controversa de seu país. Não vê problemas em manter relações difíceis com outros líderes europeus. Tem sido acusada de usar como modelo a Suíça (mais Zurique que Genebra): um país que só quer saber de comerciar e, basicamente, evita envolver-se na solução dos problemas internacionais, a não ser que afetem a estabilidade nacional. Merkel não definiu posição alguma da Alemanha sobre assuntos globais, além do reconhecimento genérico de que os Estados Unidos são o país responsável pela ordem mundial. Ela aceitou a posição de Obama nas questões da Líbia, do Egito e da Síria, mas não comprometeu a Alemanha a tomar nenhuma medida concreta. Na prática, a Alemanha está completamente ausente de qualquer debate global, de meio ambiente a desarmamento; de governança e governabilidade ao papel das Nações Unidas.
Na Europa, ela considera que os alemães – que teriam pago seus impostos e trabalhado duro, enquanto Grécia, Irlanda e Portugal gastavam dinheiro alegremente – estavam comprometidos, sob o comando do antigo chanceler Gerhard Schröder, com um processo doloroso e não solicitado de redução do bem-estar social. O modelo social alemão, acredita, tem sido um sucesso. Discursando em Meschede, na Renânia do Norte-Vestfália, em 2011, ela afirmou claramente: “Não podemos ser solidários e aceitar que países endividados continuem como estão. A Alemanha vai ajudar, mas apenas se os outros se esforçarem e demostrarem esforços. É importante que em países como Grécia, Espanha e Portugal as pessoas não possam aposentar-se antes que na Alemanha – que todos se esforcem mais ou menos igualmente. Isso é importante… Não podemos ter uma moeda comum se alguns têm muito tempo de férias e outros, pouco. Isso não vai funcionar no longo prazo.” E em 2012, quando a ideia de emitir eurobônus (títulos garantidos por todos os países da zona do euro para sustentar as finanças dos países europeus mais fracos) foi posta de lado, ela declarou enfaticamente: “Enquanto eu viver, não haverá eurobônus.” Disse ainda: “Programas de assistência devem estar sempre sujeitos a condições bem estritas”.
Assim sendo, o modelo social da Alemanha deve tornar-se o modelo social europeu. Parece fácil do ponto de vista de Berlim, mas, para países em recessão, manter os cortes de serviços públicos causa sérios custos sociais, como já admitiu até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses custos são vistos como desperdício e esbanjamento na Alemanha, onde o valor protestante da punição dos pecados desempenha forte, embora não declarada justificativa psicológica diante de notícias sobre o sofrimento dos cidadãos na Grécia e outros países no sul da Europa.
Merkel tem posição bem definida sobre a Europa, sempre sugerida, ainda que não expressa claramente. Ela favorece fortemente maior integração. Mas não procura fazê-lo delegando poderes às instituições européias, e sim por meio de mais e mais acordos entre a Alemanha e outros Estados. Tem resistido a ampliar os poderes do Banco Central Europeu (ECB) e diluído seu programa de controle do sistema bancário. Mas não tem nenhum problema em, por exemplo, fechar um acordo bilateral com a Espanha para aceitar profissionais qualificados como imigrantes (no ano passado a Alemanha bateu o recorde de um milhão de imigrantes), como forma de ajudar no emprego dos jovens. E tem feito várias declarações sugerindo que “é hora de retomar algumas funções de Bruxelas de volta aos Estados nacionais”.
Na verdade, isso torna Angela Merkel muito mais próxima do primeiro-ministro britânico David Cameron do que a maioria das pessoas imagina. Quando eles se conheceram, em junho de 2012, ambos assumiram exatamente as mesmas posições em relação ao orçamento europeu, deixando o presidente francês François Hollande completamente isolado. E foi Hollande quem teve de ir à luta junto a Cameron pela visão europeia, com Merkel basicamente assistindo. Cameron vê a Europa apenas como um mercado comum. A visão de Merkel não está distante disso. Ela olha para um conjunto de relações entre Estados europeus, com Bruxelas coordenado políticas comuns, mas com a condição de que os países se alinhem ao modelo social alemão.
Assim, nos próximos quatro anos não haverá grandes mudanças, ainda que um Partido Social Democrata (SPD) muito enfraquecido faça uma coalizão com Merkel. A propósito, o SPD debilitou-se precisamente por causa das reformas austeras de Schröder, e desde então não conseguiu se recompor. Fora alguns sinais progressistas emitidos durante a recente campanha eleitoral, as diferenças nas questões sociais entre o SPD e a União Democrática Cristã (CDU), de Merkel, foram mínimas. Em Dortmund (580 mil habitantes), um em cada quatro cidadãos está próximo da linha de pobreza e vive de subsídios. Nacionalmente, 6 milhões de alemães recebem alguma forma de ajuda estatal e 2,5 milhões com menos de 18 anos vivem na pobreza, de acordo com Massimo Nava, do Il Corriere della Sera. Enquanto isso, as frustrações na antiga Alemanha Oriental, que permanece mais deprimida que o resto do país, não se refletem em comparecimento às urnas, mas em abstenção. Os alemães olham para além de suas fronteiras e, temendo o pior, preferem manter o status quo.
Examinemos mais de perto uma era de Europa pós-Merkel. A partir do sul, a política de austeridade irá se propagar por toda a Europa. É possível que os cortes na seguridade social produzam alguns resultados, em termos macroeconômicos e orçamentários. A Grã-Bretanha é um bom exemplo. Cameron vem desmontando o famoso Sistema Nacional de Saúde do país, exemplo para toda a Europa depois da II Guerra Mundial. Ele vem cortando o orçamento da educação e o que mais seja possível, e também está privatizando cada vez mais. O setor financeiro corresponde hoje a 10% do PIB britânico e 2.436 banqueiros receberam mais de 1 milhão de euros em 2011, de acordo com as autoridades do Banco Europeu. O Partido Conservador obtém mais de 59% de seu financiamento na City, o centro financeiro de Londres. Em nível orçamentário parece haver uma melhoria à vista, mas, ao mesmo tempo, segundo previsões da London School of Economics para 2025, o país irá voltar aos tempos da Rainha Vitória, em termos de desigualdade social.
Essa tendência vai espalhar-se por toda a Europa – em diferentes velocidades, mas na mesma direção. Isso está derrubando a esquerda tradicional, que entrou na onda do liberalismo e globalização – ao invés de se colocar lado a lado com as vítimas. Estas, ou deixaram a política de lado ou se juntaram a partidos de protesto (geralmente xenófobos e de extrema direita), que estão surgindo em todos os lugares – desde o Partido Alternativo na Alemanha, que vem avançando, até seus semelhantes na Grã-Bretanha, Holanda, Noruega, Dinamarca, Hungria etc.
De certa forma, Merkel vem atacando e erodindo constantemente o SPD. Ele é agora um partido debilitado, que vai perder ainda mais força e credibilidade se aderir à premiê no governo. Em toda a Europa, os partidos tradicionais de esquerda estão em crise: as últimas eleições da Noruega, onde até mesmo o partido mais radical de extrema direita foi proporcionalmente melhor que os sociais-democratas, deveriam abrir os olhos de todo mundo.
O caso agora é muito sério: ao destruir os valores de justiça social e solidariedade, que eram o espírito de unidade real da Europa, Angela Merkel está, na verdade, também destruindo os valores em que o Cristianismo se baseia (ouça-se o Papa Francisco!). Quando ela deixar o cargo, muito provavelmente vai existir uma Europa bem diferente – muito radicalizada, onde possivelmente as pessoas excluídas vão retornar à política. A longo prazo, será que isso realmente corresponde aos interesses do CDU?
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